29 de jan. de 2026

EM 29 DE JANEIRO DE 2014 FOI ASSINADA A DECLARAÇÃO DA II CÚPULA DA CELAC . AQUI O TEXTO COMPLETO. NO ITEM 53 (GRIFAMOS): AMÉRICA LATINA E CARIBE ZONA DE PAZ.

                             

II Cúpula da CELAC – Declaração de Havana – 29 de janeiro de 2014

    Os Chefes de Estado e de Governo da América Latina e do Caribe, reunidos em Havana, Cuba, por ocasião da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada nos dias 28 e 29 de janeiro de 2014,

  Reafirmando a vigência do acervo histórico da Comunidade, integrado, por sua vez, pelo acervo histórico do Grupo do Rio e da Cúpula da América Latina e do Caribe sobre desenvolvimento e integração e pelas Declarações, Comunicados Especiais e decisões aprovadas na I Cúpula da CELAC, realizada em Santiago do Chile, nos dias 27 e 28 de janeiro de 2013; na Cúpula Fundacional de Caracas, em 3 de dezembro de 2011; na Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe, realizada na Riviera Maya, Cancún, México, em 23 de fevereiro de 2010; nas Cúpulas da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento, iniciadas em Salvador da Bahia, Brasil, nos dias 16 e 17 de dezembro de 2008; e no processo de convergência que deu origem à CELAC.

   Destacando que, dois anos após o início das atividades da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, conseguimos construir um espaço de diálogo e concertação política que nos une e torna possível a aspiração de trabalhar juntos pelo bem-estar de nossos povos; o que permite, por sua vez, uma melhor inserção e projeção de nossa região no âmbito internacional.

  Ratificando hoje nossa vontade irrevogável de fortalecer este espaço de diálogo político efetivo. Fomos, somos e seremos diversos, e é a partir dessa diversidade que temos que identificar os desafios e objetivos comuns e os pontos de convergência que nos permitirão avançar no processo de integração de nossa região. Fortaleçamos nossas democracias e todos os direitos humanos para todos; ofereçamos maiores oportunidades ao nosso povo; construamos sociedades mais inclusivas; melhoremos nossa produtividade; estreitemos nosso comércio; melhoremos nossa infraestrutura e conectividade e as redes necessárias que unem cada vez mais nossos povos; trabalhemos pelo desenvolvimento sustentável, pela superação das desigualdades e por uma distribuição mais equitativa da riqueza, para que todos sintam que a democracia dá sentido às suas vidas. Essa é a missão da CELAC, essa é a tarefa para a qual fomos convocados e essa é a responsabilidade política que temos pela frente e pela qual devemos prestar contas aos nossos povos.

1. Reiteramos que a unidade e a integração de nossa região devem ser construídas gradualmente, com flexibilidade, com respeito ao pluralismo, à diversidade e ao direito soberano de cada um de nossos povos de escolher sua forma de organização política e econômica. Reiteramos que nossa Comunidade se baseia no respeito irrestrito aos Propósitos e Princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional, na solução pacífica de controvérsias, na proibição do uso e da ameaça do uso da força, no respeito à autodeterminação, à soberania, à integridade territorial, à não ingerência nos assuntos internos de cada país, a proteção e promoção de todos os direitos humanos, o Estado de Direito nos planos nacional e internacional, o fomento da participação cidadã e da democracia. Da mesma forma, nos comprometemos a trabalhar conjuntamente em prol da prosperidade para todos, de forma a erradicar a discriminação, as desigualdades e a marginalização, as violações dos direitos humanos e as transgressões ao Estado de Direito.

2. Reafirmamos como princípio geral que o fortalecimento da CELAC como fórum e ator político internacional é uma de nossas prioridades. Nesse contexto, consideramos fundamental buscar o aperfeiçoamento da coordenação e da cooperação entre os membros da CELAC, no âmbito dos organismos internacionais, sempre que isso for possível e viável.

3. Expressamos nosso mais profundo pesar pelo falecimento do Comandante Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Rafael Chávez Frías, ocorrido em 5 de março de 2013, um dos principais fundadores e impulsionadores da CELAC, humanista incansável e impulsionador da união latino-americana e caribenha, que lutou contra a exclusão social, a pobreza e impulsionou o desenvolvimento integral da região.

4. Ressaltamos nosso propósito de continuar avançando juntos na concertação e integração latino-americana e caribenha e na consolidação de nossa Comunidade, de acordo com os ideais e sonhos de nossos libertadores e heróis. Ratificamos nossa decisão de estabelecer ações que nos permitam prevenir e, quando necessário, enfrentar de forma coordenada os efeitos da atual crise internacional de múltiplas inter-relações, que continua impactando negativamente os esforços de nossos países para promover o crescimento e o desenvolvimento sustentável e integral da região.

5. Promovemos uma visão de desenvolvimento integral e inclusivo, que garanta o desenvolvimento sustentável e produtivo, em harmonia com a natureza, nos âmbitos em que podemos construir sinergias, particularmente em áreas como energia, infraestrutura, comércio intrarregional, produção de alimentos, indústrias intermediárias, investimentos e financiamento, com o objetivo de alcançar o maior desenvolvimento social para nossos povos.

6. Assumimos nosso compromisso com o desenvolvimento regional integrado, não excludente e equitativo, levando em conta a importância de garantir um tratamento favorável às economias pequenas e vulneráveis, aos países em desenvolvimento sem litoral e aos Estados insulares.

7. Saudamos os importantes resultados alcançados nas Reuniões de Coordenadores Nacionais e de Ministros das Relações Exteriores realizadas até o momento e apelamos à aplicação das decisões e mandatos contidos nos acordos alcançados, com base nos princípios de flexibilidade e participação voluntária.

8. Reconhecemos que a experiência dos dois anos de existência da CELAC demonstra a importância do diálogo permanente para fortalecer o consenso em temas de interesse regional, com base nos princípios da solidariedade, complementaridade com outras experiências ou instituições regionais e sub-regionais e cooperação, e orientado para alcançar resultados efetivos para o desenvolvimento sustentável, solidário e inclusivo dos Estados latino-americanos e caribenhos. Destacamos os avanços no diálogo com os mecanismos regionais e sub-regionais de integração.

9. Apelamos à comunidade internacional para que tome medidas urgentes para enfrentar as fragilidades e desequilíbrios sistêmicos. Expressamos nosso desejo de trabalhar em conjunto para superar os desafios que nos apresenta o atual cenário internacional e de envidar esforços para impulsionar ritmos de crescimento econômico sustentado, dinâmico e de longo prazo para a região, que promovam uma equidade e inclusão social crescentes e a integração da América Latina e do Caribe, levando em conta o valor do empreendedorismo e das PMEs como instrumentos para fortalecer as economias nacionais.

10. Reafirmamos que, para a erradicação da pobreza e da fome, é necessário impulsionar políticas econômicas que favoreçam a produtividade e o desenvolvimento sustentável de nossas nações, trabalhar para fortalecer a ordem econômica mundial em benefício de nossos países, promover a complementaridade, a solidariedade e a cooperação, e exigir o cumprimento dos compromissos de ajuda ao desenvolvimento por parte dos países desenvolvidos.

11. Ratificamos nossa vontade de promover o crescimento, o progresso, a inclusão social e o desenvolvimento sustentável de nossos Estados, formulando e desenvolvendo planos, políticas e programas nacionais com metas quantificáveis e cronogramas, voltados para a universalização do gozo e do exercício dos direitos econômicos, sociais e culturais, com atenção prioritária às pessoas em situação de extrema pobreza e aos setores em situação de vulnerabilidade, como as populações indígenas, afrodescendentes, mulheres, crianças, pessoas com deficiência, idosos, jovens e migrantes.

