1 de set. de 2026

NOTAS SOBRE OS ACORDOS DE PETRÓLEO DA VENEZUELA.

                              

31 agosto 26

Algumas notas que podem ajudar a entender as mudanças na política de petróleo da venezuela.

 

I-                   O QUE ACONTECIA ANTES DE JANEIRO/26

1.     No governo Chavez a produção de petróleo era sempre ao redor de 3,3 milhões de barris/dia de petróleo.  Com a crise e o bloqueio ao governo Maduro, a produçao caiu para menos de um milhão de barris/dia.

2.     O governo Maduro fazia acordos com muitas empresas, através da PDVSA, e de acordo com as condições dos poços, já identificados ou não, se realizavam contratos (contratos de participação produtiva sob a lei antibloqueio que o Maduro usou como ferramenta para poder chamar inversão), em que em geral as empresas recebiam de 30 a 60% da renda petroleira, e entregavam a maior parte do petróleo para a PDVSA comercializar. Algumas empresas tinham contratos para elas pagarem royalties ao governo e vendiam o produto no mercado internacional.

3.     Havia empresas privadas nacionais (algumas associadas a capital estrangeiro), empresas estrangeiras da china, russia, EUA (NABEP), argentina e do Brasil. As empresas americanas eram pequenas, por conta do bloqueio. E muitas empresas interessadas não conseguiram entrar com receio do bloqueio, e das sanções americanas, em especial as empresas da Índia e França...).

4.     Vejam notícias de quais empresas atuavam:

Pdvsa agiliza con 15 compañías extranjeras su producción mediante los CPP

¿Qué sabemos de los nuevos contratos petroleros en Venezuela? - Guacamaya

 

5.     A Chevron estava muito forte com acesso a muitos poços e tinha um modelo de negócios próprio com o governo.

6.     O petróleo era vendido quase totalmente para China, Iran, Turquia e Rússia (o eixo do mal rsrss), mas também tinha clientes americanos disfarçados. E claro, NABEP y Chevron (americanas que fechavam o ciclo completo).

7.     A venezuela vendia petróleo também para Cuba, em menor quantidade em relação ao total, e recebia o pagamento em serviços medicos e assistência tecnica.

8.     Naquele período do início do governo Maduro e o reconhecimento do governo dos EUA, ao impostor Guaidó, o gov. dos Estados unidos entregou ao Guaidó, todas as refinarias da PDVSA que funcionavam nos Estados Unidos.    Isso representou um sequestro de milhões de dólares que a PDVSA movimentava vendendo nos postos de combustível, diretamente aos consumidores americanos gasolina e diesel.   E diminuiu por completo as exportações da PDVSA que antes iram para suas refinarias nos EUA.

9.     Devido ao Bloqueio e ameaças de sanções dos EUA, e todo imbróglio político de guerra hibrida contra a Venezuela, a produção de petróleo caiu a níveis muito baixos, diminuindo muito os ingressos em divisas estrangerias.

10.                       As vendas prioritárias para a India e a China, implicavam em troca por produtos, e não envolviam pagamentos em dólar.   Trazendo também dificuldades para a Venezuela poder comprar mercadorias em dólares de outros países, inclusive peças de reposição para sua indústria petrolífera.

11.                       Por tanto, pode-se dizer que a Venezuela não estava conseguindo usufruir dos benefícios de ter a maior reserva de petróleo identificada, em todo mundo.   E ainda que a havia a possibilidade de exploração a baixo custo, mas faltava o capital necessário para comprar equipamentos, manutenção e até contratação de pessoal especializado.

 

II-              JANEIRO DE 2026

 

1.     O ataque militar dos EUA, com armas inimagináveis, e o sequestro do Presidente Maduro e da deputada Cília, representou uma derrota política e militar a Venezuela, que trouxe consequências gravíssimas, para seu futuro.

2.     Todos sabem que o verdadeiro objetivo do ataque e sequestro era ter acesso irrestrito do petróleo venezuelano em benefício das empresas americanas.

3.     O governo interino está sob ameaça constante de mais ataques e sanções.

4.     Diante da derrota sofrida e amargando dores e feridas, como a morte de mais de 80 militares (32 cubanos), o governo interino fixou a seguinte rota tática:

a)    Buscar recursos para ampliar a exploração petroleira para chegar aos níveis de exploração dos tempos de Chavez.

b)    Lograr que os recursos da renda petroleira, servissem para melhorar as condições de vida da população.

c)     Ganhar tempo, para que com as melhorias de vida, ampliar o apoio do povo ao chavismo.

d)    Fazer acordos com a oposição civilizada (sem a extrema direita), para um novo calendário eleitoral.

e)     Abandonaram o discurso anti-imperialista, e passaram a adotar apenas a defesa da soberania nacional e popular.

 

5.     Nesse meio tempo, ocorrem os dois terremotos, que custaram a vida de mais de 6 mil pessoas, centenas de casas e edifícios destruídos, implicando em necessidade ainda maior de recursos para reconstrução  de toda uma região.

 

 

III-            SITUAÇÃO ATUAL

 

1.     O governo mudou a lei de petróleo, que foi aprovada por unanimidade na assembleia nacional.   A nova lei flexibiliza a possibilidade de empresas estrangeiras investirem no petróleo. 

2.     Uma empresa estrangeira ou privada nacional pode apresentar uma proposta de projeto para extrair petróleo de poços indicados pela PDVSA.    A empresa investe na extração, e do petróleo extraído paga ao redor de 30% de royalties pro governo e pode vender o petróleo a quem quiser ou para a PDVSA.

3.     Com base na nova lei, e  sob pressão do governo Trump , o governo da Venezuela fez negociações com empresas  americanas que poderão  acessar  os poços indicados pela PDVSA  e  investir e pagar os  royalties.

