17 de dez. de 2019

Há cinco anos atrás, Cinco Herois voltavam para casa .. Em um dia 17. Como hoje. Portanto, hoje é dia de "tuitaço" !!


Cinco anos atrás no dia 17 de dezembro de 2014 uma profecia de um gigante se cumpria: Fidel Castro, em 2001 dizia em um de seus pronunciamentos que os Cinco cubanos presos injustamente nos Estados Unidos eram comprovadamente inocentes e que voltariam para casa. VOLVERÁN !  disse o Comandante em Chefe.
Condenados a longas penas e prisões perpétuas, nós mesmos que lutávamos por sua liberdade sabíamos que seria uma batalha dura e longa. E assim foi.



Dezesseis anos após suas prisões, aqueles Cinco homens que entregaram suas vidas a uma causa  :  conseguir desativar planos terroristas contra Cuba - voltaram a seus lares e em Cuba seguem servindo ao seu país cada um com seu talento especial.


A alegria que sentimos naquele 17 de dezembro em 2014 não há  como traduzir. Assistimos pela internet , absolutamente boquiabertos, em cada canto do planeta (éramos centenas de Comitês dos Cinco) o pronunciamento de Obama e do presidente Raul Castro quase simultâneos informando a libertação dos Cinco.
Não dá para descrever o assombro, a alegria, a sensação de liberdade que sentimos ali.



Hoje, revendo o vídeo que fizemos sobre o caso (que foi atualizado quando René foi libertado) é emocionante reviver a luta, cada batalha travada em diversos países.


Por isso, a partir daquele dia, todo dia 17 fazemos um tuitaço pelo fim do bloqueio . E seguimos com a mesma certeza de antes :

#NoMasBloqueo          #ElBloqueoEsReal 

Tuitaço é hoje ! É agora ! 

10 de dez. de 2019

10 DE DEZEMBRO : DIA DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS



Governo de Cuba garante direitos universais dos cidadãos



Havana, 10 dez (Prensa Latina) Cuba celebra hoje o Dia dos Direitos Humanos com maior acesso de seus cidadãos à educação e à saúde, no meio do recrudescimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos há quase seis décadas.

A nação antilhana também é alvo de uma campanha difamatória em que tratam de anular os sucessos da ilha, por exemplo, no campo da educação, algo tão elementar para as pessoas e que em muitos lugares estão privadas de chegar  ao ensino gratuito e de qualidade.

O governo, no meio da complexa situação que vive o país, conseguiu que mais de um milhão 700 mil estudantes começassem  em setembro o período escolar 2019-2020.

Segundo dados oferecidos pelo Ministério de Educação, conta-se com mais de 160 mil professores nas salas de aulas.

No ensino superior há uma presença estimada de 250 mil universitários.

O sistema de saúde cubano sofre graves afetações por essa política hostil estadunidense, pois dificulta adquirir medicamentos, reativos, instrumental, peças de reposição  para equipamentos médicos e outros insumos necessários para o funcionamento do setor.

Não obstante, a maior das Antilhas, mostra avanços tangíveis em direitos humanos, por exemplo, na atenção a pessoas com dificuldades tendo como prioridade a inclusão, desenvolvimento e igualdade deste segmento social.

Desde o ano 2003 até o último ano  o país diminuiu a dificuldade intelectual em  10,4 por cento, a físico motora em 3,72 e a visual em 1,16, precisa o Departamento Nacional de Idosos, Assistência Social e Saúde Mental do Ministério de Saúde Pública.

Na Ilha funcionam programas nacionais como a reabilitação Integral, atenção às pessoas com dificuldade visual e auditiva.

Também se beneficiam cidadãos surdos, cegos com implantes cocleares e existem as ajudas técnicas para as pessoas com dificuldade  temporária e permanente.

Além disso, executa-se o Programa Nacional de Genética Médica e a Estratégia para a atenção à doença de Alzheimer e as Síndromes Demenciais, assinalou a fonte.

No caso específico da dificuldade auditiva e visual, foram criados 20 serviços especializados de baixa visão, de três que existiam no ano 2003.

Existe o equipamento para pesquisa, diagnóstico e reabilitação da dificuldade auditiva na rede pediátrica e realiza-se a investigação auditiva a todos os recém nascidos antes da alta da maternidade.


Tradução: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba 


Em um ano no qual as mulheres estão nas ruas em todo o mundo e demonstrando sua importância em todas as esferas , seguimos com mais um artigo a respeito da questão feminina em Cuba:






Embora, certamente, a humanidade tenha avançado no reconhecimento dos direitos das mulheres e, apesar dos importantes avanços legais nesse sentido, ainda existe uma enorme lacuna entre o reconhecimento formal desses direitos e a possibilidade real de usufruí-los.
De acordo com um artigo publicado pelo jornal Granma, “Cuba é um país de alto desenvolvimento humano, que ocupa a 51ª posição entre 187 países, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2011”.
As cubanas puderam liderar a lista dos privilegiados em termos de equidade e direitos dos cidadãos alcançados em seu país a partir de lutas e desafios, em uma sociedade que não discrimina as mulheres.
Elas atuam como professoras, engenheiras, políticas, construtoras, policiais, agricultoras e muitas outras áreas do conhecimento, nas quais atuam com eficiência e dedicação.
A inserção das cubanas no processo de desenvolvimento do país como beneficiárias e protagonistas ativas deve ser avaliada como um dos fenômenos sociais de maior sucesso ocorridos no último meio século na maior ilha das Antilhas.
Sua proeminência não é alcançada apenas no campo político e econômico, mas também no campo social, são desenvolvidos programas que nos beneficiam, como acompanhamento materno- infantil, detecção precoce de câncer de colo uterino e de mama e outros que priorizam doenças próprias da mulher e processos biológicos como gravidez, maternidade e climatério.
Cuba foi o primeiro país a assinar (e o segundo em ratificar) a “Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres”, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 18 de dezembro de 1979.
Hoje, quando muitas mulheres no mundo ainda não conhecem seus próprios direitos como seres humanos, Cuba é uma bandeira para muitas nações, uma bandeira que orgulhosamente exibe suas conquistas em equidade e na luta por um mundo em que homens e mulheres sejam respeitados como iguais.



 Tomado de  Radio Cadena Agramonte, provincia de Camagüey. Cuba. Por Mariela Peña Seguí/





7 de dez. de 2019

ESTREIA EM CUBA O FILME SOBRE OS CINCO CUBANOS



OS CINCO CUBANOS

Do Facebook  da amiga Gloria Gonzalez Justo, de Cuba: "Não são 18 horas ainda e já se formou uma fila imensa para ver o filme "Rede Avispa" sobre os Cinco cubanos que estiveram até por 16 anos presos injustamente nos Estados Unidos. FIDEL disse 'regressarão' e regressaram. A luta dos cubanos e a solidariedade internacional os libertou"






O filme é baseado no livro de Fernando Morais "Os últimos soldados da Guerra Fria" e estreia hoje no Festival de Cinema de Havana com sessão às 20 horas (e a fila lá está desde as seis... )


5 de dez. de 2019

A cruzada dos Estados Unidos contra a cooperação médica internacional de Cuba





Declaração do Ministério de Relações Exteriores

  
Como se alertou na Declaração do MINREX de 29 de agosto de 2019, o governo dos Estados Unidos tem aplicado, desde o ano passado, uma intensa e difamatória campanha contra a colaboração médica que Cuba oferece, combinada com a ameaça de sanções a dirigentes cubanos e pressões contra os Estados receptores para que a dispensem.