12. Saudamos o sucesso da III Conferência Global sobre Trabalho Infantil e reiteramos nosso compromisso com a eliminação das piores formas de trabalho infantil até 2016, bem como com a erradicação do trabalho infantil no menor prazo possível.

13. Saudamos a adoção da Declaração e do Plano de Ação de Caracas pelas autoridades de Desenvolvimento Social para a Erradicação da Fome e da Pobreza. Continuaremos trabalhando em planos, políticas e programas nacionais para reduzir progressivamente as desigualdades de renda que estão na base da fome, da pobreza e da exclusão social por meio, entre outras, de políticas fiscais progressivas, de criação de empregos formais permanentes, de proteção, assistência e segurança social, de estabelecimento de salários mínimos e seu aumento progressivo, que se concretizariam de acordo com as capacidades de cada membro da CELAC, aumentando gradualmente o investimento social.

14. Damos a mais alta prioridade ao fortalecimento da segurança alimentar e nutricional, da alfabetização e pós-alfabetização, da educação pública geral gratuita, da educação técnica, profissional e superior de qualidade e relevância social, a posse da terra, o desenvolvimento da agricultura, incluindo a familiar e camponesa, e do trabalho decente e duradouro, o apoio aos pequenos produtores agrícolas, o seguro-desemprego, a saúde pública universal, o direito à moradia adequada para todos e todas, e o desenvolvimento produtivo e industrial como fatores decisivos para a erradicação da fome, da pobreza e da exclusão social.

15. Reiteramos nosso compromisso de trabalhar em conjunto no fortalecimento dos mecanismos nacionais, regionais e multilaterais na luta contra o tráfico ilícito de bens culturais e garantir a integração cultural de nossos povos por meio da promoção do intercâmbio de conhecimentos culturais, tradicionais e modernos.

16. Reconhecemos que os povos indígenas e as comunidades locais desempenham um papel importante no desenvolvimento econômico, social e ambiental, bem como a importância das práticas agrícolas tradicionais sustentáveis, associadas à biodiversidade e ao aproveitamento de seus recursos, seu direito de acesso à água adequada para irrigação, de acordo com a legislação de cada país, e os sistemas comunitários de posse da terra, os sistemas tradicionais de fornecimento de sementes e o acesso ao financiamento e aos mercados.

17. Decidimos fortalecer, de forma integral, a base produtiva, com ênfase nas práticas locais e culturais sustentáveis dos povos indígenas e das comunidades locais, para uma gestão integral que otimize o uso e o acesso à água para irrigação, a partir de uma visão de gestão de bacias hidrográficas, a recuperação da fertilidade do solo por meio da reposição da cobertura vegetal, adubos orgânicos, terraços e a conservação e aumento da biodiversidade, por meio da recuperação e cultivo de sementes nativas e produção de sementes melhoradas.

18. Ressaltamos o papel fundamental das políticas públicas e reconhecemos a valiosa contribuição do setor privado, da sociedade civil, dos movimentos sociais e da sociedade como um todo. Tomamos nota dos progressos alcançados e nos comprometemos a continuar promovendo-os ativamente, em conformidade com as prioridades e estratégias nacionais de desenvolvimento de cada Estado, para alcançar as metas de erradicação da fome, da pobreza e da exclusão social. Reconhecemos a importância da cooperação internacional, regional e bilateral para tal fim.

19. Reconhecemos as iniciativas nacionais, sub-regionais e regionais destinadas a garantir o direito humano à alimentação e promover a segurança alimentar e nutricional, reduzir os níveis de pobreza e impulsionar a inclusão plena, e saudamos os progressos alcançados nesses esforços, ao mesmo tempo em que sublinhamos que, para garantir sucessos futuros, deve-se privilegiar a complementaridade e a solidariedade entre nossas nações.

20. Reiteramos o compromisso de fortalecer os mecanismos de acompanhamento em cada país para os programas e projetos sociais implementados em diferentes setores, com especial atenção aos grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade, a fim de avaliar seu impacto com uma perspectiva multidimensional e compartilhar as melhores práticas com os demais países da região.

21. Apoiamos a Iniciativa América Latina e Caribe Sem Fome 2025.

22. Reafirmamos nossa vontade de impulsionar programas regionais, sub-regionais, bilaterais e triangulares de cooperação para o desenvolvimento, bem como uma política regional de Cooperação Sul-Sul e Triangular, que levem em conta as características e necessidades específicas das diversas áreas e sub-regiões, bem como de cada um dos países que as compõem.

23. Reconhecemos, nesse sentido, o Caribe insular e a América Central, bem como os países da costa norte da América do Sul com áreas costeiras baixas, como as sub-regiões de maior vulnerabilidade do ponto de vista econômico, social e ambiental, e defendemos a promoção do comércio solidário e complementar, dos investimentos e projetos, e das ações de cooperação destinadas a superar os diversos desafios e dificuldades associados à sua vulnerabilidade.

24. Comprometemo-nos a continuar contribuindo para o esforço de reconstrução e desenvolvimento do Haiti, de acordo com as áreas prioritárias definidas por seu governo e com pleno respeito à sua autoridade e soberania, bem como ao princípio da não intervenção nos assuntos internos, em conformidade com a resolução sobre cooperação especial com o Haiti aprovada pelos Ministros das Relações Exteriores e ratificada pelos Chefes de Estado e/ou de Governo na I Cúpula da CELAC. Instamos os governos, os doadores tradicionais e as instituições financeiras internacionais a apoiarem de forma mais ampla e rápida a execução do Plano Estratégico Nacional de Desenvolvimento (NSDH) do Governo do Haiti, especialmente no âmbito da agricultura. Instamos, igualmente, a apoiar o Plano Nacional para a Eliminação da Cólera, que requer medidas urgentes de prevenção e controle, bem como investimentos em infraestrutura hídrica, saneamento e fortalecimento da capacidade das instituições do país.

25. Afirmamos que, para a elaboração de uma Agenda Estratégica Regional sobre Gestão Integral do Risco de Desastres, é necessário que o tema seja reconhecido como um processo integrado por ações relacionadas à estimativa e redução do risco, preparação, assistência humanitária e reconstrução, que devem fazer parte de um Plano de Ação coordenado e articulado entre os entes locais, nacionais, sub-regionais e regionais.

26. Comprometemo-nos a continuar consolidando princípios regionais sólidos em matéria de reconhecimento dos direitos dos migrantes, bem como a aprofundar a coordenação das políticas migratórias regionais e das posições comuns nas negociações globais e inter-regionais sobre migrações e, em especial, na promoção do debate internacional sobre a relação entre migração, desenvolvimento e direitos humanos.

27. Reafirmamos nossa vontade e compromisso de continuar avançando na consecução dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

28. Ratificamos a importância crucial do processo intergovernamental de formulação da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, que deve ser aberto, transparente e inclusivo. Ressaltamos que a nova agenda de desenvolvimento deverá ser formulada com base no respeito irrestrito aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas e à luz dos princípios consagrados no Documento Final da Rio+20, “O Futuro que Queremos”, bem como nas diferentes abordagens, visões, modelos e instrumentos que os países determinaram para alcançar o desenvolvimento sustentável, em função de suas circunstâncias e prioridades nacionais. Devemos zelar para que o processo seja universal e suficientemente flexível para responder às prioridades, condições e necessidades dos países em desenvolvimento, levando em conta as necessidades especiais dos diferentes países, incluindo os países menos desenvolvidos, os países sem litoral, os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e os chamados países de renda média.

29. Reconhecemos a necessidade urgente de que a nova Agenda de Desenvolvimento inclua explicitamente como objetivo, com indicadores e prazos específicos de cumprimento, os meios de implementação que garantam seu cumprimento, entre os quais figuram recursos financeiros novos, adicionais e previsíveis, o desenvolvimento e a transferência de tecnologia e a criação de capacidades nos países em desenvolvimento.

