Por Hedelberto López Blanch*
Obcecado em assumir o controle político e econômico de toda a América Latina, o presidente dos EUA, Donald Trump, está interferindo na campanha presidencial brasileira, que ocorrerá em 4 de outubro e terá como principais concorrentes Luiz Inácio Lula da Silva (que busca a reeleição) e o candidato da oposição de extrema direita, Flávio Bolsonaro.
Trump expressou repetidamente seu apoio à libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro (condenado por corrupção) e reafirmou seu apoio a Flávio Bolsonaro para que ele vença as próximas eleições, tendo assim um aliado incondicional à frente do governo do gigante latino-americano.
Desde que chegou à Casa Branca em janeiro de 2025, Trump interferiu nas campanhas eleitorais de vários países da América Latina, influenciando com sucesso o medo dos eleitores ao ameaçar impor sanções ao país caso algum candidato nacionalista vencesse.
Assim, vemos que houve interferência nas eleições legislativas de outubro de 2025 na Argentina, nas eleições presidenciais de novembro de 2025 em Honduras e nas da Colômbia, em maio-junho de 2026.
Esses atos de interferência foram reivindicados por Trump, que publicamente se atribuiu o mérito pelos resultados dessas eleições. Trata-se de uma reinstalação da Doutrina Monroe para exercer controle dos EUA sobre os povos da América Latina.
Em 22 de julho, Washington aplicou tarifas de 25% a uma lista de produtos brasileiros, alegando violação do Artigo 301 da lei comercial dos EUA, por considerar que os produtos brasileiros praticavam "comércio desleal".
Como justificativa, o regime estadunidense menciona suas “divergências com as políticas do governo Lula da Silva” em relação a diferentes áreas, como “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, aplicação de leis anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e proteção contra o desmatamento ilegal”, entre outras.
Entre os produtos afetados estão aço, automóveis, madeira, açúcar, fertilizantes, produtos farmacêuticos e minerais.
Exportações essenciais como carne bovina, peças de aeronaves e café não serão afetadas pela medida injustificada, embora as tarifas impactem cerca de 18% das remessas do Brasil para os Estados Unidos.
O governo brasileiro declarou que "não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país", porque, segundo estatísticas do próprio regime estadunidense, os Estados Unidos acumularam um superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.
Sintomaticamente, o Secretário de Estado Marco Rubio, uma figura sinistra envolvida em todas as ações que possam afetar governos progressistas na América Latina, anunciou que Trump “ordenou ao Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que aplicasse uma tarifa de 25% a boa parte dos produtos importados do Brasil porque Lula e seu governo não negociaram de boa-fé com os Estados Unidos”.
Em outras palavras, como Rubio insinuou: ou você se rende economica e politicamente aos interesses de Washington, ou sofrerá as consequências.
O governo brasileiro negou as acusações de práticas comerciais desleais feitas por Washington e ativou respostas imediatas, como a concessão de um pacote de assistência de 18,5 bilhões de reais (cerca de 3,7 bilhões de dólares) em créditos para exportadores que serão prejudicados pelas novas tarifas.
O auxílio será concedido por meio da expansão de um programa chamado Plano Brasil Soberano, implementado no ano passado pelo governo após uma rodada anterior de reformas tributárias em Washington. Segundo esse plano, as empresas afetadas recebem seguros, garantias e empréstimos subsidiados.
O Ministro do Planejamento anunciou que o plano inclui 5 bilhões de reais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 13,5 bilhões de reais do Tesouro Nacional.
O sociólogo brasileiro Emir Sader, em entrevista à agência de notícias PIA-GLOBAL, explicou que "os argumentos invocados pelo governo Trump para impor novas tarifas são todos mentiras, no estilo do seu presidente".
Ele acrescentou que o que importa para os Estados Unidos é tentar reverter a inevitável derrota eleitoral do bolsonarismo em outubro próximo.
Em uma tentativa de isolar ainda mais o governo Lula, Washington acaba de impor tarifas entre 10% e 12% a cerca de 60 países, incluindo o Brasil e outras nações latino-americanas, por supostamente "não cumprirem a proibição de importação de bens produzidos com trabalho forçado", segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Agora, as tarifas para o gigante latino-americano serão de 37%.
Assim, Trump e seu aliado Marco Rubio estão lançando um ataque contra o governo brasileiro para tentar derrotá-lo nas próximas eleições, o que só pode ser combatido pela experiência eleitoral do presidente Lula e pelo apoio de seu povo.
(*) Jornalista cubano. Escreve para o jornal Juventud Rebelde e para o semanário Opciones. É autor de “Emigração Cubana para os Estados Unidos”, “Histórias Secretas de Médicos Cubanos na África”, “Miami, Dinheiro Sujo”, “Rubio, um Mitomaníaco Incontrolável”, entre outros. Ilustração da capa: Adán Iglesias Toledo.
Trad/Ed @comitecarioca21