4.     O acordo de concessão é por 25 anos.    E isso vai permitir nesse período acessar a 65 bilhões de barris de petróleo.   Mas ninguém ainda pode precisar qual o volume de petróleo será extraído pro ano, e quanto será o valor dos 30% a serem arrecadados a cada ano.

5.     Atentem que as reservas comprovadas de petróleo na Venezuela são estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% do total mundial.

6.     Comenta-se que essa concessão poderá atrair investimentos estrangeiros de 110 bilhões de dólares na indústria petroleira. E por outro lado a estimar-se o valor de 19 dólares por barril, a ser recolhido em royalties ao estado venezuelano, poderia resultar num ingresso de 220 bilhões de dólares em divisas!

7.     Com as novas empresas estrangeiras que foram investir a produção de petróleo voltou a crescer e já chegou a 1,2 milhões de barris/dia.

8.     A expectativa do governo, que com acordo com as empresas americanas, se poderia voltar a produzir 3 milhões de barris/dia, alcançando o patamar historico. 

 

IV-            AS REPERCUSSÕES POLITICAS

 

1.     O governo explicou o acordo, na fala oficial da presidenta.

 

https://www.telesurtv.net/acuerdo-eeuu-venezuela-soberania-desarrollo/

 

2.     Pela afirmação da Presidenta o acordo representa a concessão de acesso das empresas dos EUA às reservas de petróleo da Venezuela, que continuarão com sua propriedade, e a exploração de qualquer poço, passa pela aprovação previa da PDVSA. Mas sobretudo a expectativa é de que os 30% de royalties permitirão ao governo ter recursos para investir na indústria e necessidades da população.

3.     Setores da oposição direitista, maiormente ligados ao partido democrata dos EUA, saíram na imprensa condenando o acordo.  Já que o acordo teoricamente, vai beneficiar o governo Trump na campanha eleitoral até novembro.

4.     Setores de esquerda latinoamericana, que tampouco apoiavam o governo Maduro, também vieram a público criticar o acordo.

Vejam artigo de William Castillo,da Venezuela, comentando las repercussões  na direita e na esquerda

https://x.com/planwac/status/2093883139558916510

5-AQUI UMA ANÁLISE DE COMO ACORDO INTERESSA PARA USO POLÍTICO NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/08/30/pensamiento-critico-venezuela-sin-chavez-un-acuerdo-petrolero-pensando-en-las-elecciones-de-estados-unidos/

 

6- Nota aos brasileiros:  as condições de petróleo no pré-sal, as concessões de uso e exploração são semelhantes às da Venezuela, e as empresas também.  As reservas encontradas na margem equatorial da foz do amazonas, em processo de licitação, por coincidência, teria a mesma quantidade de petróleo do acordo com EUA, para 25 ANOS.   Vejam artigo de Tania Mandarino, no portal VIOOMUNDO,Brasil, sobre o tema 

https://www.viomundo.com.br/contramare/tania-mandarino-a-ilusao-da-altivez-mineral-no-capitalismo-dependente.html

 

7- A direita venezuelana é ligada tradicionalmente aos democratas... e portanto a notícia de Trump conta como trunfo para a economia americana, na disputa eleitoral por la.

 

8.Toda a direita venezuelana, dentro e fora do país está contra o acordo. Mas também houve protestos de pequenos grupos de esquerda radical.

9.Inclusive tem artistas venezuelanos que estão acusando a Trump de “apoio à ditadura venezuelana” com o discurso dos democratas. 

10.A Direita venezuelana acredita que os royalties do petróleo, em volumes tão grandes vai dar um novo oxigênio ao governo chavista para investir na economia e das condições de vida da população e com isso aumentaria apoio eleitoral nas próximas eleições.

11.Segundo algumas fontes de comentaristas que analisam o comportamento eleitoral do povo da venezuela, revelam de que o chavismo teria 30% de apoio consolidado, mas que a oposição (na de extrema direita) também teria 30%, e que, em caso de eleições seria decidido pelos 40% que se dizem cansados da polarização, dos bloqueios e crise política.   A migração de tantos venezuelanos para os países vizinhos e inclusive EUA, seriam originários desse grupo.    Além dos grupos de militantes da extrema direita que vivem em Miami e Madrid.

🚨Blanca Rosa Mármol afirma que acuerdo petrolero de Trump es nulo🚨

La reconocida magistrada y jurista venezolana Blanca Rosa Mármol de León calificó de manera categórica como jurídicamente nulo el reciente acuerdo petrolero promovido por la administración estadounidense en torno a los yacimientos venezolanos, argumentando que carece de la aprobación constitucional indispensable de la Asamblea Nacional legítima. Mármol enfatizó que cualquier compromiso financiero o concesión sobre recursos estratégicos de la nación suscrito al margen de la Carta Magna carece de validez legal y legitimidad democrática, por lo que no compromete de forma vinculante el patrimonio futuro de la República ni el ordenamiento institucional venezolano. 

La experta en materia constitucional advirtió además que negociaciones de esta magnitud, realizadas sin el debido escrutinio público ni la concurrencia de los poderes públicos independientes, profundizan la inseguridad jurídica que ahuyenta a los inversionistas serios y vulnera flagrantemente el principio de soberanía nacional consagrado en el texto constitucional. Sus declaraciones reavivan la polémica en los círculos legales del país sobre la validez de los contratos petroleros firmados en contextos de profunda crisis institucional y fractura de la separación de poderes.

Fuente: El Nacional

@comitecarioca

                             

Cuba : Gaza 2.0

Foto: Luis Jesús Reyes / Cubadebate.
                                         
Em setembro, fará oito meses que Cuba começou a sofrer um bloqueio de petróleo imposto pelo regime genocida dos EUA. Desde então, apenas um petroleiro russo descarregou petróleo na ilha, em abril passado. Isso é claramente insuficiente. As consequências sociais e econômicas do cerco imposto a Cuba pelos Estados Unidos e seus capangas americanos e europeus, bem como a inação da chamada comunidade internacional, que fecha os olhos para a situação, são catastróficas.