30. A nova Agenda deve partir da experiência na consecução dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para definir harmoniosamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; excluir qualquer condicionalidade; e eliminar as lacunas dentro das sociedades, entre regiões e em escala global. Além disso, deve reforçar o compromisso da comunidade internacional de que as pessoas sejam o centro de suas preocupações, promovendo o crescimento econômico sustentável e inclusivo, o desenvolvimento social participativo e a proteção do meio ambiente.

31. Reafirmamos a Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas A/RES/64/292, de 28 de julho de 2010, na qual a Assembleia Geral reconhece o direito à água potável e ao saneamento como um direito humano essencial para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos.

32. Convencidos de que as mudanças climáticas são um dos problemas mais graves de nosso tempo, expressamos profunda preocupação com seu crescente impacto negativo nos países em desenvolvimento e nos pequenos Estados insulares em particular, o que compromete os esforços para erradicar a pobreza e alcançar o desenvolvimento sustentável. Nesse contexto, e no âmbito do princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e das respectivas capacidades, reconhecemos que a natureza global das mudanças climáticas exige a cooperação de todos os países e sua participação em uma resposta internacional eficaz e adequada, de acordo com a responsabilidade histórica de cada um por esse fenômeno, a fim de acelerar a redução global das emissões mundiais de gases de efeito estufa e a adoção de medidas de adaptação, em conformidade com as disposições e princípios da Convenção-Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e as decisões adotadas nas Conferências das Partes.

33. Congratulamo-nos com a realização do Diálogo Interativo da Assembleia Geral sobre Harmonia com a Natureza, que se realizou em Nova Iorque, em 22 de abril de 2013, no âmbito da comemoração do Dia Internacional da Mãe Terra, evento que discutiu as diferentes abordagens econômicas, no contexto do desenvolvimento sustentável, para promover de forma mais ética a relação entre a humanidade e a Terra.

34. Comemoramos a recente assinatura da nova Convenção de Minamata sobre Mercúrio, como o primeiro instrumento vinculativo negociado no âmbito das Nações Unidas nos últimos doze anos, e o primeiro da agenda pós-Rio+20 sobre desenvolvimento sustentável, destacando que ela representa um grande passo no desenvolvimento do direito ambiental internacional, tendo como objetivo a proteção da saúde humana e do meio ambiente contra os riscos do mercúrio, instando especialmente os países membros a tomarem medidas que possibilitem sua rápida entrada em vigor e sua efetiva implementação. Da mesma forma, instamos à participação na reunião regional do GRULAC, preparatória da Sexta Sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação sobre Mercúrio (INC-6).

35. Os países da América Latina e do Caribe expressamos nosso apoio à Presidência peruana da 20ª Conferência das Partes da Convenção-Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e da 10ª Reunião das Partes do Protocolo de Kyoto, que serão realizadas em Lima, Peru, de 1º a 12 de dezembro de 2014, e estamos comprometidos em garantir o sucesso dessas reuniões e de sua fase preparatória, etapas essenciais no processo de desenvolvimento de um instrumento jurídico fortalecido no âmbito da Convenção, que deve ser apresentado em 2015. Ressaltamos a importância de que esse instrumento, para ser eficaz e facilitar a participação de todos os países, respeite os princípios e disposições da Convenção.

36. Incentivamos a participação de representantes dos países da Comunidade na primeira Pré-COP Social sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá entre 13 e 16 de outubro de 2014, em Caracas, Venezuela, que representa uma iniciativa importante no processo de negociações no âmbito da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas para fortalecer a aliança entre povos e governos na construção do futuro regime necessário para enfrentar as mudanças climáticas.

37. Comprometemo-nos, de acordo com nossas capacidades e legislações internas, a apoiar a pesquisa científica sobre a dependência química nos países da CELAC, com o objetivo de avançar no desenvolvimento de tratamentos, incluindo vacinas e antídotos.

38. Reiteramos o caráter latino-americano e caribenho de Porto Rico e, tomando nota das resoluções sobre Porto Rico adotadas pelo Comitê Especial de Descolonização das Nações Unidas, reiteramos que se trata de uma questão de interesse da CELAC.

39. Os países membros da CELAC nos comprometemos a continuar trabalhando no âmbito do Direito Internacional e, em particular, da Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 14 de dezembro de 1960, para que a região da América Latina e do Caribe seja um território livre de colonialismo e colônias.

40. Encarregamos o Quarteto da CELAC de, com a participação de outros Estados-membros que desejem se somar a este mandato, apresentar propostas para avançar no que foi indicado no parágrafo 38 desta Declaração.

41. Reiteramos nossa rejeição às listas e certificações unilaterais por parte de países desenvolvidos que afetam países da América Latina e do Caribe, em particular as referidas ao terrorismo, tráfico de drogas, tráfico de pessoas e outras de natureza semelhante, e ratificamos o Comunicado Especial aprovado pela CELAC em 5 de junho passado, que rejeita a inclusão de Cuba na chamada Lista de Estados que promovem o terrorismo internacional do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

42. Reafirmamos a Declaração de Santa Cruz, denominada “Ama Qhilla, Ama Llulla e Ama Suwa” (não roubar, não mentir e não ser preguiçoso), da Primeira Reunião Especializada de Ministros, Ministras e Altas Autoridades de Prevenção e Combate à Corrupção da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), adotada em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, em 8 de novembro de 2013, na qual se estabelece, entre outros temas, que os crimes de corrupção devem ser combatidos de forma rigorosa e sem impedimentos para sua investigação, julgamento e punição, de acordo com as legislações nacionais e os acordos internacionais em vigor; da mesma forma, celebramos a criação de um Grupo de Trabalho especializado na Prevenção e Combate à Corrupção, que elaborará um Plano de Trabalho com o objetivo de promover e impulsionar as linhas de ação de acordo com as bases e prioridades estabelecidas na Declaração e no Plano de Ação da CELAC para 2014, otimizando recursos, complementando os trabalhos desenvolvidos em outros mecanismos e fóruns multilaterais e evitando a duplicação de esforços.

43. Ressaltamos a importância de nossos países fortalecerem sua preparação em matéria de atendimento a controvérsias internacionais e consideramos que se deve avaliar a possibilidade de nossa região se dotar de mecanismos apropriados para a solução de controvérsias com investidores estrangeiros. Manifestamos nossa solidariedade aos países da América Latina e do Caribe que estão sendo afetados por reclamações ilegítimas e campanhas de desprestígio contra eles, que colocam em risco o desenvolvimento de seus povos, e solicitamos às empresas e grupos transnacionais que mantenham uma conduta responsável e consistente com as políticas públicas adotadas pelos Estados receptores do investimento.

44. Reafirmamos a importância de desenvolver ferramentas que permitam fortalecer o sistema financeiro internacional, o que deve contemplar uma regulamentação mais rigorosa e eficaz das grandes instituições financeiras e a adoção de medidas concretas para alcançar melhores práticas internacionais nos fluxos financeiros internacionais. Em consonância com isso, é de grande relevância a redução da dependência excessiva das avaliações das agências de classificação de risco de crédito.

45. Consideramos indispensável para a estabilidade e previsibilidade da arquitetura financeira internacional garantir que os acordos alcançados entre devedores e credores no âmbito dos processos de reestruturação das dívidas soberanas sejam respeitados, permitindo que os fluxos de pagamento sejam distribuídos aos credores cooperativos, conforme acordado com eles no processo de readequação consensual da dívida. É necessário contar com instrumentos que possibilitem acordos razoáveis e definitivos entre credores e devedores soberanos, permitindo enfrentar os problemas de sustentabilidade da dívida de forma ordenada.