Dirigida a partir do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, conta com a ativa participação de senadores e congressistas associados à máfia anticubana da Flórida e de frenéticos servidores públicos do Departamento de Estado.
Acusam Cuba de suposta “escravidão moderna” e “tráfico de pessoas” que atuam no sistema de saúde cubano, com fins de exploração, ou de alegada ingerência destes em assuntos internos dos Estados em que estão localizados.

Tentam ademais restabelecer o chamado “Programa de Parole  para Profissionais Médicos Cubanos”, existente até 12 de janeiro de 2017, como sustentáculo de um ativo gerenciamento de incitação à deserção, pagamento de passagens  e serviços legais, provisão de vistos estadunidenses e documentos de viagem a cooperantes em terceiros países com o propósito de sabotar os acordos bilaterais assinados com estes, privar de seus serviços e nos despojar de recursos humanos altamente qualificados.

Em maio de 2019, o Secretário Geral da Organização de Estados Americanos organizou uma Conferência na sede daquela organização sobre os supostos crimes de lesa humanidade cometidos por Cuba, em relação à cooperação médica cubana no exterior.

Em junho, o Departamento de Estado, em seu Relatório sobre tráfico de Pessoas 2019, difamou a cooperação médica internacional de Cuba e, um mês depois, impôs sanções de restrição de vistos a servidores públicos cubanos vinculados com as missões médicas.

Depois, a Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID), instituição estadunidense que contribui com fundos para os programas de subversão contra o Governo de Cuba, destinou 3 milhões de dólares para projetos dirigidos contra as brigadas médicas de Cuba no exterior.



A perseguição dos Estados Unidos iniciou-se pela América Latina e tem forçado o encerramento dos programas de cooperação no Brasil, Equador e Bolívia.

O fascista e servil Presidente brasileiro Jair Bolsonaro difamou e expulsou nossos médicos especialistas que, ao amparo de um acordo tripartite com a Organização Pan-americana de Saúde, desde agosto de 2013 até novembro de 2018, atenderam a 113 milhões 359 mil pacientes, em mais de 3 mil 600 municípios e deram cobertura permanente a 60 milhões de brasileiros.
Em nosso país, 1214 estudantes brasileiros se graduaram em medicina.
Essa decisão permitiu-lhe mostrar-se complacente com o governo norte-americano e desmontar um programa dirigido a famílias de baixas rendas, dentro de uma política brutal de reversão de conquistas sociais atingidas durante os governos progressistas do Partido dos Trabalhadores.

Altos servidores públicos dos Estados Unidos têm usado calúnia de que as brigadas médicas cubanas na República Bolivariana de Venezuela são tropas militares, o que Bolsonaro repetiu como um papagaio, em setembro de 2019, durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, replicando de maneira ridícula, por maldade ou ignorância, a cifra mentirosa e infundada, utilizada por Washington.



Servidores públicos do Departamento de Estado, da Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e de Embaixadas estadunidenses têm ido a autoridades nacionais, como na Guatemala, para inquirir de forma peremptória e suspeita, dados precisos da cooperação médica cubana com o objetivo de encontrar  maneira de eliminá-la.

Em maio de 2019, a Embaixada de Estados Unidos no Equador reivindicou a altos servidores públicos do governo informação detalhada sobre os convênios e os serviços dos cooperantes cubanos. Cinco meses depois, o governo equatoriano deu-os por terminados, de forma imediata apesar de sua iminente expiração, alegando razões econômicas.

Desde o início da colaboração médica neste país, brindaram seus serviços um total de 3 mil 565 profissionais da saúde cubana. Realizaram-se 6 milhões 749 mil 666 consultas médicas, 212 mil 360 intervenções cirúrgicas, assistiram-se 3 mil 548 partos e aplicaram-se 100 mil 84 dose de vacinação. Participaram da “Operação Milagro” 153 colaboradores, programa mediante o qual se realizaram 168 mil 543 intervenções cirúrgicas. Como resultado da Missão Solidária “Manuela Espejo”, foram atendidas 825 mil 576 pessoas, delas 35 mil 257 em consultas especializadas de neurofisiologia e otorrinolaringologia e a 21 mil 62 pacientes se lhes fizeram estudos de genética clínica.
Além disso, terminaram seus estudos em Cuba, 2093 jovens equatorianos.
Em outubro, o Ministério de Relações Exteriores do Equador solicitou informações sobre o propósito da viagem a esse país de uma lista de cidadãos cubanos portadores de passaportes diplomáticos e oficiais. Depois, a Ministra de Governo declarou injuriosamente que vários cubanos, associados aos convênios de cooperação, participaram dos protestos que o povo equatoriano protagonizou contra a aplicação de medidas neoliberais nesse período.
Como se comprovou, nenhum cubano foi participante ou organizador dessas manifestações populares e nem um só passaporte oficial ou diplomata foi indevidamente utilizado.  Os manipuladores não puderam apresentar uma só evidência.
O Estado cubano expede os passaportes diplomáticos, oficiais e de serviço, em correspondência com o estabelecido na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e Consulares, e garante que os titulares cumpram com o estabelecido para o uso adequado dos mesmos.



Durante o golpe de estado na Bolívia, a  Embaixada dos Estados Unidos em La Paz instigou, conduziu e participou diretamente em ações hostis de forças policiais e, surpreendentemente de bombeiros, contra os cooperantes cubanos. Como se denunciou publicamente, servidores públicos norte-americanos participaram diretamente em ditos atos, utilizando o veículo diplomático estadunidense com matrícula 28 CD-17.
Nesses dias, produziram-se 26 incidentes graves contra nossos cooperantes, incluída a agressão a dois deles; a incitação pública de autoridades golpistas à violência; registros brutais a suas pessoas, pertences e domicílios; acusações falsas, a detenção temporária arbitrária de 50 colaboradores da saúde, 4 deles por vários dias.
Ante esta situação, o governo cubano viu-se obrigado a proceder ao retorno imediato de nosso pessoal e recusou contundentemente as declarações mentirosas do chamado Ministro de Saúde golpista que exagera descaradamente o valor dos estipêndios dos especialistas médicos cubanos, em realidade inferior ao dos médicos gerais bolivianos; e oculta que Cuba não recebeu um centavo de benefício desta cooperação.