Um genocídio silencioso está em curso e deve ser denunciado diariamente. Desta vez, o regime genocida dos EUA não bombardeou nem invadiu Cuba. Não há tanques nem aviões massacrando e exterminando a população civil, como faz seu protegido, o regime sionista igualmente genocida e colonial, na Palestina. Sua estratégia, porém, é mais insidiosa. O regime genocida dos EUA está tentando transformar Cuba em um vasto campo de concentração, emulando e superando o que o sionismo está fazendo na Palestina.

Desde que o regime genocida dos EUA intensificou este ano o bloqueio econômico, comercial e financeiro criminoso que Cuba sofre há mais de 60 anos, a vida na ilha está se tornando insuportável. A situação atual não deve ser romantizada falando-se do heroísmo do povo cubano, que resiste ao ataque genocida de seu vizinho imperialista "resolvendo", como dizem os cubanos, para sobreviver a mais um dia.

O regime dos EUA está apertando ao máximo a corda em torno do pescoço do povo cubano. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, acaba de declarar que não só continuarão a manter a pressão, como também afirmou que "toda vez que criarem um novo mecanismo para tentar escapar do cerco, nós simplesmente o fecharemos". E são esses que se vendem como campeões da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.

Esse laço que prometem apertar cada vez mais significa que os hospitais não têm energia para manter milhares de doentes vivos; não há combustível para transportar alimentos ou pessoas; a população sofre com apagões prolongados, o que se traduz, entre outras coisas, em dias sem acesso direto à água potável. Da mesma forma, o laço genocida paralisou os recursos econômicos de um país submetido a uma guerra econômica há décadas. E, no entanto, apesar de meses sem que uma única gota de petróleo entre no país, o imperialismo genocida dos EUA ainda não conseguiu subjugar o povo cubano.

Cuba foi a primeira nação a sofrer em campos de concentração nas mãos do imperialismo espanhol. Agora, como o suposto pai do sionismo genocida que transformou Gaza no maior campo de concentração a céu aberto, o regime genocida dos EUA pretende criar o maior campo de concentração da história da humanidade, onde milhões de pessoas serão, mais uma vez, abandonadas à própria sorte. O sionismo tem uma política de extermínio para eliminar a população palestina e colonizar o território; o regime genocida dos EUA pretende transformar Cuba em uma Gaza 2.0. 

Mikel Bueno Urritzelki, historiador e professor

https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/08/26/cuba-gaza-2-0/

 @comitecarioca

31 de ago. de 2026

SE O BRASIL CAIR, TODA A AMÉRICA DO SUL CAIRÁ SOB O DOMÍNIO IMPERIAL.

Arte: Adán Iglesias

  Por Hedelberto López Blanch 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou bem claro que entende o perigo que paira sobre seu país e provavelmente sobre a América Latina caso os Estados Unidos, por meio da extrema direita brasileira, consigam vencer as eleições presidenciais marcadas para 4 de outubro. 

Durante uma visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, o presidente reafirmou a importância de preservar a soberania nacional como um pilar fundamental do país, defendeu a cooperação internacional e o fortalecimento do multilateralismo, em meio a ameaças e tensões diplomáticas provenientes dos Estados Unidos.

Em discursos e escritos em sua conta X, Lula insistiu que "sem soberania, o Brasil não existiria" e que "um país de tamanho tão grande não pode viver de cabeça baixa a vida inteira", em referência direta às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos aos produtos do gigante sul-americano.

Com a aproximação das eleições gerais no Brasil, o presidente Donald Trump, já condenado por crimes, intensificou sua campanha em favor do candidato de extrema-direita Flávio Bolsonaro, a quem recebeu em junho na Casa Branca e sobre quem afirmou que "foi um prazer ter um jovem inteligente no Salão Oval". Posteriormente, Trump anexou duas fotos de outro encontro que teve com Flávio em 26 de maio, uma reunião secreta que não havia sido divulgada.

Para agradar Bolsonaro (filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023)), Trump decretou um alto imposto sobre produtos brasileiros, com o claro objetivo de afetar a economia do Brasil e desestimular o apoio majoritário que Lula atualmente possui entre a população.

Dando continuidade a essa campanha, o regime estadunidense classificou os grupos brasileiros PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, medida solicitada por Bolsonaro a Trump durante o encontro entre os dois e rejeitada por Lula, por considerar que isso "poderia abrir caminho para uma intervenção militar dos EUA" em seu país.

Outra manobra rejeitada por Brasília foi a aprovação da indicação de Trump para embaixador no Brasil, Daniel Pérez, deputado republicano da Flórida e aliado próximo do autoproclamado magnata Marco Rubio. A resposta foi que isso só aconteceria depois das eleições, já que os Estados Unidos estavam sem embaixador no Brasil havia um ano e meio.  

O governo nacionalista brasileiro também enfrenta uma forte campanha de desinformação em todos os principais veículos de comunicação, que buscam apagar o progresso alcançado pelo gigante sul-americano nos últimos anos. 

Para garantir a estabilidade global e fortalecer a posição do país no cenário internacional, Lula adotou uma postura construtiva, o que foi confirmado em uma recente conversa telefônica com Trump na tentativa de apaziguar os ânimos. 

Entre as conquistas de seu governo estão a diversificação das relações comerciais por meio da expansão da cooperação com os países do BRICS e da região Ásia-Pacífico; a redução da importância do dólar no comércio mundial, bem como a promoção da criação de sistemas de pagamento alternativos. 