46. Expressamos nossa convicção sobre a importância que os fluxos de investimento estrangeiro direto adquiriram em nossa região e a necessidade de que eles contribuam efetivamente para os processos de desenvolvimento de nossos países e resultem em um aumento dos níveis de bem-estar de nossas sociedades, sem imposição de condicionalidades, com respeito à sua soberania e em conformidade com seus planos e programas nacionais de desenvolvimento.

47. Consideramos necessário contar com uma ferramenta de planejamento latino-americana e caribenha diante dos novos desafios que a CELAC enfrenta, razão pela qual são imperativos os esforços coletivos de integração, solidariedade e cooperação, mutuamente vantajosos, em particular com os países vulneráveis e de menor desenvolvimento relativo, que servirão para alcançar objetivos claros, mensuráveis e adaptáveis às diferentes realidades nacionais, com vistas à erradicação da pobreza e à promoção do desenvolvimento sustentável.

48. Ratificamos a importância da cooperação e integração financeira regional. Nesse sentido, apoiamos as resoluções adotadas pelos Ministros e Ministras da CELAC em suas reuniões de 2013.

49. Saudamos com satisfação o Governo do Estado Plurinacional da Bolívia e o povo boliviano pelo lançamento bem-sucedido ao espaço ultraterrestre do primeiro satélite boliviano de comunicações denominado “Túpac Katari” (TKSAT-1), realizado em 20 de dezembro de 2013 no centro espacial Xichang, da República Popular da China, reconhecendo que os benefícios do satélite chegarão a milhões de bolivianos, facilitando o acesso à educação e à informação, garantindo o exercício dos direitos humanos e facilitando o intercâmbio de conhecimentos científicos entre os diferentes povos da América Latina e do Caribe.

50. Reiteramos nosso mais firme apoio aos direitos legítimos da República Argentina na disputa de soberania pelas Ilhas Malvinas, Geórgias do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes, bem como o interesse permanente em que tal disputa seja resolvida por meios pacíficos e de negociação, conforme disposto na Resolução 31/49 da Assembleia Geral das Nações Unidas.

51. Reiteramos nosso compromisso com o princípio do direito soberano dos Estados de dispor de seus recursos naturais e de gerenciá-los e regulá-los. Manifestamos, igualmente, o direito de nossos povos de aproveitar, de maneira sustentável, os recursos naturais, que têm o potencial de ser utilizados como uma importante fonte para financiar o desenvolvimento econômico, a justiça social e o bem-estar de nossos povos.

52. Reiteramos nossa mais profunda rejeição à aplicação de medidas coercitivas unilaterais e reiteramos, mais uma vez, nossa solidariedade com a República de Cuba, ao mesmo tempo em que reafirmamos nosso apelo ao governo dos Estados Unidos da América para que ponha fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro que impõe a essa nação irmã há mais de cinco décadas.

53. Comprometemo-nos a continuar trabalhando para consolidar a América Latina e o Caribe como Zona de Paz, na qual as diferenças entre as nações sejam resolvidas por meio do diálogo e da negociação ou de outras formas de solução pacífica estabelecidas no Direito Internacional.

54. Tendo em conta os objetivos delineados na Declaração do Suriname, aprovados na Primeira Reunião de Ministros da Cultura da CELAC, realizada nos dias 14 e 15 de março em Paramaribo, Suriname, enfatizamos a importância da cultura na América Latina e no Caribe como fundamento da identidade de cada país e como catalisador dos processos de integração regional. Ressaltamos a importância da cultura e das indústrias culturais para as economias nacionais e assumimos o compromisso de promover o empreendedorismo cultural como ferramenta de conservação de nosso patrimônio cultural e de geração de oportunidades de emprego e riqueza para nossos povos, de forma a contribuir para o bem-estar de nossos cidadãos e para o progresso da sociedade como um todo.

55. Expressamos nossa satisfação pela realização da VI Cúpula Mundial das Artes e da Cultura, realizada em Santiago do Chile entre os dias 13 e 16 de janeiro passado, o que contribuiu para projetar a região como um cenário privilegiado para viabilizar encontros e diálogos de vocação universal no âmbito da cultura.

56. Reiteramos nosso apoio ao processo de diálogo que está sendo realizado em Havana, Cuba, entre o Governo da Colômbia e as FARC, e saudamos os avanços alcançados por meio da conclusão de acordos em dois pontos importantes da agenda. Instamos as partes a continuarem o processo destinado a pôr fim a um conflito interno que, por mais de 50 anos, tem afetado o desenvolvimento político, social e econômico dessa nação irmã. Saudamos e agradecemos o papel dos países garantes, Cuba e Noruega, e dos países acompanhantes, Chile e Venezuela, nas conquistas alcançadas.

57. Reiteramos nosso apoio à proclamação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em dezembro de 2013, da Década Internacional dos Afrodescendentes, que terá início em 1º de janeiro de 2015, sob o tema “Afrodescendentes, justiça e desenvolvimento”; bem como ao Comunicado aprovado pelos Ministros das Relações Exteriores da CELAC, em sua terceira reunião, que proclama a Década dos Afrodescendentes Latino-Americanos e Caribenhos, iniciada em 1º de janeiro deste ano.

58. Reconhecemos a importância de considerar o papel essencial da ação coletiva dos povos indígenas e das populações locais na conservação e uso sustentável da diversidade biológica, como uma contribuição significativa para o planeta. Apoiamos as ações que estão sendo desenvolvidas para promover seu reconhecimento oficial.

59. Reiteramos a necessidade de tomar medidas para proteger os direitos sobre os conhecimentos tradicionais e ancestrais dos povos indígenas e tribais e das comunidades locais, evitando sua violação por terceiros por meio de registros que não reconheçam sua titularidade, bem como promover a participação justa e equitativa nos benefícios decorrentes de sua utilização. Apoiamos as negociações que estão sendo realizadas a esse respeito nos fóruns multilaterais competentes.

60. Destacamos que as negociações do Documento Final conciso e orientado para a ação da Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas, da Reunião Plenária de Alto Nível do sexagésimo nono período de sessões da Assembleia, que será conhecida como a Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas, a ser realizada nos dias 22 e 23 de setembro de 2014 em Nova York, terão como objetivo compartilhar pontos de vista e melhores práticas sobre a realização dos direitos dos povos indígenas, incluindo a realização dos objetivos da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e tomamos nota das recomendações dos principais temas da Conferência Preparatória Mundial dos Povos Indígenas para a Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas, realizada de 10 a 12 de junho de 2013, em Alta, Noruega. Tomamos nota da iniciativa do Governo do México de realizar uma reunião preparatória da Conferência Mundial em abril de 2014.

61. Apoiamos o Ano Internacional da Agricultura Familiar declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

62. Saudamos a eleição do Estado Plurinacional da Bolívia para a Presidência do Grupo dos 77 e China durante o ano de 2014 e nos comprometemos a lhe dar todo o nosso apoio no exercício dessa responsabilidade, a fim de que ela redunde em favor dos interesses da América Latina e do Caribe. Da mesma forma, celebramos a organização de uma Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do Grupo dos 77 mais a China, a ser realizada em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, nos dias 14 e 15 de junho de 2014, em comemoração ao 50º aniversário da fundação do G77.

63. Consideramos a necessidade de uma distribuição geográfica equitativa no sistema das Nações Unidas e enfatizamos a necessidade de a América Latina e o Caribe aumentarem quantitativa e qualitativamente sua presença em cargos-chave das Nações Unidas e de outros organismos internacionais, objetivo ao qual dedicaremos nossos melhores esforços.