A Brigada Médica Cubana na Bolívia, integrada por 54% de mulheres, estava composta por 406 médicos de 32 especialidades como Medicina Geral Integral, Pediatria, Medicina Interna, Ginecologia e Obstetrícia, Anestesiologia e Reanimação, Oftalmologia, Cirurgia Geral, Ortopedia e Traumatologia, Medicina Intensiva e Emergência, Neonatologia, entre outras. Igualmente realizavam um destacado trabalho, 258 licenciados em tecnologias da saúde como imagenologia, endoscopia, eletromedicina, laboratoristas clínicos, reabilitadores e enfermaria.

Nestes anos de trabalho, ofereceram 73 milhões 330 mil 447 consultas e realizaram 1 milhão 529 301 intervenções cirúrgicas. Assistiram 60 mil 640 partos, aplicaram 22 mil 221 vacinas e realizaram 508 mil 403 cirurgias oftalmológicas.
Nas universidades cubanas, se graduaram 5184 médicos bolivianos.

A perseguição e busca de informação tem incluído tentativas de interrogar o pessoal cubano por “diplomatas” dos Estados Unidos nos próprios centros de saúde onde este atua no exterior, inclusive no norte da África e Oriente Médio.
É imoral e inaceitável que se questione a dignidade, o profissionalismo e o altruísmo dos mais de 400 mil colaboradores cubanos da saúde que, em 56 anos, têm cumprido missões em 164 nações.



Destacam-se suas façanhas na luta contra o ébola na África, a cegueira na América Latina e Caribe, a cólera no Haiti e a participação de 26 brigadas do Contingente Internacional de Médicos Especializados em Desastres e Grandes Epidemias “Henry Reeve” no Paquistão, Indonésia, México, Equador, Peru, Chile e Venezuela, entre outros.

Com o mesmo desinteresse e consagração, em Cuba formaram-se de maneira gratuita 35 mil 613 profissionais da saúde de 138 países.

No caso das nações com condições econômicas mais desfavoráveis, Cuba assume praticamente as despesas da colaboração. De igual modo e alinhada  às concepções das Nações Unidas sobre a cooperação entre países em desenvolvimento, esta se oferece em outras nações sobre a base da complementaridade e a compensação parcial pelos serviços prestados.

Os técnicos e profissionais cubanos que participam desses programas o fazem absolutamente de maneira livre e voluntária. Durante o cumprimento de sua missão, continuam recebendo integralmente seu salário em Cuba e dispõem, ademais, de um estipêndio no país de destino, junto a outras prestações.

Quando Cuba recebe compensação pela cooperação prestada, esses colaboradores têm o mérito de brindar uma contribuição justa e totalmente legítima para o financiamento, a sustentabilidade e o desenvolvimento do sistema de saúde em massa e gratuito, acessível a todos os cubanos, bem como para os programas de cooperação que se realizam, sem nenhum pagamento a nosso país, em muitas partes do mundo.

Conforme declaramos no último 29 de agosto, o acesso à saúde é um direito humano. A cruzada dos Estados Unidos contra a cooperação médica internacional é um ato infame e criminoso contra os povos necessitados de assistência médica, que não poderá ofuscar a contribuição solidária e humana dos 29 mil profissionais da saúde cubanos, que com enorme sacrifício e entendimento de seus familiares, oferecem serviços atualmente a 65 nações.

A atitude do Governo dos Estados Unidos neste assunto é desprezível. A resposta de Cuba é firme: continuaremos salvando vidas e tentando a saúde e o bem-estar pelo mundo, no limite de nossas possibilidades, onde quer que nos solicitem.

Havana, 5 de dezembro de 2019.


(Cubaminrex)



Tradução: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba

Texto original: http://www.minrex.gob.cu/es/la-cruzada-de-estados-unidos-contra-la-cooperacion-medica-internacional-de-cuba

Fidel: Personificação de justiça






 Horas que fizeram história, primeiro discurso do Fidel  na ONU. Foto: Arquivo.


Provavelmente a voz de Enrico Caruso ainda se escutava no fonógrafo da casa, aquele aparelho de trombeta com estampa de caracol que a ele lhe parecia o começo de todos os infinitos e de um rumor que não se apagaria nunca em seu espírito até se converter em tempestade ou sinfonia na alma: ânsia de justiça; maravilhosa, temerária e infinita paixão que se avivaria primeiro no menino e depois no homem Fidel Alejandro Castro Ruz, uma emoção não só para si, senão essencialmente, para os demais, como uma vocação de vida indeclinável.
Uma vez em seu escritório de luzes douradas no entardecer e marcas de barro no piso, onde seus passos  ressoavam docemente de um a outro lado do local,  me disse: “As ideias desenvolvem-se, Katiuska, as ideias desenvolvem-se”, afirmação que me levaria a pensar que também os sentimentos palpitam, se desenvolvem, afloram. No Comandante Fidel, a rebeldia ante o injusto foi crescendo sempre, bem como a busca incessante de justiça para todos em qualquer rincão de Cuba, de  Nossa América ou da humanidade.