Em relação à economia e às políticas sociais, o Brasil foi retirado do Mapa da Fome das Nações Unidas; houve uma queda acentuada na pobreza e na extrema pobreza: 8,7 milhões de pessoas saíram da pobreza e 3,1 milhões da extrema pobreza.

Para o final do ano, a projeção de crescimento do PIB é de 2,4%; a taxa de desemprego atingiu um dos seus menores níveis históricos, em 5,3%. As exportações de produtos brasileiros para diversos países também aumentaram, e a menor taxa de inflação dos últimos anos foi registrada em 4,24%.

Mas Lula, com longa trajetória política e experiência em gestão presidencial, entende que nas próximas eleições não estará em jogo apenas a independência do Brasil, mas também a da América Latina, especialmente da América do Sul, devido às ambições políticas e econômicas dos Estados Unidos, que querem dominar e colonizar toda a região.

Por isso, as últimas declarações do presidente brasileiro têm sido contundentes sobre o assunto: "Foi a soberania que nos trouxe liberdade e independência (...) a soberania é a autoridade que um povo tem sobre o seu próprio destino; para nós, é o direito de construir uma sociedade livre, justa e solidária."

@comitecarioca

https://cubaenresumen.org/2026/08/30/si-cae-brasil-cae-toda-sudamerica-en-la-garra-imperial/                 

18 de ago. de 2026

PELA PAZ! PELA VIDA ! CONTRA O FASCISMO!

                                      

Declaração dos participantes da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade no Colóquio Internacional "Fidel: Legado e Futuro" e na 34ª Feira do Livro de Havana.

Em 18 de agosto de 1936, há noventa anos, o grande poeta Federico García Lorca foi brutalmente assassinado pelo fascismo. Sua figura deslumbrante, suas palavras e seu sacrifício continuam a nos inspirar em nossas lutas atuais.

Guiados pela certeza de que não é possível fechar os olhos ou ficar de braços cruzados diante da agressão imperialista, sionista e fascista, e comovidos por estes dias que passamos com o heroico povo cubano, reunimo-nos na Casa de las Américas em 14 de agosto para discutir como ampliar a influência da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade, criada em 2003 com o apoio decisivo de Fidel e Chávez.

Neste momento, o governo dos EUA e seus aliados estão aplicando a lei do mais forte em todos os lugares com total impunidade; estão criando um clima insuportável de macartismo e tornando sem sentido as garantias básicas do direito internacional, incluindo o direito à vida de milhões de pessoas.

Enquanto isso, a extrema-direita latino-americana, seguindo à risca as ordens do imperador, parece determinada a levar a região de volta aos tempos sombrios da Doutrina de Segurança Nacional e da Operação Condor. Ela se esforça para reavivar um anticomunismo fervoroso, atacando brutalmente líderes, organizações e movimentos sociais.

Nos próprios Estados Unidos, os atos de repressão policial contra migrantes, latinos, negros, jovens que abraçaram a causa palestina e ativistas antifascistas estão se multiplicando: contra qualquer pessoa que levante a voz pela paz, justiça e igualdade. Na Europa, partidos fascistas, xenofobia, discursos de ódio e manifestações públicas de uma extrema-direita fortalecida e brutal estão em ascensão.

Uma política genocida cruel está sendo levada adiante contra dois povos que resistem: o projeto atroz de extermínio do povo palestino; e o genocídio silencioso, sem bombas por enquanto, contra o povo cubano. Um plano implacável de asfixia.

O Império vê Cuba como o maior obstáculo para reinar sem oposição sobre o que ainda considera seu quintal e agora a apresenta como o "inimigo ideológico" por excelência.

Diante desse cenário e da necessidade urgente de construir "trincheiras de ideias" contra a barbárie e a onda de mentiras que o acompanha, nossa Rede EDH propõe:

·         Denunciar por todos os meios ao nosso alcance o genocídio contra os povos da Palestina e de Cuba e a interferência ilegal e imoral dos EUA em nossa América.

·         Defender alternativas políticas populares e progressistas contra o fascismo em qualquer lugar do mundo.

·         Contribuir para a construção da unidade entre as forças de esquerda, sem qualquer sectarismo. Onde houver um núcleo de resistência cultural antifascista, a Rede deve estar presente com sua mensagem de solidariedade.

·         Trabalhar para alcançar novos setores, em particular os jovens.

·         Defender a verdade e desmontar as manipulações e falsidades criadas para confundir, dividir e desinformar.

·         Dar a máxima prioridade à guerra de comunicação no campo das redes sociais e plataformas digitais.

Que a esta luta de tamanha importância se unam todas as pessoas sensíveis e dignas que compreendam a magnitude desta ameaça à humanidade.

 

O genocídio contra o povo palestino deve parar!

O cerco implacável contra o povo cubano precisa acabar!

Cuba tem o direito de viver em paz!

O presidente venezuelano Nicolás Maduro e a congressista Cilia Flores devem ser libertados!

A injustiça racista contra os migrantes deve acabar!

O assédio macarthista contra o povo dos EUA deve parar!

Basta de guerras e das mentiras usadas para justificá-las!

                         

 

https://cubaenresumen.org/2026/08/18/por-la-paz-por-la-vida-contra-el-fascismo/

VENEZUELA : NÃO CULPE A VÍTIMA.


Por Roger D. Harris, Francisco Dominguez e María Paez Victor, Popular Resistance.

“Nada é mais fácil do que ser idealista em nome dos outros.” Karl Marx, 1858

Sob o manto da noite, o exército dos Estados Unidos sequestrou o presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, a deputada da Assembleia Nacional Cilia Flores, em 3 de janeiro de 2026. Os danos colaterais incluíram mais de 100 mortos, entre civis e guardas cubanos e venezuelanos.