64. Reiteramos nossas posições em torno de uma reforma integral do sistema das Nações Unidas, muito particularmente, a democratização das instâncias decisórias internacionais, em particular o Conselho de Segurança. A democratização necessária deve incluir representatividade, transparência, eficiência, democracia, respeito pelos mandatos de outros órgãos das Nações Unidas e prestar contas devidamente a todos os membros da ONU.

65. Considerando que a migração internacional é um fenômeno global que envolve mais de 220 milhões de pessoas, entre as quais mulheres, crianças, adolescentes e indígenas, reconhecemos o valor do conteúdo da resolução adotada durante o II Diálogo de Alto Nível das Nações Unidas sobre Migração e Desenvolvimento (DAN2013), que privilegia a abordagem dos direitos humanos, destaca a urgência de proteger os grupos mais vulneráveis nos fluxos migratórios e insiste na necessidade de um maior envolvimento das Nações Unidas, suas agências, fundos e programas na matéria, bem como no interesse de incluir o tema da migração internacional na Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, entre outros assuntos, e nos comprometemos a fortalecer as ações de cooperação no âmbito da responsabilidade compartilhada, para avançar na atenção aos múltiplos desafios que a migração internacional nos apresenta.

66. Ratificamos o compromisso de fortalecer a luta contra o crime organizado transnacional, em conformidade com o Direito Internacional. Nesse contexto, estamos cientes de que o crime e a violência constituem um obstáculo ao pleno desenvolvimento da América Latina e do Caribe, e enfatizamos a necessidade de contar com uma visão de consenso regional sobre segurança cidadã com um enfoque de desenvolvimento humano e respeito aos direitos humanos e aos princípios de soberania nacional e não ingerência nos assuntos internos. Com essa perspectiva, devemos reforçar os mecanismos de diálogo e coordenação, conforme apropriado, para melhorar as estratégias regionais sobre segurança cidadã e desenvolvimento sustentável.

67. Expressamos nossa mais séria preocupação com a grave situação humanitária e de segurança na República Árabe da Síria e com a ameaça que ela representa para o Oriente Médio e para a paz e a segurança internacionais. Elogiamos as partes sírias por terem aceitado manter negociações diretas na Conferência Internacional sobre a situação na Síria (Genebra II), sob os auspícios do Enviado Especial Conjunto das Nações Unidas e da Liga dos Estados Árabes. Felicitamos o Secretário-Geral das Nações Unidas pela organização dessa Conferência. O diálogo e a negociação são urgentes e essenciais para avançar nos esforços de reconciliação nacional e para garantir a plena aplicação das Convenções de Genebra na Síria. Reiteramos que somente um processo político inclusivo liderado pelos sírios poderá conduzir à paz e à realização das legítimas aspirações do povo sírio, com base na aplicação estrita dos princípios de soberania, independência, autodeterminação, integridade territorial e não interferência nos assuntos internos.

68. Destacamos a realização, pela primeira vez nas Nações Unidas, de uma Reunião de Alto Nível sobre Desarmamento Nuclear, em 26 de setembro de 2013, na qual a CELAC reafirmou a necessidade urgente de avançar em direção ao desarmamento nuclear e alcançar a eliminação total e geral das armas nucleares de forma transparente, irreversível e verificável, e instou a trabalhar para avançar na negociação de um instrumento universal juridicamente vinculativo, que proíba as armas nucleares com um cronograma acordado multilateralmente. Comprometemo-nos a dar continuidade a essas posições.

69. Expressamos nossa mais profunda preocupação com as consequências humanitárias de enormes proporções e os efeitos globais de qualquer detonação nuclear acidental ou intencional. Exortamos a comunidade internacional a reiterar sua preocupação com as consequências humanitárias das armas nucleares, onde quer que se realize o debate sobre esse tipo de armas. Congratulamo-nos com os resultados da Conferência de Oslo sobre o Impacto Humanitário das Armas Nucleares, realizada em março de 2013 e, nesse sentido, apelamos a todos os Estados para que participem na segunda Conferência Internacional sobre o Impacto Humanitário das Armas Nucleares, que se realizará no México, nos dias 13 e 14 de fevereiro de 2014.

70. Tomamos nota com satisfação do acordo preliminar entre a República Islâmica do Irã e o Grupo 5+1 em Genebra sobre o programa nuclear iraniano, o que demonstra que o diálogo e a negociação são o caminho para resolver as diferenças entre os Estados, e manifestamos nossa expectativa de que em breve se chegue a uma solução ampla e duradoura para a questão. Ratificamos o direito inalienável de todos os Estados, em conformidade com o disposto no TNP, de desenvolver a pesquisa, a produção e a utilização da energia nuclear para fins pacíficos, sem discriminação, o que, juntamente com o desarmamento e a não proliferação, constitui os pilares do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares, do qual todos os membros da CELAC fazem parte.

71. Reiteramos nosso apelo para que a Conferência para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares e outras armas de destruição em massa no Oriente Médio seja realizada o mais rápido possível, de acordo com o acordado pelas Partes do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares em 1995, 2000 e 2010, uma vez que contribuiria de forma valiosa para o fortalecimento da paz e da segurança internacionais.

72. Destacamos o valor e a contribuição para a paz e a segurança internacionais do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe e seus Protocolos (Tratado de Tlatelolco), que estabeleceu a primeira zona mais densamente povoada e livre de armas nucleares do planeta. Ressaltamos nosso total apoio ao trabalho da Organização para a Proibição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe e, nesse sentido, reafirmamos a importância da colaboração e cooperação entre a CELAC e a OPANAL, órgão especializado da região, para articular posições comuns e trabalhos conjuntos em matéria de desarmamento nuclear.

73. Tomamos nota da adoção do Tratado sobre o Comércio de Armas pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em abril de 2013.

74. Tomamos nota das atividades internacionais da CELAC, especialmente a visita da Troika Ministerial ampliada à Federação da Rússia, as reuniões da Troika Ministerial aberta da CELAC com os Ministros das Relações Exteriores da República da Coreia, da República Popular da China, o Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo, a Turquia e o Japão, realizadas em Nova Iorque por ocasião do início do 68º Período de Sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas, bem como o trabalho para acordar, com cada um desses interlocutores, um Roteiro para o diálogo e a cooperação.

75. Congratulamo-nos com o estabelecimento do Fórum CELAC-China e do Mecanismo de Diálogo com a Federação da Rússia, elementos que podem ter um impacto positivo nas atividades da Comunidade.

76. Estamos convencidos de que é necessário continuar a busca por novas sinergias da CELAC em nível internacional, para o que é preciso retomar aquelas que já foram iniciadas em 2012 e estabelecer modalidades adicionais de convergência e relacionamento.

77. Saudamos a coordenação entre os Estados-Membros da CELAC nas Nações Unidas e expressamos nossa disposição de continuar trabalhando gradualmente nessa matéria e de ampliar o trabalho para outras sedes, nos casos em que for possível e necessário.

78. Expressamos, além disso, nosso apoio ao processo preparatório da II Cúpula CELAC-UE, a ser realizada em Bruxelas em 2015. Encarregamos os Coordenadores Nacionais e os Altos Funcionários do Diálogo CELAC-UE, conforme o caso, de concluir a negociação do acordo internacional para o estabelecimento da Fundação EULAC, com vistas à II Cúpula CELAC-UE. 79. Agradecemos ao Presidente da República do Chile, Excelentíssimo Senhor Sebastián Piñera Echenique, que este ano encerra seu mandato, pelo excelente trabalho e liderança desenvolvidos durante o processo de convergência e implementação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, que culminou com a realização da bem-sucedida I Cúpula da CELAC, celebrada em Santiago, Chile, nos dias 27 e 28 de janeiro de 2013.

80. Agradecemos à República da Costa Rica por acolher a Presidência Pro Tempore da CELAC em 2014 e a III Cúpula da CELAC em 2015. Reconhecemos a Excelentíssima Senhora Laura Chinchilla Miranda, Presidente da República da Costa Rica, que encerrará seu mandato em maio de 2014, por seu firme e valioso apoio à CELAC desde sua origem.