Contava poucos anos de idade quando começou a se rebelar, foram verdadeiras escaramuças que conseguiu vencer no âmbito do quotidiano, quando decidiu não cumprir as ordens na casa de Santiago de Cuba, onde o enviaram por iniciativa de uma professora áspera, que utilizou maldosamente o desejo de Ángel e Lina  - os pais de Fidel - de que seus filhos aprendessem e continuassem estudos superiores, impossíveis na pequena escola rural do povoado de Birán, uma localidade ao noroeste da antiga província do Oriente, onde Fidel tinha nascido no verão de 1926, então, lugar quase desconhecido da geografia nacional que nem sequer aparecia nos mapas.
Em Santiago, Fidel viveu um rigor de desejos intensos e incompreensões   que o fizeram sofrer e se decidir à insubordinação, ainda que tudo se interpretasse como pueril esforço de um menino. Desse tempo, nunca esqueceria a triste fila dos trabalhadores  haitianos deportados: junto à Alameda, o barco de chaminés  imensas que os levaria de regresso a maiores infortúnios. Anos depois moveria céu e terra para ajudar o país que protagonizou a primeira grande revolução libertária no Caribe  e América Latina. No ano 2010, Haiti, sacudido de dor, arrastava o peso da vingança ocidental que propiciou sua ruína e da ferocidade de uma natureza que colapsa e intensifica furacões, terremotos e maremotos.
Mas em sua infância ainda Fidel não vislumbrava tais desgraças. No Colégio  La Salle  assumiu igual atitude desafiante ante o problema  de um Irmão e o veredicto injusto do Diretor dado ao velho Ángel, que decidiu não enviar  seus filhos novamente ao colégio. Ante tal determinação, Fidel falou determinadamente com sua mãe a quem convenceu de que tudo se tratava de uma grande injustiça. Aquela vez ameaçou incendiar a casa se não o enviassem a estudar, ainda que ao longo de toda sua vida sempre tivesse assegurado que nunca teria chegado a fazer nada nesse sentido. Teve o apoio de Lina que intercedeu com o velho e, no próprio janeiro de 1938, dom Ángel viajou à cidade capital da província para inscrevê-lo no Colégio Dolores da Companhia de Jesus.
Eram os tempos em que regressava a Birán  de férias e percebia as diferenças entre ele e seus amigos, filhos de empregados e camponeses, mas ainda não as entendia, era tudo como algo estabelecido, ordem natural e incompreensível que despertava  nele solidariedade, gestos generosos e compartilhados com os que, a seus olhos, tinham falta de roupas e alimentos. Inquieto, já tinha perguntado por que entre os alunos das escolas não existiam estudantes negros. A resposta não o convenceu. Disseram que para que não se sentissem incomodados por  serem  diferentes ou se encontrar em minoria. Olhava a seu redor e começava a observar com perspicácia, fazia-se numerosas perguntas. Com persistência, recordava que seus amigos da infância não tinham podido estudar.
Quando ingressou no Colégio de Belém, em Havana, recebeu agravos por ser rapaz do campo, mas ao passar dos anos  - devido a seus bons desempenhos acadêmicos e esportivos -  acabou aclamado ao graduar-se naquela instituição onde cursavam estudos os filhos das famílias mais ricas do país. Ali estreitou amizade com o secretário docente e os empregados da cozinha; Gildo Fleitas, os irmãos Gómez. Eles lhe acompanharão anos depois no assalto que seria o ataque ao Moncada, sublime ato de busca da justiça.
Inquietudes e adesões então foram prelúdio de uma cascata de lutas na Universidade de Havana onde se fez de corpo inteiro, um revolucionário. As leituras sobre a Revolução Francesa avivaram nele os impulsos combativos, mas conseguiu ver tudo nitidamente ao ler o Manifesto Comunista, encontrou enfim a bússola de seus dias, a explicação nítida e certeira que buscava sobre o que acontecia na sociedade. Como um Quixote, na Universidade sempre se encontrava em oposição. Quase no auge sentiu o estremecimento por Hiroshima e Nagasaki.
Não existiu causa justa que não o tivesse entre seus mais veementes defensores: o antirracismo, a desigualdade da vida universitária e do país, a independência de Porto Rico, a solidariedade com o povo dominicano que sofria os desmandos de Trujillo, os pronunciamentos contra o ditador Somoza em Nicarágua, as lutas pela soberania do canal de Panamá, o direito argentino às Malvinas, a solidariedade antifascista, a explosão popular em Bogotá, as lutas sociais cubanas contra a carestia da vida, o anti-imperialismo manifesto, a ideia de lutar para que Cuba fosse um país soberano e justo.
Quando se graduou como advogado se pôs a serviço dos pobres, dos injustiçados, dos que nada tinham para lhe pagar o desempenho de seu trabalho. Renunciou por ética e delicadeza a pleitos onde poderia ter enriquecido. Defendeu os habitantes de vários bairros da capital, como A Pelusa, para que não fossem desalojados sem indenização; trabalhadores do Sindicato de Carregadores do Mercado Único de Havana, a grupos de estudantes acusados de desordem pública, a camponeses da zona de Santa Cruz do Norte. Fidel também se solidarizou com os carpinteiros que deviam dinheiro às madeireiras.
Integrou as filas do Partido dos Ortodoxos, avalanche popular que seria fonte nutriz valiosa para suas lutas. Começou a sonhar com uma Revolução, como  ditar desde o Congresso leis revolucionárias que mudassem o rosto desigual e injusto da Ilha, razão pela qual se postulou a Representante. Em 1951, orientou seus clientes a  seguirem  na Direção Central de Serviços Públicos contra a poderosa Telephone Company pela cobrança em excesso aos usuários. As autoridades dilataram o processo até 1954, quando Fidel não pôde participar por se encontrar  na Prisão de Ilha de Pinos; por orientação dele, em seu lugar, compareceu o Dr. Pelayo Corvo Navarro, que foi assassinado à  queima-roupa em 1957.
Fidel mostrou grande valentia ao representar  Justa Rodríguez, mãe do jovem  Carlos Rodríguez, golpeado com brutalidade mortal pela repressão policial em uma manifestação em repúdio ao aumento da passagem. Fidel pedia 30 anos de cárcere para os responsáveis pelo crime: Rafael Casals e Rafael Salgas Cañizares, Chefe da Seção Motorizada e Segundo Chefe dessa mesma Seção, respectivamente. O juiz ordenou a detenção de ambos oficiais e Fidel, ante a provável evasão do executivo da ordem do poder judicial e à pergunta de se cria possível que ambos escapassem da justiça, declarou:
“Teria que cair o mundo, seria algo como dar os primeiros passos para cair em um plano aberto da ditadura militar”.
Isto ocorre em setembro de 1951, em uns meses depois tem lugar o golpe de Estado de Batista, e, na manhã seguinte de 10 de março de 1952, Rafael Salgas Cañizares foi designado Chefe da Polícia em Havana. Fidel tem que passar de imediato à clandestinidade, mas ainda nessas circunstâncias, escreve sua denúncia titulada: Revolução não, golpe e propõe ação no Tribunal Constitucional contra os que substituíram a Carta Magna pelas baionetas e o lugar dos magistrados pelos militares.

Com o golpe começou outra etapa mais conhecida de Fidel em sua rota de luta histórica contra a injustiça. Pouco antes de assaltar o Moncada visitou a casa de seus pais em Birán, de volta à raiz em uma despedida. Quando já estava no presídio, escreveu como quem desafogasse um sentimento triste com a ânsia de aliviar, sonhar e fazer algo para que de uma vez por todas  se desvanecessem todas as injustiças. Escreveu sobre aquele dia:
Tudo tem seguido igual há mais de vinte anos. Minha escolinha um pouco mais velha, meus passos um pouco mais pesados, as caras dos meninos quiçá um pouco mais assombradas e nada mais!
É provável que venha ocorrendo assim desde que nasceu a República e continue invariavelmente igual sem que ninguém ponha seriamente suas mãos sobre tal estado de coisas. Desse modo, fazemos-nos a ilusão de que possuímos uma noção de justiça. Tudo o que se fizesse relativo à técnica e organização do ensino não valeria de nada se não se altera de maneira profunda o “status quo” econômico da nação, isto é, da massa do povo, que é onde está a única raiz da tragédia. Mais que nenhuma teoria me convenceu disto, através dos anos, a palpitante realidade vivida. Ainda que tivesse um gênio ensinando em cada escola, com material de sobra e lugar adequado, e aos meninos  se lhes desse a comida e a roupa na escola, mais cedo ou mais tarde, em uma etapa ou outra de seu desenvolvimento mental, o filho do camponês humilde se frustraria afundando nas limitações econômicas da família. Mais ainda, admito que o jovem chegue com a ajuda do Estado a obter uma verdadeira capacitação técnica, pois assim também se afundaria com seu título como em uma barca de papel nas míseras estreitezas de nosso atual “status quo” econômico social.