Esse ataque surpresa e não provocado violou flagrantemente o direito internacional. A potência hegemônica agiu com plena expectativa de poder operar com impunidade. Mesmo os governos vizinhos de esquerda do Brasil e da Colômbia ofereceram apenas repreensões fracas. O então ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, disse: “estamos sozinhos”. Esse é o contexto em que os acontecimentos posteriores devem ser entendidos.

A atroz ação militar culminou um quarto de século de maquinações dos Estados Unidos e de seus aliados (principalmente Canadá e Reino Unido) contra a Venezuela: sanções asfixiantes, ativos roubados, isolamento diplomático, ataques cibernéticos, tentativas de assassinato, invasões mercenárias e a instalação de um governo paralelo fictício. Durante os dois meses que antecederam a invasão, a marinha estadunidense bloqueou os embarques de petróleo. Mesmo assim, o objetivo do império de conseguir uma mudança de regime não foi alcançado.


A resiliência da revolução obrigou os EUA a intensificar as ações

Washington e seus aliados não conseguiram destruir o chavismo, o movimento fundado por Hugo Chávez e continuado por seu sucessor, Nicolás Maduro. A Venezuela não entrou em colapso nem degenerou no caos após a decapitação. A paz interna prevaleceu.

A oposição de extrema direita, apoiada e financiada pelos Estados Unidos, não tomou o poder, mas se viu cada vez mais marginalizada e em desordem.

A liderança chavista prosseguiu com uma sucessão constitucional sem falhas, com a vice-presidente Delcy Rodríguez empossada como presidente interina. A unidade do alto comando permaneceu firme, apoiada pela Assembleia Nacional e pela Suprema Corte. Da mesma forma, a união cívico-militar e as comunas e instituições chavistas de base apoiaram plenamente o governo.

Valendo-se de sua esmagadora superioridade militar, Washington fez uma oferta ao estilo da máfia que não se pode recusar. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ligou para Rodríguez naquele dia infame e deu a ela um ultimato: colaborar com os EUA ou enfrentar a destruição militar do país e o assassinato dela e de outros líderes. Variações desse cenário são corroboradas tanto pela imprensa corporativa quanto por fontes chavistas.

Trump ameaçou explicitamente: “Tem mais de onde isso veio”. A alternativa era a devastação que atualmente assola o Irã, um país com capacidade militar muito maior. Com as forças estadunidenses mobilizadas por toda a região e em frente às suas costas, um confronto militar teria significado a aniquilação, incluindo a destruição da indústria petrolífera. Rodríguez fez o que qualquer líder responsável teria feito, dadas as opções existentes; ela fez uma retirada tática diante de uma força avassaladora.


A Venezuela não se rendeu.

Todas as instituições do Estado chavista e o poderoso universo de organizações de base que sustentam a revolução permanecem intactos. No entanto, o imperialismo estadunidense, ao ter uma arma apontada para a cabeça do governo, está em condições de exercer uma coação substancial que leve a decisões desagradáveis, como a deportação de Alex Saab.

Essas concessões refletem pressões que nós, que estamos de fora, só podemos imaginar. Como o movimento de solidariedade deve responder é uma questão central.

O ex-funcionário de Chávez, Sergio Rodríguez Gelfenstein, descreve as negociações atuais como um exercício essencial de autopreservação nacional. Ele observa: “O que está em jogo é a sobrevivência do Estado e da república, que, se perdida, tornaria irrelevante a discussão sobre qualquer outro tema”. Como disse o ex-ministro das Relações Exteriores venezuelano Jorge Arreaza, “tudo está sendo negociado agora”, com Washington sendo obrigada a participar de uma troca diária de concessões com Caracas.

A reforma legislativa já estava há muito tempo na agenda de Maduro. No entanto, as revisões das leis que regem a exploração de hidrocarbonetos e minerais duros implicavam oferecer condições generosas ao capital internacional para atrair o investimento estrangeiro tão necessário (o que Cuba também está fazendo).

A nova lei de anistia, outra iniciativa planejada, é um instrumento fundamental para promover a reconciliação e negar aos elementos extremistas argumentos para incitar a violência. A lei exclui estritamente “qualquer pessoa que tenha cometido crimes de guerra, violações dos direitos humanos, homicídio, tráfico de drogas ou traição”.

O governo está em negociações com a oposição moderada. Essas rodadas sucessivas de diálogo foram uma característica recorrente da presidência de Maduro.

Rodríguez aconselhou prudência e paciência estratégica. Em particular, o núcleo da liderança chavista, os militares, o Partido Socialista e as organizações comunitárias permaneceram unidos sob uma pressão tremenda, uma pressão destinada a romper esse acordo unificador.

                                        


Conquistas há muito almejadas alcançadas

Os EUA deram marcha à ré e, na prática, reconhecem o governo venezuelano como legítimo. O projeto bolivariano não apenas persistiu, como também obrigou seu maior adversário a chegar a algum tipo de acordo.

Desde 2019, os EUA não permitiam transações com o Banco Central da Venezuela e os principais bancos estatais. As restrições estadunidenses haviam anteriormente isolado a Venezuela do sistema financeiro global, impedindo o acesso a transações denominadas em dólares e aos canais financeiros dos EUA. As vendas de petróleo aos EUA foram retomadas, com parte da receita retornando à economia nacional. O Fundo Monetário Internacional (FMI), dominado pelos EUA, restabeleceu relações com a Venezuela. Rodríguez declarou que a Venezuela não busca empréstimos do FMI, mas sim acesso aos seus próprios fundos congelados.