81. Agradecemos à República do Equador por acolher a Presidência Pro Tempore da CELAC em 2015 e a realização da IV Cúpula da CELAC.

82. Tomamos nota da oferta reiterada pela República Dominicana de sediar a CELAC em 2016, apresentada em fevereiro de 2013.

83. Expressamos nosso agradecimento ao Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba pela liderança e pelo trabalho realizado durante o exercício da Presidência Pro Tempore do fórum e o reconhecimento ao povo e ao Governo de Cuba pela organização da II Cúpula da CELAC em Havana, nos dias 28 e 29 de janeiro de 2014.

Havana, 29 de janeiro de 2014


Em español : https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/ii-cupula-da-celac-declaracao-de-havana-29-de-janeiro-de-2014

tradução : @comitecarioca21

                  


26 de jan. de 2026

ALGUNS TEXTOS SOBRE O IRÃ. MUITO BONS ! VALE A LEITURA. 💚💛

                                           

  O Irã não é alvo de ataque dos EUA por ser uma república islâmica ou por questões ligadas aos direitos humanos, mas porque exerce controle sobre rotas por onde escoam produtos de países competidores do país norte-americano.

      Dominar rotas por onde fluem energia, finanças, logística e infraestrutura significa poder para os EUA. Poder que Trump busca obter, custe o que custar – mesmo que implique na destruição do planeta.

#LawfareNuncaMais  (https://www.instagram.com/p/DTqALK4DibI)


EDIÇÃO DE GUERRA

OPERAÇÕES DE CONTRAINSURGÊNCIA NO IRÃ

O Irã parecia estar à beira do abismo. O Ocidente já festejava a queda do governo iraniano e o regresso da monarquia iraniana com o sha (rei) à frente de um novo governo. Mas, em apenas 48 horas, o que parecia ser uma iminente revolução colorida, desinflou-se completamente, sendo comprovadas as acusações iranianas de que a insurreição era organizada a partir do exterior. O ponto de inflexão definitivo foi o apagão do sistema de internet Starlink do norte-americano Elon Musk. O apagão deixou as células terroristas sem comunicação, fragmentadas e sem capacidade de receber novas instruções do imperialismo norte-americano e do sionismo “israelense”. Portanto, tornaram-se vulneráveis à captura pelas autoridades iranianas.

Essa mudança radical não foi, em absoluto, fortuita. O ponto de inflexão que salvou o Irã de uma revolução colorida, veio pelas mãos de seu mais forte aliado, a Federação Russa que enviou, diante de uma emergência, sistemas de guerra eletrônica que foram capazes de bloquear o sistema norte-americano Starlink.

Em 03 de janeiro de 2026, o secretário de segurança da Federação Russa, Serguei Shoigu, manteve um contato telefônico com seu homólogo iraniano, Lila Rariani, em que se analisou os recentes acontecimentos no Irã e, brevemente, mencionou-se a possibilidade de transferência de equipamentos de guerra eletrônica.

Comenta-se que tais equipamentos foram extremamente efetivos, já que não parece que tenha sido mera coincidência a paralisia súbita de terroristas a serviço dos EUA e de “Israel”. De fato, um dia antes, os representantes da oposição iraniana afirmaram que a Rússia ou a China Popular ajudaram as autoridades iranianas a bloquear a internet Starlink. Diários, como o Wall Street Journal e Sky News, informaram que Donald Trump tinha sido informado por seus assessores do bloqueio da Starlink, em larga escala, no Irã. Posteriormente, Donald Trump conversou com Elon Musk, exigindo explicações, querendo saber como foi possível inabilitar a internet por satélite Starlink, em todo o território iraniano, o que, por sua vez, seria consistente com informações anteriores de que as autoridades iranianas estavam mapeando e capturando as células dos insurgentes, por meio da localização das antenas Starlink.

Enquanto isso, os informes russos indicam uso massivo do sistema de guerra eletrônica Tirada 2S, especializado em bloquear comunicações via satélite, o mais apto, para paralisar o sistema Starlink norte-americano. Ainda que muitas informações sobre esse sistema sejam classificadas, pode-se ter uma ideia do que é capaz.

Segundo o fabricante, o Tirada 2S é especializado na interrupção do fluxo de informação entre satélites de órbita baixa e terminais baseados em terra. É descrito como um sistema antissatélite Soft Kill que não danifica o satélite de nenhuma forma, mas impede sua comunicação com os receptores em terra, desde que se mantenha dentro do alcance do sistema que, nesse caso, pode abarcar, pelo menos, 100 km, no entorno. Portanto, esse sistema, por sua vez, bloqueia sistemas de comunicação via satélite nas bandas UHF, L, S, C, XX e K, o que implica que, instalando um desses sistemas, no centro de cada uma das cidades mais importantes iranianas, pode-se bloquear efetivamente os sinais da rede Starlink, deixando os grupos insurgentes totalmente vulneráveis. Combinando-se seu uso com sistemas mais portáteis e móveis, teoricamente, é possível localizar as antenas dos sistemas Starlink receptoras e, com isso, localizar e capturar os militantes das células terroristas.

Trata-se, em realidade, de um dos usos geopolíticos mais oportunos e, sobretudo, decisivos da guerra eletrônica na História moderna. E se se considera o valor geopolítico do Irã, neste momento específico, foi uma decisão transcendental. Sem dúvida, a correta e oportuna aplicação da guerra eletrônica russa, na situação iraniana, permitiu, de modo efetivo e rápido, estabilizar um país que, facilmente, poderia ter sido consumido por uma revolução colorida e um golpe de Estado, levando a uma mudança de regime, na prática, a uma monarquia sanguinária sob controle norte-americano, tal como já aconteceu no passado.   


Antes de acreditar que o sistema político iraniano oprime o povo iraniano, veja a História de seus caluniadores, como os EUA e “Israel”, um Estado artificial, mantido para oprimir não só os povos do Oriente Médio, mas também da África, com tentáculos em todo o continente americano, inclusive, por meio de seitas evangélicas neopentecostais que nada têm a ver com cristianismo.

Você decide... se fica a favor da soberania da República Islâmica do Irã que continua lutando, ou se prefere que o imperialismo estadunidense instaure, no país, uma monarquia sanguinária...

(Editor: Nilson Dalledone nilsondalledone@gmail.com Fontes russas e iranianas).


                                 A PÉRSIA 💜- por quem conhece.


O Irã está na ordem do dia. As pessoas gritam e acusam, ou usam a ironia, para intimidar interlocutores divergentes, reais ou imaginários. Repetem chavões: ali, dizem, está instalada uma teocracia assassina, que “enforca mulheres em praça pública”, “empurra homossexuais do alto de prédios” e massacra um povo oprimido. 

Desculpem confrontá-los, mas isso é um delírio.

Não há “teocracia assassina”. O sistema político iraniano combina múltiplas instâncias, leigas e religiosas, eleitas pelo voto direto e indicadas pelo clero xiita. A política depende de um permanente equilíbrio entre instituições diferentes.

A Presidência da República é eleita pelo voto direto, com mandatos de quatro anos, com a possibilidade de uma reeleição. Há alternância de poder. Em cada eleição, o leque de alternativas oferecido ao eleitorado iraniano é muito maior do que os dois eternos candidatos – o democrata e o republicano – que se se apresentam monotonamente aos eleitores americanos.

Funcionam dezenas de associações políticas, mas as eleições costumam ser disputadas por candidatos individualmente, o que me parece muito melhor. O atual presidente é um cirurgião cardíaco, proeminente integrante da comunidade científica do país. Não é político profissional e nem era o candidato preferido do estamento religioso.