Isto se traduziria na pertinaz luta de toda sua existência por uma vida decorosa para os cubanos, com trabalho, assistência gratuita de saúde, cultura, paz, direitos plenos e em especial, educação.
Pela educação viveu e lutou Fidel. Moveu suas energias por transformar o arquipélago maior das Antilhas que é nossa Pátria, também para América Latina e o Mundo, porque não era possível a educação para todos, sem justiça para todos. A Revolução cubana fez-se para a justiça e esse é o estandarte que defende hoje com beleza firme e audácia valente pela plenitude feliz dos seres que habitam o planeta. A Revolução fez-se para a justiça e a educação que é o mesmo que dizer para a vida. Com a educação - escrevi há algum tempo - a Revolução é verdadeira, ela enraíza a ideia da Pátria voltada  aos seus arredores amados : Caribe e América latina  e a sua vocação humanista e planetária. Com José Martí pensamos que Pátria é humanidade.

No plano social, Fidel sustentou sempre que é necessária a justiça para que não haja vingança. Foi a fórmula infalível para que o povo confiasse às autoridades o castigo aos criminosos; compromisso cumprido através da justiça revolucionária. Sustentava que a Revolução vitoriosa devia aplicar a justiça de forma enérgica ,mas também magnânima. A começos da Revolução, em  23 de janeiro, em seu discurso na praça Aérea El Silencio, enquanto encontrava-se em Caracas, Venezuela, reflexionava:
Nunca um exército no mundo, nunca uma revolução no mundo se levou a cabo tão exemplarmente, tão cavalheirescamente como se levou a cabo a Revolução Cubana. Ensinamos nossos homens que torturar um prisioneiro era uma covardia, que unicamente os capangas torturavam. Ensinamos a nossos colegas que assassinar prisioneiros, assassinar um combatente quando se rendeu e quando ofereceu sua vida se se rende era uma covardia, e não foi assassinado jamais um prisioneiro.
[…] Nós dissemos ao povo cubano: não arrastem  ninguém e não temam absolutamente nada, os crimes não ficarão impunes; terá justiça para que não tenha vingança, e o povo confiou em nós. Dissemos ao povo  que teria justiça e confiou em nós: não arrastou a ninguém, não golpeou sequer a nenhum dos capangas que caíram em suas mãos, os entregaram às autoridades revolucionárias. Tinham fé em que íamos fazer justiça, e era indispensável que tivesse justiça, porque sem justiça não pode ter democracia, sem justiça não pode ter paz, sem justiça não pode ter liberdade.
O mais terrível dano que se tem feito a nossos povos é a impunidade do crime, é a ausência de justiça, porque em nossos povos não tem tido justiça nunca.
Seria infinita a contagem de tantas adesões nobres e temerárias de Fidel a favor dos povos, com uma humanidade que ainda cresce como árvore frondosa para o amanhã: até o sangue pelo heroico povo de Vietnã, a favor da causa palestina e da frente saharaui, contra as ditaduras  no Cone Sul de nosso Continente, contra a dívida externa impagável, contra a recolonização de Nossa América pretendida pelo ALCA, pelos povos de África, contra invasões e armas nucleares, contra o despojo e a humilhação dos povos; a  luta contra o apartheid é talvez a mais humana e arriscada de todas elas, mas há tantas que não acabaria nunca esta sessão para mencionar em sua totalidade.
As causas dos povos cabem nas ânsias de Fidel e a Revolução cubana desde sempre e ao futuro. Cuba o demonstra na maravilha de ser exemplo e centro de Revoluções.




Palavras no III Simpósio Internacional Revolução Cubana: Genesis e desenvolvimento histórico. Palácio das Convenções, 31 de Outubro 2019.


Tradução : Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba
Texto original:

1 de dez. de 2019

Militares e Policiais na Bolívia: rancor histórico nas entranhas do aparato político fascista





A Bolívia vive um momento mais de descolamento social e político em sua longa história de instabilidade e golpismo cívico-policial-militar. O que lhe ocorre, para além da tragédia que vive este povo heroico, tem demasiados paradoxos para deixar passar por alto. A primeira delas é a até agora incompreensível  aventura destrutiva de um país que entrava no século XXI pela rota inédita de ser ela mesma. Nunca como agora o país tinha conseguido o que muitos outros invejam para si mesmos: crescimento econômico sustentado, estabilidade política, unidade nacional em construção e inserção internacional respeitável, além dos lucros sociais e a derrota secular das duas maldições do subdesenvolvimento: extrema pobreza e analfabetismo.
O segundo paradoxo é sustentar que teve sucessão constitucional quando na realidade o que ocorreu foi um assalto planificado ao poder. Desde a realização de votações sucessivas no país como simulação democrática até o motim policial o que teve foi um manejo do tabuleiro político espertamente  orquestrado, desde tempo atrás, nas entranhas do império com a cumplicidade das elites regionais racistas que se fundem  em uma religiosidade quase macabra.
Jeanine Añez, autodenominada “Presidenta Constitucional”, explica uma ascensão ilegal e ilegítima ao poder que não é mais que o corolário do desenho golpista tecido finamente durante os últimos 3 ou 4 anos. Este arremate fascista foi precedido por um conjunto de operações encobertas que se despregaram sistematicamente e que os órgãos de inteligência foram incapazes de advertir ou  os encobriram.
O terceiro paradoxo é o triste papel dos meios de comunicação que quando se lhes criticam se chamam democráticos, transparentes e independentes. Hoje, mal são um manejo inescrupuloso e ruim de informação paga ou para  dizer brevemente constituem uma maquinaria de manipulação vergonhosa a serviço dos interesses empresariais monopólicos. Junto à armadura da mentira sistemática, dirigida desde a diplomacia pública norte-americana, as redes sociais cumpriram o perverso papel de filtrar desproporcionalmente, em conteúdo como em alcance, só a suposta “maldade massista, incluída a fraude descomunal”, encobrindo ao mesmo tempo a brutalidade e a  violência do paramilitarismo comiteísta cruceño, dos bandos armados  ou do cúmplice paceño.
O quarto paradoxo tem a ver com o papel da estrutura monopólica da violência legítima destinada a proteger o Estado e o cidadão quando na realidade o que agora produz é violência, morte e terror estatal para sustentar um regime ilegítimo contra a vontade popular majoritária.  Nunca como agora policiais e militares envolvidos na suposta defesa da democracia e no controle do protesto de rua levaram tão longe suas armas repressivas comandados desde “quartéis de guerra”.
Acobertados pelo novo regime violento, militares e polícias convivem fraternizados pelo sangue e o luto de dezenas de bolivianos no meio de seus ódios ancestrais com um comando político transitório que ignora seu controverso passado.
Como entender que militares e polícias, cujo rancor recíproco ao longo de mais de um século, que marcou a fogo suas distantes histórias institucionais, suportem hoje a estrutura gelatinosa de um regime que só tem produzido mortos e feridos?
Para além do surrealismo que nos envolve, polícias e militares livram no meio do golpe de Estado uma guerra silenciosa que não parece cessar apesar da quantidade de mortos que leva o selo de suas armas letais. O rancor que envolve ambas instituições cuja história não cessa  de se derramar no século XXI tende a se constituir no limite real do regime golpista.
Os sintomas do rancor começam a surgir no meio das turbulentas manifestações sociais. Ambas frentes repressivas se acusam mutuamente de ter disparado contra civis indefesos responsabilizando um ao outro  no meio da convulsão social. Polícias acusando  militares e militares acusando  polícias é uma constante que tende a se aprofundar à medida que passam as horas.
O tragicômico papel da Promotoria Geral do Estado aparecendo em cena tratando de acalmar o pânico corporativo com o argumento de que as mortes se produziram por “armas longas” já é um sintoma da crise que se anuncia irreversível. Por sua vez, para evitar mais conflito entre ambos e para distrair a atenção da opinião pública o setor radical do governo, assessorado por agências norte-americanas, apela ao fácil expediente de culpar estrangeiros armados como as FARC, cubanos, colombianos e venezuelanos, pelas mortes que deixam ao longo das forças repressivas oficiais.
A disputa perene por preservar a cercania ao poder político desde ambas as instituições começa a produzir seus próprios cismas internos com as consequências de uma possível débacle do governo golpista e fascista sustentado pelo poder das baionetas, dos gases e do chumbo.
Os militares por dentro