Embora as sanções permaneçam em grande parte em vigor, as licenças especiais e uma flexibilização temporária das restrições econômicas para o socorro às vítimas do terremoto proporcionaram certo alívio à economia venezuelana em dificuldades, ao mesmo tempo em que facilitam os fluxos de petróleo para os EUA. As concessões são limitadas e reversíveis, deixando intacta a estrutura mais ampla da guerra econômica dos EUA. Mesmo assim, o acordo é preferível ao bloqueio total do petróleo imposto imediatamente antes do ataque de 3 de janeiro.

Rodríguez tem exigido repetidamente que a Venezuela seja isenta de sanções, solicitando formalmente a liberação dos ativos venezuelanos no exterior para fazer face à devastação causada pelos terremotos. Ele chegou até a apelar ao rei Carlos III para que devolvesse as 31 toneladas de ouro venezuelano depositadas no Banco da Inglaterra.


Mudança no cenário político

O equilíbrio de forças que a atual liderança venezuelana enfrenta é substancialmente menos favorável do que era na época de Chávez; portanto, julgar seus compromissos com base em um padrão idealizado da era Chávez é um erro.

Alguns observadores internacionais invocam Chávez para desacreditar a liderança atual. Esquece-se que, durante a presidência de Chávez, a Venezuela vendia petróleo quase exclusivamente aos EUA, quando a dependência era significativa. Ignorando a mudança de contexto, fazem-se afirmações infantis de esquerda de que Chávez nunca cedeu e de que “não se negocia com o inimigo”, esquecendo o famoso conselho de Fidel Castro durante o golpe de 2002: “Não se sacrifique, Hugo”.

Chávez governou durante um período de alta nos preços das commodities, o que proporcionou ao projeto bolivariano recursos para benefícios materiais que hoje, sob sanções, não estão disponíveis. O contexto geopolítico mudou significativamente desde a época de Chávez, especialmente sob a atual “Doutrina Monroe”. Desde a vitória de Maduro em julho de 2024, nenhum candidato de esquerda venceu na América Latina. As últimas sete eleições presidenciais foram dominadas pela direita. Até que essa trajetória reacionária mais ampla seja revertida, é provável que ocorram mais retrocessos.

O objetivo e o impacto acumulado das medidas coercitivas unilaterais ilegais têm sido minar o apoio público ao governo. Anos de sanções generalizadas – apesar da recuperação econômica de 2021 a 2025, após uma contração do PIB de aproximadamente 75% – deixaram a Venezuela em uma posição vulnerável. Atualmente, a economia venezuelana opera a aproximadamente 30% do nível anterior às sanções.

O governo de Rodríguez tenta ganhar tempo para recuperar a economia, embora os terremotos de 24 de junho tenham desferido um duro golpe. Segundo as Nações Unidas, os danos físicos diretos são estimados em mais de 37 bilhões de dólares, o que representa mais de um terço do produto interno bruto da Venezuela.

A maioria dos venezuelanos deseja a paz interna e o retorno à prosperidade, não um confronto com o império.


“A unidade é o mais importante; sem ela, nada é possível; com ela, tudo é possível.”

Essas foram as palavras de Fidel Castro enquanto organizava a Revolução Cubana em 1956. O mais perigoso para a irmã Revolução Bolivariana é a sugestão de que a atual liderança traiu a causa e de que se pode promover uma “terceira via” verdadeiramente de esquerda para substituí-la. Sempre houve facções rivais dentro do movimento bolivariano. Mas as opções políticas devem ser resolvidas, em última instância, dentro da própria Venezuela, sem a interferência de forças internacionais.

Essas análises da “terceira via”, que rejeitam tanto Caracas quanto Washington, geralmente não abordam o que os venezuelanos poderiam fazer de forma realista neste momento histórico: abundam em críticas ao que está errado, mas escasseiam em alternativas viáveis.

Não faz muito tempo, eram pessoas como a ultradireitista María Corina Machado que destacavam “rachaduras e fissuras nas fileiras chavistas” e antecipavam “o início de uma explosão social” contra o governo venezuelano eleito. Agora, alguns ativistas solidários dizem o mesmo.

A “essência trágica” da desunião da esquerda na Bolívia deveria servir de lição de alerta sobre o que poderia ocorrer na Venezuela. A liderança chavista está dolorosamente ciente disso, daí seu esforço enérgico para estabelecer a frente unida mais ampla contra a colonização estadunidense. Longe de serem traidores da causa, os Rodríguez e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, representam os chavistas mais militantes: lutadores desde o início da revolução.


O que a solidariedade exige

A crítica construtiva e o ativismo solidário não precisam necessariamente se opor. As opiniões dissidentes são válidas quando contextualizadas e apresentadas como parte de um esforço colaborativo para avançar em objetivos comuns, e não como um desabafo individualista.

Alguns na esquerda se autoproclamaram guardiões da fé, julgando negativamente à distância a difícil e arriscada retirada tática empreendida pela liderança bolivariana, apesar de ela ter evitado um confronto militar suicida com o imperialismo estadunidense.

É compreensível a angústia e a decepção da esquerda internacional em relação aos retrocessos da Venezuela. Mas o Sul Global não está prestes a concretizar as aspirações revolucionárias daqueles que vivem no ventre da besta. Isso, deve ficar claro, é tarefa dos povos do núcleo imperial.

Como disse um amigo ativista venezuelano: “Vocês, os gringos, nos dizem como fazer nossa revolução, quando nosso problema é que vocês não conseguiram fazer a de vocês”.

Os venezuelanos determinarão seu caminho sem interferência estrangeira, seja da direita ou da esquerda. A solidariedade exige esforços para acompanhar e fortalecer, não para ditar regras. Os internacionalistas que vivem nos EUA, no Canadá e no Reino Unido devem se concentrar principalmente em nossos próprios imperialistas. Todas as outras contradições são secundárias.

O movimento de solidariedade deve se unir na mais ampla aliança em torno da defesa da soberania nacional e do direito à autodeterminação, opondo-se firmemente ao julgamento farsante de Nova York contra Nicolás Maduro e Cilia Flores, exigindo o levantamento de todas as sanções e pedindo a devolução dos ativos roubados.