O Parlamento iraniano também é eleito pelo voto direto. São 290 deputados com mandatos de quatro anos. A presença feminina é significativa. Armênios cristãos, assírios, caldeus, judeus e zorotastrinianos têm cadeiras reservadas.

                                   
O clero xiita intervém no sistema político a jusante e a montante desses órgãos, como poder regulador.

O líder supremo, vitalício, é escolhido pelo estamento religioso. O presidente da República cuida dos assuntos de governo e o Parlamento elabora leis, enquanto o líder supremo cuida dos assuntos de Estado, que incluem a política externa e o controle da principal força armada do país, a Guarda Revolucionária. É a última instância, no sentido de Carl Schmitt. Assume pleno poder em situações de crise.

Todos os candidatos a cargos eletivos devem ser aprovados pelo chamado “conselho de guardiães”, formado por seis clérigos islâmicos (indicados pelo líder supremo) e seis juristas leigos (indicados pelo Parlamento). O conselho pode vetar candidatos. Sua atuação é pública e permite recursos.      

O Parlamento do Irã aprovou nesta terça-feira (07/01) por unanimidade um projeto de lei que classifica o Exército dos EUA e o Pentágono como organizações terroristas.

Nos Estados Unidos, esse papel cabe ao grande capital, aos donos dos meios de comunicação e ao lobby sionista, que no fundo são a mesma coisa. Sua atuação é invisível e, portanto, irrecorrível. Cinco grupos empresariais controlam 95% dos que os americanos podem ver e ouvir. A abstenção é a regra nas eleições.

Nenhum cargo no Irã é decorativo. A política se faz pela busca de um permanente compromisso entre todas as instâncias. Há uma sociedade civil forte e atuante.

As mulheres não são “enforcadas em praça pública”. São maioria nas universidades, inclusive nas chamadas “ciências duras”, como matemática, física e engenharia. O uso da burka é residual e o do lenço é optativo. As cidades iranianas estão cheias de mulheres de cabelos soltos.


Comumente, homens e mulheres jovens moram juntos por períodos longos antes de decidir se querem se casar.

Também nas democracias ocidentais, instâncias não eleitas, como as cortes supremas, intervêm na ação dos governos, em defesa de um pacto considerado permanente, chamado Constituição, que teve origem mais ou menos longínqua na delegação popular.

No Irã, o pacto considerado permanente, a ser defendido, é o Islã, uma religião sem sacramentos, sem sacerdócio, sem altares, que aspira a ser uma atitude vital que tudo abarca, fundindo religião, moralidade, costumes, cultura e política. A confissão de fé, a oração ritual, a caridade, o mês de jejum e a peregrinação são os seus cinco fundamentos. Não há música solene, cantos, velas, procissão, imagens ou dramas sacros. Todos participam de maneira ativa da oração comunitária. Um leigo respeitado pode dirigir a oração. O direito é consuetudinário, como na Inglaterra.

Cada jeito corresponde à história e à cultura de cada país. A minha preferência pelo pacto constitucional, que corresponde à nossa história e à nossa tradição, não me leva a odiar e demonizar os iranianos.

É preciso ser um débil mental para acreditar que o povo persa, com seus 5.000 anos de história, deseja que Estados Unidos e Israel bombardeiem seu país e destruam suas instituições.

Quando olhado de perto, o funcionamento do sistema político iraniano provavelmente apresenta muitas falhas. Depois de muitos anos de duríssimas sanções econômicas, há um cansaço e uma insatisfação difusa na sociedade.

E nos Estados Unidos, isso não acontece? E no Brasil? Com quanto cansaço, quanta insatisfação, convivemos? Quanto tempo aguentaremos se uma grande potência decidir nos desestabilizar?

Vamos ao grão. A economia americana não poderá funcionar, tal como existe, sem hegemonia político- militar sobre o mundo. Enfrentará um empobrecimento que levará o país à guerra civil.

Mas o mundo em que um só país controla a moeda, a energia e o poder militar está terminando. O Irã é o hub de um megaespaço asiático de energia, nascente, completamente desdolarizado. Se ele se consolidar, a espiral de endividamento que sustenta a economia americana deixará de funcionar, pois o dólar perderá os seus privilégios. Será o fim de uma era.

A elite americana sabe bem disso. Tornou-se uma poderosa força anticivilizatória. Cada vez mais, sua política externa usa o terrorismo, o jihadismo, o neonazismo, o paramilitarismo e grupos afins como peões, sem limites. Cada vez mais, multiplica guerras, instabilidades e tensões, enquanto se apresenta, no mundo encantado dos meios de comunicação, como bastião da democracia e das liberdades. É o reino da mentira e do crime. Se essa elite não for contida, produzirá a Terceira Guerra Mundial.                            

Ao defenderem a desestabilização e, agora, o bombardeio do Irã, vocês estão defendendo um império cujo tempo passou.

(FB de Cesar Benjamin em 15 de janeiro de 2026)

 

O IRÃ ENTRE PROTESTOS SOCIAIS E OFENSIVA GEOPOLÍTICA: GUERRA HÍBRIDA E RESISTÊNCIA À ORDEM IMPERIAL

Manu Pineda*

As ações lançadas pelos Estados Unidos e por "Israel" contra o Irã nada mais são do que uma guerra híbrida que combina pressão econômica, operações secretas, manipulação de informações e apoio a atores políticos aliados.

                           


Os protestos sociais que ocorrem no Irã têm uma origem real, concreta e legítima. Uma parcela significativa da população sofre com dificuldades econômicas, escassez de produtos, pressão inflacionária e dificuldade em suprir suas necessidades básicas.

Essas condições estão intimamente ligadas a décadas de sanções econômicas, bloqueio financeiro e isolamento internacional impostos pelos Estados Unidos e seus aliados, que impactaram severamente a sociedade iraniana. Mesmo assim, a existência de pressões externas não elimina o direito dos cidadãos de exigir respostas, soluções e políticas eficazes de seu próprio governo. O protesto social faz parte da vida política de qualquer sociedade, e expressar insatisfação com a falta de melhorias materiais é um exercício legítimo de participação.

A população iraniana está ciente de que muitas de suas dificuldades têm causas externas, mas também percebe limitações internas para resolvê-las. Nesse contexto, surgem mobilizações como expressões do descontentamento cidadão com problemas cotidianos relacionados à inflação, ao emprego, aos serviços públicos e às perspectivas futuras. Esses protestos têm uma base social real. Contudo, sua evolução demonstra como esse descontentamento tem sido usado como instrumento de desestabilização por potências externas com objetivos estratégicos bem definidos.

Em junho do ano passado, Israel e os Estados Unidos lançaram uma agressão militar direta contra o Irã, conhecida como a "Guerra dos Doze Dias". Washington participou ativamente do bombardeio do território iraniano, confirmando que esta não foi uma ofensiva impulsionada apenas por uma aliança formal, mas sim uma ação coordenada. Essa agressão não alcançou seus objetivos políticos e estratégicos. Não enfraqueceu decisivamente o Estado iraniano, não alterou o equilíbrio de poder regional nem provocou o colapso interno que esperavam.

Desde então, a estratégia evoluiu para uma segunda fase, visando alcançar indiretamente o que não pôde ser obtido por meios militares diretos. Os protestos atuais fornecem o contexto ideal para relançar essa ofensiva sob um disfarce diferente, revestida de retórica humanitária e uma suposta preocupação com os direitos humanos. Trata-se de uma guerra híbrida que combina pressão econômica, operações secretas, manipulação da mídia e apoio a atores políticos aliados.