Após 16 anos de ter executado uma dos maiores massacres sangrentos contra o povo do Alto que resultou em sanções penais e encarceramento para os comandos da época, as FFAA retornaram às ruas vestidos com seu inconfundível cáqui norte-americano com a missão de enfrentar a escalada de conflitos sociais em todo o país. No domingo 10 de novembro, o Comandante em Chefe das FFAA, Gral. Ejto Kalimán, aparentemente desconcertado e com voz trêmula ordenou a saída das FFAA às ruas cujo resultado trágico até hoje supera os 20 mortos. A metade das vítimas, majoritariamente jovens, corresponde ao “Massacre de Sacava” do último fim de semana. Nada faz prever que esta decisão conduza a Kalimán  e seus comandantes ao mesmo lugar onde cumprem sentenças seus antecessores responsáveis do massacre sangrento do Alto em outubro do 2003.
A decisão de Kalimán  que contrastou radicalmente com a do presidente Morales constitui uma das expressões maiúsculas da falência educativa e pedagógica das FFAA em situações de crises política. Evo Morales renunciou precisamente para evitar mortes desnecessárias a contrapelo de Kalimán  que dispôs a saída dos militares com as consequências conhecidas. Quem  impôs a Kalimán  a ordem para a saída dos soldados à rua? O que motivou que esta decisão seja modificada 24 horas depois, quando lhe comprometeu a seu Capitão Geral que não moveria nenhuma unidade militar pretextando falta de equipe, munição e agentes químicos?
A autonomia política do Gral Kalimán no momento de maior crise social e política que precipita o golpe definitivo retrata de alguma maneira não só a falência do comando político sobre a milícia senão a incompreensão de sua formação profissional, sua cultura e ideologia corporativa conservadora, pragmática, oportunista e imediatista. Nem sequer o funcionamento autista da Escola Anti-imperialista serviu para moderar a decisão de Kalimán  em circunstâncias que requeriam um mínimo de fidelidade estatal.
O Alto Comando jogou sua carta mais crítica apoiado em conversas prévias com Luis Fernando Camacho e servidores públicos da embaixada dos EEUU. Não há que esquecer que Kalimán foi agregado militar em Washington durante um par de anos e que uma parte de sua família permanecia nos EEUU.
Atualmente, o pessoal militar que ocupa a corrente de comandos médios se encontra no dilema de sair às ruas para seguir reprimindo as pessoas  ou se manter em seus quartéis devido às funestas consequências derivadas de sua intervenção de rua. Mas a dúvida mais forte surge da responsabilidade militar ou policial que uma vez retorne acalme o país. Muitos dos oficiais consideram que a Polícia jogará sobre os ombros das FFAA toda a responsabilidade dos mortos e feridos já que só eles usam armas de grosso calibre. O cálculo pós-conflito está começando a minar a confiança das bases em seus comandos  que consideram irresponsáveis e inoportunos.
A valoração sobre o gerenciamento de Evo Morales percorre os corredores dos quartéis. Sustentam que Evo os manteve fora de todo conflito social durante 13 anos, situação que permitiu que se incrementasse sua legitimidade institucional ante a opinião pública  frente ao descrédito da Polícia por seus evidentes atos de corrupção e indisciplina. Os oficiais admitem que seu nível salarial e sua qualidade de vida mudou substantivamente com o “processo de mudança” ao mesmo tempo que sua incursão em tarefas sociais permitiu serem considerados pelo governo como “soldados da pátria”. O pagamento do bônus “Juancito Pinto” ou de  “ Dignidade” ou seu papel no gerenciamento dos desastres naturais encomendada às FFAA permitiu uma aproximação sensível à sociedade. Além do anterior a valoração a respeito do incremento do orçamento de defesa, compra de ativos e melhoria da qualidade de vida do soldado faz parte de sua memória imediata.
No entanto hoje, e em menos de uma semana, um regime de fato, comandado por um grupo político radical e dirigentes religiosos fanáticos está conduzindo as FFAA a enfrentar o desprezo maiúsculo da sociedade e a condenação internacional cujos efeitos dificilmente serão superados nas próximas décadas.
Ao grito coletivo de militares assassinos nas ruas os comandos médios temem sofrer consequências como as seguintes: 1) deserção de soldados no meio do conflito, o que significa uma derrota moral sem precedentes, 2) Perda de poder em espaços que Evo Morales tinha conseguido construir para garantir sua fidelidade como é o caso da Segurança Presidencial (USDE), acesso a cargos públicos de alto nível (gerentes de empresas estatais) e inclusive a cargos diplomáticos, 3) Desprestigio institucional que derivaria na diminuição dramática de conscritos para o serviço militar obrigatório que na realidade é a que justifica sua existência institucional, 4) Repúdio popular permanente nas ruas, 5) Processos penais.