O povo unido jamais será vencido.


Roger D. Harris é fundador da Venezuela Solidarity Network na América do Norte.

Francisco Dominguez é secretário nacional da Venezuela Solidarity Campaign no Reino Unido.

María Paez Victor é fundadora do Círculo Bolivariano Louis Riel no Canadá.

https://la-cronica-taquense.blogspot.com/2026/08/republica-bolivariana-de-venezuela-no.html?m=1

@comitecarioca21

                                            

Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba e às Causas Justas 

12 de ago. de 2026

O MARTÍRIO CUBANO NO CENTENÁRIO DE FIDEL CASTRO

                                      

 Roberto Amaral*

Ainda saboreávamos o Ano-Novo — era o réveillon de 1958-1959 — quando nos chegou, em Fortaleza, a notícia de que caíra, em Cuba, a ditadura de Fulgêncio Batista, de quem pouca ou nenhuma notícia tínhamos. O fato era este, tão só, mas sugeria algo de inusitado: não se tratava de mais uma quartelada dentre tantas que faziam e fazem a história do poder da classe dominante latino-americana, interferindo na governança para que tudo permanecesse como dantes no castelo de Abrantes: uma periódica recomposição oligárquica.
Desta feita, surpreendentemente, nos era dado conhecer uma insurgência de base popular que, descendo de Sierra Maestra, encontrava a consagração em Havana. Entre os líderes não se contavam nem sargentos, nem coronéis, nem generais. Este era seu caráter inusitado, principalmente no Caribe e na América Central dos anos 1950-60, uma virtual fazenda da United Fruit Company

Este verdadeiro "polvo" era muito mais do que uma empresa agrícola; era um superpoder econômico e político tão grande que ajudou a popularizar a expressão "república das bananas". A seu pedido, por exemplo, Washington determinou, via CIA, em 1954, a deposição de Jacobo Arbenz, presidente da Guatemala, que ousara levar a reforma agrária para suas terras improdutivas.

Naquele final dos anos 1950, Cuba ainda era, para nós, apenas uma ilha distante, o maior e talvez o mais requintado prostíbulo do Caribe, balneário de gângsteres controlado pela máfia e pelo tráfico, país sem economia própria, sem indústria, limitado à monocultura do açúcar e à produção de charutos.
De ilustre, era conhecido apenas o refúgio de Hemingway na Finca Vigía, onde escrevera O velho e o mar 1952). Nesta sua obra-prima, ele nos fala, por intermédio do protagonista Santiago, sobre a resistência humana em tempos difíceis. Difíceis já eram os tempos do povo cubano, sob a ditadura do sargento Fulgêncio Batista; mais difíceis seriam ainda os tempos de hoje, quando sua sobrevivência é ameaçada pelo império norte-americano, onipotente, diante do silêncio do mundo.

O mesmo silêncio e a mesma omissão (é bom recordar para evitar surpresas futuras) que, nos anos antecedentes a 1939, caracterizaram a covardia europeia (Inglaterra à frente) e o silêncio dos EUA diante da anexação da Áustria e, depois dos Sudetos, da invasão da Tchecoslováquia.

Logo ouviríamos falar em Sierra Maestra. Ainda estávamos em 1959 quando surgiram os nomes de seus heróis: Camilo Cienfuegos, Ernesto "Che" Guevara e Fidel Castro Ruz, seu líder. A história escrita a partir daí é conhecida e nos conta a transição política que alcança seu apogeu em 1961, quando Fidel, coincidentemente às vésperas da invasão da Baía dos Porcos, proclama o caráter socialista da Revolução (em plena Guerra Fria!), heroicamente preservado até aqui, no essencial, com as dores e os sacrifícios conhecidos. 

Nascia — fato único nas Américas — um Estado socialista a apenas cerca de 150 km dos EUA.

Cuba surgia como exemplo e luz profética, dizendo-nos que a revolução social era possível. Podíamos, então, sonhar com a revolução brasileira, com a qual, porém, não se compadeceu a história. Azar nosso.

Irrelevante do ponto de vista econômico, com seus menos de 7 milhões de habitantes (um bairro de Pequim) e 109.884 km² de extensão (menor do que o Ceará), a ilha que se fez rebelde cumpriu, por décadas, com imensos sacrifícios para seu povo, o papel de esteio da luta anticolonialista e anti-imperialista, indispensável para a construção de um mundo socialmente menos injusto, mundo que, no presente, parece distanciar-se de nós.

Em quase toda a África — Angola é certamente o exemplo mais relevante (uma jornada de 14 anos e 50 mil combatentes) —tropas cubanas estiveram lutando em defesa dos processos de libertação nacional. Com a óbvia exceção da Revolução de 1917 e, certamente, ao lado da Guerra do Vietnã, nenhum outro processo social terá influenciado tanto o mundo, e principalmente nosso continente, no século passado, quanto a Revolução Cubana: venceu reiteradas vezes o poderosíssimo império norte-americano; venceu o general Dwight Eisenhower, o primeiro presidente a decretar embargo comercial (1960); venceu John F. Kennedy e a invasão da Baía dos Porcos (1961); venceu Richard Nixon e as 634 tentativas de assassinato de Fidel Castro comandadas pela CIA (O Globo, 27/11/2016).
Vencerá o desvario Trump.

Cuba era a nossa Dulcineia, a ínsula que o sonho do cavaleiro nos prometia. Era uma esperança; sua resistência e sua sobrevivência (muitas vezes batendo de frente contra a lógica, resistindo contra a destruição certa e tantas vezes anunciada) valiam como o certificado de que eram possíveis e viáveis todos os nossos sonhos de jovens socialistas que logo seriam chamados para o enfrentamento da ditadura militar aqui instalada em 1º de abril de 1964, ditadura que a embriaguez do romantismo revolucionário não nos permitira prever e cujas bases ideológicas e políticas nos derrotaram em 2018 e, nesta década, ameaçam destruir nosso futuro.