O Irã ocupa uma posição central no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio e do Oriente Próximo. Suas capacidades militares, influência política e autonomia estratégica atuam como um freio aos planos de Israel de dominação regional. Para Israel, a existência de um Irã soberano, com suas próprias alianças e capacidade de dissuasão, constitui o principal obstáculo à imposição de sua hegemonia sem contrapesos. Por essa razão, o objetivo de enfraquecer o Estado iraniano faz parte de uma estratégia estrutural.

A entidade sionista israelense não possui a força necessária para impor uma mudança de regime no Irã por conta própria. Para tentar isso, precisa do apoio político, militar e midiático dos Estados Unidos. Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, essa aliança foi ainda mais fortalecida. A política externa americana passou a priorizar a pressão máxima, a retórica agressiva e o apoio incondicional à agenda israelense na região. Nesse contexto, os protestos no Irã se tornam uma oportunidade para apresentar uma narrativa de colapso interno, repressão em massa e suposta ilegitimidade do governo iraniano, abrindo caminho para uma intervenção mais agressiva.

A construção dessa narrativa se baseia em uma intensa campanha midiática internacional. Grandes veículos de comunicação, plataformas digitais e organizações que se apresentam como defensoras dos direitos humanos divulgam números crescentes de mortes sem apresentar provas verificáveis, investigações independentes ou registros documentais. Centenas ou milhares de mortes são mencionadas casualmente. Esses números circulam como fatos comprovados, mesmo sem laudos periciais ou listas oficiais que os corroborem.

Uma parte central dessa narrativa vem de uma organização não governamental sediada na Virgínia, um estado historicamente ligado às agências de inteligência dos EUA. Declarações emitidas por essa organização atribuem a repressão em massa ao governo iraniano, com base em relatos indiretos e fontes não verificadas. A falta de provas documentais não impede que esses números sejam divulgados pelos principais veículos de comunicação internacionais como se fossem fatos comprovados.

Em contraste com esses números inflados, existem fatos verificáveis: mais de 200 policiais morreram durante os distúrbios — policiais com nomes, sobrenomes, fotografias e famílias identificadas. Esses dados mostram que a violência não foi unidirecional. Em inúmeros casos, os protestos escalaram para confrontos armados. Infraestrutura pública, hospitais, clínicas, ambulâncias, veículos e quartéis de bombeiros foram atacados e incendiados por grupos de indivíduos mascarados com treinamento militar, agindo com alto grau de coordenação. Essa dimensão do conflito é frequentemente obscurecida pela narrativa dominante.

Israel também não esconde seu envolvimento direto. Autoridades israelenses de alto escalão reconheceram publicamente a atividade do Mossad em território iraniano e dentro de redes de oposição. A presença de serviços de inteligência estrangeiros e grupos paramilitares entre os manifestantes confirma que a situação tem sido usada como ferramenta de desestabilização política. O objetivo é amplificar o descontentamento social e transformá-lo em um processo de colapso institucional que leve a uma mudança de regime favorável aos interesses de Israel e dos Estados Unidos.

Nesse contexto, a figura de Reza Pahlavi, filho do último Xá da Pérsia, reaparece. Pahlavi deixou o Irã em 1978 e vive nos Estados Unidos há 47 anos. Sua existência política e econômica está ligada à riqueza acumulada pela monarquia iraniana antes da Revolução Islâmica, uma fortuna construída por meio do saque de recursos públicos e da corrupção de uma ditadura apoiada por potências ocidentais.

O regime do Xá foi responsável por uma repressão sistemática baseada em tortura, censura e perseguição da oposição política. A polícia política, SAVAK, operava com métodos brutais e cometia graves violações dos direitos humanos. Reza Pahlavi é um herdeiro direto desse sistema. Mesmo assim, ele tenta se apresentar como uma alternativa democrática, respeitosa das liberdades e comprometida com os direitos humanos, com o apoio da mídia ocidental e de círculos políticos em Washington e Tel Aviv.

Pahlavi anunciou publicamente que, se chegar ao poder, uma de suas primeiras medidas será estabelecer relações diplomáticas com Israel e reconhecê-lo como um Estado, aderindo aos Acordos de Abraão. Essa postura confirma seu alinhamento com a agenda regional israelense e americana. Sua figura se encaixa no modelo da oposição no exílio: um líder distante da realidade social do país, sem base popular interna, mas útil como a face política de uma potencial mudança de regime supervisionada do exterior.

O governo da República Islâmica do Irã cometeu erros, alguns deles muito graves. Há restrições significativas às liberdades das mulheres, limitações à sua autonomia pessoal e social, e marcos legais que geram discriminação. Também houve repressão contra movimentos de esquerda, sindicatos e setores da classe trabalhadora que reivindicam direitos trabalhistas e participação política. Essas práticas merecem a crítica mais veemente e contundente de uma perspectiva democrática e social.

Mas não nos enganemos: a ofensiva contra o Irã pelos Estados Unidos, "Israel", e seus aliados internacionais não é motivada por esses erros nem por uma preocupação genuína com o respeito aos direitos humanos no Irã. Ela é motivada por seus sucessos estratégicos : o Irã tem defendido consistentemente a causa palestina contra a ocupação israelense; apoiado o eixo da resistência ; participado ativamente de fóruns multilaterais como o BRICS; desenvolvido alianças políticas, econômicas e estratégicas com a China, a Rússia e a Venezuela ; e demonstrado seu firme compromisso em manter uma política externa soberana diante das potências coloniais e imperialistas que fizeram das ameaças, da agressão e da intimidação seus meios de tentar dominar o mundo.

Se os Estados Unidos e Israel derrubassem a República Islâmica do Irã e impusessem um governo fantoche, as alianças anti-hegemônicas, anti-imperialistas e multilaterais no cenário internacional seriam drasticamente enfraquecidas. Seu objetivo não é melhorar as condições de vida do povo iraniano, mas sim desmantelar um projeto político que desafia a ordem geopolítica estabelecida.

Esse padrão já havia sido aplicado na Síria. Os protestos sociais iniciais, ligados a problemas econômicos e reivindicações políticas, foram rapidamente cooptados. Construiu-se uma narrativa de repressão em massa, apoiada pelos chamados "Capacetes Brancos", apresentados como socorristas humanitários. Com o tempo, ficou claro que eles operavam em áreas controladas por grupos ligados à Al-Qaeda e que sua principal função era produzir material de propaganda para legitimar a intervenção estrangeira.

Na Síria e no Irã, um padrão de guerra de informação está em curso. Uma narrativa emocional é construída, centrada em imagens chocantes, números inflados e relatos unilaterais. Essa narrativa visa gerar indignação internacional, justificar sanções mais severas, isolar diplomaticamente o país alvo e abrir caminho para uma intervenção direta ou indireta. A população local fica presa entre seus problemas reais e uma manipulação externa que exacerba a instabilidade.

Defender os direitos do povo iraniano significa reconhecer seu direito de protestar, exigir melhorias e clamar por soluções. Significa também rejeitar o uso desse descontentamento como pretexto para uma operação de mudança de regime orquestrada do exterior. A experiência histórica demonstra que tais intervenções não trazem democracia ou bem-estar, mas sim destruição, fragmentação social e perda de soberania.

O Irã encontra-se no centro de uma disputa global. Sua resistência à subordinação, seu apoio à Palestina, suas alianças estratégicas e seu papel na resistência regional explicam a intensidade das campanhas contra o país. Compreender essa realidade exige análise crítica, rigor político e uma abordagem pedagógica que distinga entre protesto legítimo e manipulação geopolítica.


*Manu Pineda -  Ativista e político espanhol, filiado à Esquerda Unida e ao Partido Comunista da Espanha. Membro do Parlamento Europeu (2019-2024)

https://espanol.almayadeen.net/articles/2114999/iran-entre-la-protesta-social-y-la-ofensiva-geopolitica--gue

Trad/Edição: @comitecarioca21