O mal-estar militar  frente aos acontecimentos e o elevado número de vítimas fatais produto da repressão está conduzindo ao questionamento de seus altos comandos e a um nível de desconfiança interna sem precedentes. Em um radiograma enviado às unidades militares da 8ª  Divisão do Exército desde o Comando em Chefe das FFAA de 14 de novembro do 2019 dispõe-se que o corpo de oficiais “vigie a conduta dos cadetes, alunos e soldados originários da região do Chapare dentro de todas as atividades que se desenvolvam nas unidades”. Disposição desta natureza só expressa um temor quase visceral sobre seus próprios soldados ratificando uma vez mais sua condição de força civilizatória e de ocupação colonial.
Este radiograma expressa o medo atroz do mundo indígena mas por outro lado,  o desprezo e a desconfiança que lhe gera sua presença nas FFAA. Uma verdadeira aberração cultural e corporativa após mais de 35 anos de democracia e 13 anos de uma aparente inclusão indígena nas FFAA. Este é o melhor exemplo da falência da suposta democratização militar e da convivência plurinacional e intercultural no mundo uniformizado.
Muitos oficiais sensíveis ao conflito histórico com a Polícia questionam a decisão desacertada e inoportuna de Kaliman  porque teria “salvado” a Polícia em um momento chave de sua crise operativa. Queima da whipala por efetivos da Polícia e o retiro desse símbolo de seu uniforme produziu um profundo mal-estar social que motivou ataques contra suas instalações  obrigando-as  a clamar apoio militar para serem salvos da ira popular. O agravo contra a bandeira reconhecida constitucionalmente produziu uma avaria entre Polícia e população rural e indígena.
A verdade é que o ódio proverbial entre militares e polícias não deixa de fluir no meio de um golpe grotesco que se sustenta no uso irracional da força e na conduta racista do governo que tem muita semelhança  com as velhas ditaduras militares guiadas por consignas ultramontanas estrangeiras.
O golpe de Estado contra o processo democrático liderado por Evo Morales tem o selo inconfundível das FFAA como ator protagônico mesmo que tenha sido a Polícia Nacional quem encabeçou o golpe desde a cidade de Cochabamba  na sexta-feira 8 de novembro.  Ao que parece, o domingo 10 de novembro do 2019 passará à história como um desses dias tragicômicos em  que um general medíocre e oportunista como Kalimán, com um Estado Maior pusilânime e envilecido, decidiram resignar-se a servir os interesses de uma Polícia eticamente decomposta, moralmente destruída e pateticamente circense que usou a bíblia como escudo religioso para legitimar seu sobrevivência.
Alguns setores das FFAA consideravam que o assédio popular contra a Polícia constituía o melhor momento para saldar contas pelos fatos ocorridos em fevereiro de 2003.  Naquela ocasião polícias franco-atiradores, treinados pelos EEUU, assassinaram covardemente  vários soldados do Regimento Escolta Presidencial quando uma multidão pretendia ingressar no Palácio de Governo em reação a uma medida econômica antipopular. Segundo muitos oficiais, Kalimán converteu-se em um herói proverbial das vergonhosas jornadas golpistas policiais, um fato jamais imaginado pelas FFAA.
Triste papel político o dos militares que tiveram que lhe salvar a vida a seu histórico inimigo acérrimo quando este estava ao limite de seu colapso repressivo. O Comandante Departamental da Polícia de La Paz implorava com lágrimas nos olhos ajuda às FFAA para sustentar o assédio dos movimentos sociais que reivindicavam a destituição da presidenta autoproclamada.
O apoio militar a uma polícia enfraquecida em um palco de disputa política foi um episódio excepcional. Em 1952 o Exército tinha sido derrotado pelo movimento operário que deu lugar a que a Polícia se montasse na espuma revolucionária para se vingar do mau trato que os militares outorgavam aos carabineiros da época.
Normalmente a Polícia Nacional alinhava-se aos golpes militares em condição de furgão de fila e com o rabo entre as pernas em tentar conseguir algum banquete burocrático. Em 10 de novembro ocorreu tudo ao contrário.