Os inimigos de Cuba também tecem armas entre nós.

Fidel foi um Quixote quando subiu a Sierra Maestra para comandar uma revolução impossível, mas, a partir daí, seria o comandante de um projeto estratégico. Não foi um acaso sua chegada a Havana, nem a assunção ao poder, nem a opção pelo socialismo. Basta rever sua história, como belamente nos conta Cláudia Furiati em seu primoroso Fidel Castro: uma biografia consentida (Editora Revan, 2003).

Revolucionário e estadista, venceu os adversários com os quais se defrontou, e sempre em condições extremamente desvantajosas. Nenhum deles era moinho de vento, pois todos eram inimigos ferocíssimos, poderosíssimos, e o mais perigoso de todos, o império estadunidense, armado com modernos escudos, lanças e mesmo garras e dentes atômicos. O império luciferino que volta a atacar a Ilha e seu povo.

Visitei Cuba por diversas vezes, em tempos de bonança e nos tempos do "Período Especial" — assim chamado aquele que se sucedeu ao suicídio da URSS. Visitei a ilha como dirigente político, quando, com Jamil Haddad, estava incumbido da tarefa de reorganizar o Partido Socialista Brasileiro, então um partido de esquerda, que consignava em seu programa o compromisso com a defesa da Revolução Cubana. Velhos e saudosos tempos.

Foram muitas as delegações trocadas entre o PSB de então e o Partido Comunista Cubano. Conheci e convivi com seus principais líderes, como Manuel Piñero, o Barba Roja, Armando Dávalos e o comandante Jorge Risquet Valdés. Em algumas oportunidades, pude viajar por suas províncias, conversar com sua gente, visitar suas escolas e universidades, projetos agrícolas, centros cívicos, conviver com seus estudantes e intelectuais, dialogar, debater, discutir. Testemunhei suas dificuldades e pude acompanhar a dedicação majoritária em torno do grande projeto.

As circunstâncias ensejaram-me vários encontros — longas conversas, sem hora para começar e sem hora para terminar — com o "Comandante", em Brasília, em São Paulo e, principalmente, em Havana. No primeiro desses encontros, Fidel disputou com o senador Jamil Haddad quem mais conhecia o programa siderúrgico brasileiro.

Fui a Cuba noutras oportunidades para participar de congressos e seminários diversos. Na última vez em que estivemos juntos, eu integrava uma delegação de escritores e políticos brasileiros que comparecia a um congresso latino-americano sob a chancela da UNESCO. Nosso bate-papo começou por volta das 22 horas e só terminou em torno das 5 horas da manhã. Nesse encontro, Fidel teve a oportunidade de discorrer, para uma plateia espantada, sobre o quadro político de cada um de nossos países. E ele, só ele, passou grande parte do tempo falando de pé.

Sem maiores ilusões quanto à supremacia da práxis, chamava-nos a atenção para os dias vindouros, difíceis, dizia ele, para nossa surpresa coletiva, a reclamar de todos os militantes de esquerda muita reflexão, muita produção teórica. Muita recuperação das lições da História. Aquele homem, por excelência homem de ação e chefe de Estado, nos ditava a lição de Engels: "Não poderemos prever o futuro senão quando tivermos compreendido o passado."

A revolução impossível, que, no entanto, se fez e chega até aqui, enfrentando uma corrida de obstáculos que lhe impõe o desvario genocida dos EUA fez de Fidel Castro — a um tempo ator e objeto do processo histórico — o principal líder latino-americano do século XX, líder da relevância de Nelson Mandela.

Cuba, enfim, sob sua liderança, superou mais de 50 anos de cerco político-econômico, diplomático e militar da maior potência do mundo, sobreviveu à crise do socialismo real e à globalização. Derrotou as oligarquias, os insurgentes, os sabotadores internos e externos.

Até aqui. E hoje, no ano do centenário de Fidel, seu povo se sente só.

Só, desamparada, a pequena ilha do Caribe padece uma asfixia luciferina: afastada do comércio internacional, bloqueada militarmente, ameaçada de nova invasão, sofre de asfixia energética, já que depende do petróleo importado. Mas nenhum país — nem o Brasil, nem a China, nem a Rússia — se atreve a furar o bloqueio. Todos se rendem aos caprichos dos EUA. 

A única fonte de energia de que dispõe Cuba, hoje, são velhas termoelétricas movidas a petróleo, combustível que a grande potência e seus aliados acovardados lhe negam. Daí os apagões, que chegam a 20 horas diárias, impondo a paralisação da vida.

Passo a palavra a meu amigo Jorge Ferrera, ex-adido de Cuba no Brasil, que me escreve (no dia 6 do mês corrente) de Havana:

“Estamos sem eletricidade e sem conexão via internet. O último navio russo carregado de petróleo chegou a Cuba nos primeiros dias de abril, trazendo 100 mil toneladas de petróleo bruto, que foram refinadas no país. Isso representou um alívio, tornando possível que, durante cerca de 15 dias, não houvesse apagões em todo o território nacional.
De janeiro de 2026 até o momento, esse foi o único navio de petróleo recebido. Entre janeiro e junho deste ano, seriam necessários cerca de 40 navios para garantir a geração de eletricidade no país, mas apenas um chegou, o que ilustra a grave crise econômica e social que Cuba enfrenta desde que o governo Trump decretou o bloqueio petrolífero contra a ilha.”

No próximo dia 13 Fidel faria 100 anos.

·      *Com a colaboração de Pedro Amaral