A Polícia por dentro

O golpe de Estado promovido pelas forças policiais desde a cidade de Cochabamba contra o governo de Evo Morales era um segredo  que foi maliciosamente ignorado pelo Ministro de Governo, habilmente dirigido pelo Comandante Geral da Polícia e eficientemente articulado pelas forças opositoras de direita que sabiam desde anos anteriores que a Polícia Nacional constituía um aliado formidável para seus planos desestabilizadores. A oposição, assessorada por agentes externos, fez trabalho ‘cirúrgico’ dentro da Polícia enquanto o governo ignorava-as ou somente apelava a elas em casos de conflito social.
Não há dúvida que na corrente geográfica de controle e comando da estrutura policial o departamento de Santa Cruz e em particular a cidade de Santa Cruz constituía o elo mais débil no que se construiu uma sorte de pacto de cumplicidade entre Ministério de Governo e forças policiais comandadas por comandos vinculados à constelação delitiva regional. Paradoxalmente, o lugar em que o delito tinha adquirido dimensões multinacionais e trans-fronteiriças era precisamente no que se construiu uma arquitetura de regulação policial do delito como no caso do cárcere de Palmasola . Do mesmo modo, esta rede de cumplicidade político-policial atingia circuitos mafiosos do narcotráfico, tráfico de armas, casas de jogo ou tráfico de terras em favor de estrangeiros cujo funcionamento era operado por polícias patrocinados politicamente.
Santa Cruz constituía um tipo de território autônomo policial que foi habilmente usado pelas forças de oposição que viram em suas margens de autonomia estatal as melhores condições para a conspiração sediciosa armada.
Durante os 13 anos do governo de Evo Morales não houve a capacidade de gerar uma política de institucionalização, modernização nem disciplinamento profissional das forças policiais. Contrariamente, os comandos policiais, favorecidos pelas rotações contínuas, beneficiaram-se de mordomias inimagináveis ao que se somou uma cultura de corrupção escandalosa, torpe ou deliberadamente desatendida.
Só ao final do mandato de Morales a Polícia foi beneficiada por um moderno sistema de controle territorial no marco da segurança cidadã denominada BOL 110 que no final das  contas só incrementava a capacidade de produção de informação para fins informais. O suporte tecnológico serviu como uma concessão graciosa e eleitoral que a Polícia  recebeu sem o entusiasmo esperado.
A relação entre governo e polícia em mais de uma década adoeceu de falhas estruturais mas a pior delas foi encomendar a um servidor público de alto nível uma responsabilidade central quando suas prioridades eram  conduzir equipes de futebol.
Morales enfrentou vários episódios de insubordinação, motins e sedição policial que foram aplacados após negociações complexas mas que nunca conseguiram se resolver de maneira estrutural. As raízes do descontentamento policial foram retroalimentadas internamente mantendo-se este clima invariável e acumulativo ao longo do tempo. Simultaneamente, as descomunais práticas de corrupção policial não receberam o tratamento adequado nem proporcional do governo.
As mordomias policiais, as práticas de corrupção bem como as amplas margens delitivas de natureza corporativa só operavam e funcionavam nos níveis de comando deixando aos subalternos  as migalhas ou “mordidas”, situação que potenciou o mal-estar policial subalterno cuja responsabilidade apontava ao governo nacional.
Por outro lado, a privilegiada relação político-militar gerou profundo ressentimento na Polícia Nacional. Os polícias viam-se como cidadãos de segunda  classe frente ao trato considerado do governo aos militares tratados como cidadãos de primeira classe . A presença do Presidente Evo Morales nos aniversários militares, os discursos solícitos valorizando o trabalho militar bem como as mordomias e prerrogativas concedidas periodicamente constituíram golpes sistemáticos ofensivos” contra uma Polícia que operava quotidianamente em condições deploráveis.
O tratamento desigual do governo nacional em favor das FFAA - construção de edifícios, campos esportivos, compra de equipe e material militar, investimentos caros em tecnologia como radares etc – alimentou um forte rancor antimilitar e antigovernamental dentro das forças policiais. A parcialidade explícita do governo de Morales em favor das FFAA foi assumida como uma humilhação persistente que foi traduzida em uma narrativa antigovernamental pelo corpo de oficiais sobre seus subalternos carentes de informação.
Além da displicente relação entre Evo Morales e a Polícia o governo nacional levou a cabo uma política de cerceamento de suas principais fontes institucionais de arrecadação. Ainda que as decisões fossem corretas, dirigidas a eliminar a corrupção, esta foram interpretadas de modo diferente pela Polícia em seu afã de preservar nichos de mordomia burocrática.
Morales foi bem mais longe a respeito do corte das prerrogativas policiais ao atribuir às FFAA a tarefa de luta contra o contrabando. As unidades policiais especializadas de luta contra o contrabando foram dissolvidas e substituídas por unidades militares. Os militares ocuparam a fronteira conseguindo romper redes de ilegalidade e controle territorial que significou uma dupla amputação: para os grupos delitivos civis que viviam do fecundo negócio do contrabando e para os polícias que viviam da proteção das redes de ilegalidade às que outorgavam proteção e impunidade.
Foi esta a Polícia sediciosa a que se enfrentou ao governo de Evo Morales e a que produziu direta ou indiretamente sua renúncia. Nunca antes a Polícia tinha conseguido derrocar um governo democrático como o fez esta corporação indisciplinada e politicamente doente.
O golpe cívico-policial não só teve um componente político senão também de natureza reivindicativa alimentada por uma memória de afronta, privações e maltrato.
Os motins policiais refletiam um ódio atroz contra o governo e explodiu em sucessivas ondas corporativas apoiadas por uma classe média que se expressou nas ruas deixando fluir seu profundo mal-estar e desprezo contra um governo em plena retirada.
O golpe policial apoiado e impulsionado nas ruas pelos protestos da classe média deixou entrever sua finalidade multifacetada .
Em primeiro lugar serviu como a melhor oportunidade para se vingar do governo pelo conjunto de maus tratos e deslocações institucionais, um tipo  de catarse corporativa inflamada em uma retórica de ódio e religiosidade que explodiu sem que ninguém previsse seu potencial efeito.
Os motins encarnavam a tarefa de recuperar suas mordomias corporativas que tinham sido cerceadas por razões políticas e cedidos às FFAA pelo governo nacional. O primeiro objetivo que conseguiu recuperar a Polícia por seus efeitos simbólicos foi a Unidade de Segurança Presidencial (USDE) das mãos do Exército. Consumada a renúncia de Evo Morales a Polícia Nacional não demorou nem um minuto em  fazer uso do dispositivo de segurança da Casa Grande do Povo obrigando o corpo de segurança presidencial a seu desalojo imediato do dito edifício. Os mais de 70 membros desta equipe especial que protegeram Morales durante mais de uma década tiveram que se dobrar quase de maneira humilhante ao Estado Maior das FFAA para receber seus novos destinos.
Do mesmo modo e por assalto, a Polícia Nacional restabeleceu o controle dos edifícios do Serviço de Identificação Pessoal (SEGIP) que tinha sido institucionalizado pelo governo de Morales para cortar pela raiz uma das maiores fontes de corrupção policial.
Retomada policial de instituições, espaços e prerrogativas fez parte das promessas do caudilho cruceño Luis Fernando Camacho para precipitar o golpe, objetivo que se cumpriu quase cirurgicamente. Em uns dos encontros realizados em Santa Cruz Camacho se comprometeu a lhes devolver todas as instituições “arrebatadas injustamente pelo governo nacional” e lhes outorgar um tratamento salarial e benefícios de aposentadoria similares aos das FFAA, um incentivo sem dúvida irrefutável.
Para além dos complexos problemas que enfrenta o novo comando policial os efetivos estão experimentando sinais de um perigoso esgotamento físico após mais de 20 dias de trabalho de rua e práticas repressivas. No entanto, a autonomia policial neste contexto de crise traduz-se em uma perigosa atuação de pequenos grupos que operam com independência do comando central. Este clima incerto, com um governo que apela ao discurso recalcitrante e um ministro de governo impulsionado por ódios atrozes contra servidores públicos de governo está promovendo a constituição de grupos policiais armados junto a bandos de paramilitares que trabalham sob uma lógica assassina e vingativa.
No meio do desacerto político tem surgido um novo fator de mal-estar policial gerado pela outorga de 34 milhões de bolivianos às FFAA para cobrir os custos da logística repressiva. Os membros da Polícia Nacional suspeitam que estes recursos serviriam para favorecer os comandos militares traduzidos em “bônus de lealdade”. Ao mesmo tempo o mal-estar agrava-se contra o governo golpista e contra as FFAA ao ter-se aprovado o DS 4078 cujo objetivo é autorizar o uso da força militar, equipes e armas, outorgando para isso a imunidade respectiva, condição da que não goza o corpo policial.
Conclusões

Está claro que militares e polícias constituem a base em que se assenta o poder do governo golpista. Também parece claro que estas bases  sustentam disputas historicamente não resolvidas  e irreconciliáveis que com o passar dos dias serão palcos de maior fratura e polarização. Para além de seu caráter provisório, um governo com senso comum deveria começar a conhecer ainda que superficialmente as profundas fraturas corporativas para evitar ser derrotados por suas consequências. Felizmente, o governo golpista só olha a sombra e não o todo e por isso seu tempo é tão breve como a explosão convulsa de ambos os corpos que começam a retorcer-se para se anular ou se destruir mutuamente.
Que o sangue chegue ao rio não depende dos golpistas, depende em todo caso das profundas feridas que voltam a ser abertas sob um comando político ignorante, arrogante, raivoso e suicida. O golpismo tem seus limites paradoxalmente no uso da força policial e militar e dependerá de como se resolve este duelo histórico nas entranhas do poder fascista.
Com uma Polícia Nacional transtornada por suas múltiplas contradições internas e umas FFAA desconcertadas pela dimensão do conflito e suas futuras responsabilidades políticas, jurídicas e institucionais os bolivianos vivem um panorama desolador.


Este texto, assinado com o pseudônimo de Ernesto Eterno, foi publicado no diário argentino ‘Página 12’, em ‘A Jornada de México’ e em ‘A Terça’ de Chile



Tradução: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba