22 de jul. de 2026

DECLARAÇÃO DO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DE CUBA SOBRE A CAMPANHA CALUNIOSA DO DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA

                             

Rechaço veemente à nova campanha caluniosa do Departamento de Estado

Sem conseguir disfarçar a admiração oculta pela epopeia da Revolução cubana, o relatório revela o pavor de uma superpotência nuclear diante do exemplo do ideal de justiça social e de defesa da soberania. Ele demonstra um complexo de inferioridade em relação a um programa nacional que prioriza o povo em detrimento das elites

Cuba rechaça, nos termos mais enérgicos, o relatório publicado em 20 de julho pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, referente à suposta influência subversiva de Cuba contra aquele país. Trata-se de um panfleto de propaganda medíocre. Pretende sustentar a mensagem mentirosa de que Cuba constitui uma ameaça para os Estados Unidos, pretexto que esse governo utiliza para a punição coletiva e o genocídio contra o povo cubano. Busca, por meio da construção de lendas acusatórias, fabricar um consenso para uma eventual agressão militar.

É hipócrita que o Departamento de Estado acuse Cuba de promover ações de subversão, quando se sabe muito bem que é o governo dos Estados Unidos que, a cada ano, destina dezenas de milhões de dólares de seu orçamento federal para subverter a ordem interna em Cuba, provocar fome, desespero e a derrubada do governo cubano. Isso é feito pelo mesmo governo que possui um histórico sórdido de ingerência e violação do direito internacional, que realiza execuções extrajudiciais em águas internacionais, pratica assassinatos políticos, patrocina atos de genocídio, agride países soberanos em todos os continentes do planeta e interfere nos processos eleitorais de Estados soberanos.

Também é hipócrita insistir na mentira de classificar Cuba como um Estado patrocinador do terrorismo. É evidente que nem neste nem em qualquer outro relatório é possível apresentar provas, nem o menor indício para tal acusação ilegítima, pois ela não existe, conforme constam as agências especializadas do próprio governo dos Estados Unidos. É de conhecimento público, porém, que, em território estadunidense, encontraram proteção e total impunidade aqueles que financiam, organizam e instigam atos violentos e terroristas contra Cuba.

Este relatório se insere no discurso do suposto “terrorismo de esquerda”, uma concepção inovadora que o governo dos Estados Unidos e, em particular, seu Secretário de Estado, se empenham em promover como o novo inimigo. Buscam, assim, atacar qualquer traço progressista, compromisso social ou manifestação de esquerda dentro e fora do território estadunidense, intensificar a repressão e instaurar um neomccarthismo.

Busca-se, em especial, reprimir e atacar a própria população estadunidense e aterrorizar aqueles que expressam sentimentos de solidariedade, incluindo aqueles que denunciam a agressão injusta de seu governo contra Cuba. Reconhece-se que cresce nos Estados Unidos, inclusive entre os cubanos que lá vivem e seus descendentes, a oposição ao bloqueio energético, ao estrangulamento da economia cubana e à ameaça de agressão militar.

O Departamento de Estado insiste em questionar os laços de Cuba com outras nações soberanas, como se o Direito Internacional tivesse desaparecido. Ele manipula e deturpa a trajetória solidária, anticolonialista e internacionalista de Cuba, amplamente reconhecida, inclusive dentro dos Estados Unidos. A cada ano, esse país sofre um isolamento reiterado e contundente nas Nações Unidas por se recusar a pôr fim ao bloqueio econômico.

Sem conseguir disfarçar a admiração oculta pela epopeia da Revolução cubana, o relatório revela o pavor de uma superpotência nuclear diante do exemplo do ideal de justiça social e de defesa da soberania. Ele demonstra um complexo de inferioridade em relação a um programa nacional que prioriza o povo em detrimento das elites.

Como sempre fez, Cuba continuará promovendo relações de amizade com o povo e as instituições dos Estados Unidos, em estrita conformidade com o direito internacional, a Carta das Nações Unidas e a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

Havana, 21 de julho de 2026

        

CENTENÁRIO DE FIDEL - CARAVANA A CUBA

                                 

   Caravana a Cuba celebrará centenário de Fidel Castro e fortalecerá a solidariedade internacional à Revolução Cubana – saiba como participar

Entre os dias 8 e 21 de agosto de 2026, uma delegação de brasileiros participará de uma Caravana comemorativa ao Centenário do Comandante Fidel Castro Ruz, iniciativa organizada pela Amistur, agência de viagens vinculada ao Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), em parceria com o movimento brasileiro de solidariedade à ilha caribenha.

A atividade ocorre em um momento de grande significado histórico e político. Em 13 de agosto de 2026, Cuba e os povos do mundo celebrarão os 100 anos de nascimento de Fidel Castro, líder histórico da Revolução Cubana e uma das figuras mais influentes da luta anti-imperialista do século XX.

A caravana se insere na tradição do turismo político-cultural, proporcionando aos participantes a oportunidade de conhecer de perto a realidade cubana, sua história, suas conquistas sociais e os desafios enfrentados pela ilha em meio ao recrudescimento das agressões promovidas pelos Estados Unidos.

Nas últimas décadas, o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto por Washington tem provocado enormes dificuldades ao povo cubano, afetando desde a aquisição de alimentos e medicamentos até o acesso a tecnologias e fontes de financiamento. A situação tem se agravado recentemente, com o aprofundamento do bloqueio e as ameaças de agressão por parte dos EUA. Em vez de ceder às pressões externas, Cuba continua defendendo sua soberania nacional e preservando conquistas reconhecidas internacionalmente nas áreas da saúde, educação, ciência e cultura.

Nesse contexto, iniciativas de solidariedade concreta, como as caravanas internacionais, adquirem importância ainda maior. Além de contribuírem para a economia cubana, essas visitas fortalecem os laços de amizade entre os povos e permitem que os participantes conheçam diretamente a realidade do país, superando as distorções frequentemente difundidas pelos grandes meios de comunicação.

A programação combina atividades comemorativas do centenário de Fidel com visitas a importantes espaços históricos, culturais e sociais (ver programação completa e outras informações ao final da matéria). Em Havana, os participantes conhecerão o centro histórico da capital, a Casa das Américas, o Museu da Alfabetização e uma policlínica do sistema público de saúde cubano, onde haverá intercâmbio sobre a experiência da medicina preventiva e comunitária desenvolvida pela Revolução.

Também estão previstos encontros com organizações sociais cubanas e atividades relacionadas às celebrações do centenário de Fidel, oferecendo uma oportunidade singular para refletir sobre o legado político, ético e humanista do dirigente revolucionário.

O roteiro inclui ainda visitas a Santa Clara, cidade marcada pela epopeia revolucionária liderada por Ernesto Che Guevara, com passagem pelo Trem Blindado e pelo Mausoléu do Che, além de encontro com a Federação de Mulheres Cubanas. A delegação visitará também Trinidad, uma das mais belas cidades históricas do Caribe, e Varadero, importante destino turístico da ilha.

Para os participantes, a viagem representará uma oportunidade de aprendizado, intercâmbio e solidariedade. Conhecer Cuba em um momento tão especial como o centenário de Fidel Castro significa aproximar-se da história de uma revolução que, apesar de décadas de bloqueio e hostilidade externa, continua afirmando seu direito à autodeterminação e servindo de referência para milhões de pessoas que lutam por soberania, justiça social e paz.

Informações

Período: 8 a 21 de agosto de 2026

Organização: Amistur (ICAP) e Movimento de Solidariedade com Cuba

Contato:

WhatsApp: (31) 98400-6433 – Telma Araújo

E-mail: telma.araujo25@gmail.com

                            


                Programação:

1º dia – 08 de agosto/sábado

Recebimento do grupo no Aeroporto Internacional José Martí, pelo guia da AMISTUR.

16:00 Entrada no Hotel Presidente, reunião sobre informações das atividades do programa.

Jantar no Hotel. Noite livre.

2º dia – 09 de agosto/domingo

8:30 Café da manhã.

10:00 Recorrido às 4 Praças: Plaza San Francisco, Plaza Vieja, Plaza de Armas e Plaza de la

Catedral.

12:00 Almoço no Restaurante Berkara.

14:00 Continuação do recorrido: Livraria Vieja, Floridita e Capitólio.

Retorno ao Hotel Presidente. Jantar no Hotel.

Noite livre.

3º dia – 10 de agosto/segunda feira

7:00 Café da manhã.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

Almoço em um Restaurante local.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

Tour panorâmico a Havana Moderna com visita a Casa das Américas e Fosca.

Jantar no Hotel Presidente.

4º dia – 11 de agosto/terça-feira

8:00 Café da manhã.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

Almoço em um Restaurante local.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

Visita e intercâmbio sobre o Sistema de Saúde de Cuba em uma Policlínica.

Retorno ao Hotel. 18:00 Jantar no Hotel.

21:00 Desfrute a Cerimônia del Cañonazo na Fortaleza San Carlos de la Cabaña. Retorno ao Hotel

5º dia – 12 de agosto/quarta-feira

7:00 Café da manhã.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

Almoço em um Restaurante local.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel.

15:00 Visita ao Museu de Alfabetização Retorno ao Hotel Presidente.

6º dia -13 de agosto/quinta-feira

7:00 Café da manhã.

Atividades em comemoração ao Centenário de Fidel.

Almoço em um Restaurante local.

Atividades em Comemoração ao Centenário de Fidel – Retorno ao Hotel.

7º dia – 14 de agosto/sexta-feira

6:00 Café da manhã 7:00 Saída para Santa Clara (5h de viagem)

12:00 Almoço em trânsito no Hotel La Granjita.

14:00 Visita ao Trem Blindado.

16:00 Entrada ao Hotel los Caneyes.

Jantar no Hotel Los Caneyes

Visita ao Centro Cultural El Mejungue.

8º dia – 15 de agosto/sábado Santa Clara

7:30 Café da manhã

10:00 Visita ao Mausoléu do Che, intercâmbio com os funcionários.

12:00 Almoço no Hotel los Caneyes.

14:00 Encontro com a Federação de Mulheres Cubanas.

Jantar no Hotel.

9º dia – 16 de agosto/domingo

8:00 Café da manhã.

Depois saída para Trinidad 2 horas de viagem.

10:00 Saída para Santa Clara, Trinidad e Varadero. Hotel Barceló Solymar

Recorrido ao Centro

12h almoço no Restaurante Praça maior.

14:00 saída para Varadero.

Noite Livre

10º dia – 17 de agosto/segunda-feira Varadero

Café da manhã, almoço, jantar no Hotel – Aproveite o Hotel.

Alojamento Hotel Barceló Solymar.

11º dia 18 – agosto/terça-feira

Café da manhã, almoço, jantar no Hotel – Aproveite o Hotel .

12º dia – 19 de agosto/quarta-feira

7:00 Café da manhã.

8:00 Saída da Província de Matanza. (5 h de viagem)

13:00 Almoço no Restaurante do Hotel Velazco. Saída para Havana

14:30 Visita ao Projeto Comunitário Vida Paz.

Continuação da viagem para Havana. Jantar no Hotel Presidente.

13º dia – 20 de agosto/quinta-feira

7:00 Café da manhã

12:00 Almoço no Restaurante da Bodeguita del Medio. (Havana Velha).

Tarde livre.

20:00 Desfrute o espetáculo do Tropicana. Jantar incluído.

Retorno ao Hotel Presidente.

14º dia – 21 de agosto/sexta feira

Café da manhã. Saída para o aeroporto.


Custo:

Quarto duplo: 1855 dólares para cada um.

Individual: 2155 dólares.

Está incluído no pacote:

Transfer chegada e saída, um guia em todas as atividades falando em português, alojamento nos hotéis, alimentação, transporte para todas as atividades.

O pagamento será feito em Havana em dólares, no dia da chegada.

Obs: A passagem NÃO está incluída nestes valores.

Passagem aérea:

Compra-se a passagem aérea na Copa Airlines.

A Copa Airlines sai de BH, RJ, SP, BA, DF, RS, AM.

A Copa Airlines divide de 6 vezes sem juros no cartão de crédito.

Documentos necessários:

Passaporte-válido até 6 meses depois da viagem.

Documento Internacional da Febre Amarela (é obtido na Anvisa, pela internet).

Visto – Solicitar na Embaixada em Brasília ou nos Consulados via internet.

Dviajeros. Formulário online a ser preenchido próximo à data da viagem.

Seguro Saúde: Pode fazer qualquer seguro, que tenha cobertura em Cuba.

21 de jul. de 2026

Documento resumido do Departamento de Estado de Rubio sobre Cuba

                                                 
     O Departamento de Estado dos EUA lançou um dossier extenso detalhando como Cuba constitui uma ameaça para os EUA atribuindo à ilha todo movimento de esquerda no país desde a revolução até os dias de hoje. É evidente que o documento pretende preparar o terreno para a criminalização da esquerda como parte do novo Macartismo da era Trump. Vejam resumo desse texto. Importante destacar que o texto da Casa Branca identifica o ICAP, o DSA, National Lawyers Guild, Code Pink, Peoples Forum, IFCO Pastors for Peace e outras orgs como parte da rede de influencia cubana que opera nos EUA.

(por: Stephanie Weatherbee ) 


Sobre o relatório do Departamento de Estado de 2026 acerca da “campanha de Cuba contra a América”

Avaliação crítica breve — versão preliminar

O relatório foi produzido pelo Departamento de Estado sob a gestão do secretário Marco Rubio e divulgado em julho de 2026; suas cerca de cem páginas ilustradas são coerentes com as posições que Rubio sustentou sobre Cuba ao longo de toda a sua carreira política. Convém lê-lo como um artefato ideológico, e não como uma avaliação de inteligência, uma vez que seu propósito é fixar uma interpretação política da dissidência interna, em vez de medir as capacidades cubanas nos moldes de uma estimativa de ameaça. Sua tese central, sustentada ao longo de oito seções e de uma conclusão, é a de que, desde 1959, Cuba trava contra os Estados Unidos uma ininterrupta “longa guerra de desgaste” de sessenta e sete anos, conduzida menos pelas armas do que pela ideologia, pela espionagem e por organizações de fachada.

Segundo essa narrativa, uma única campanha se estenderia da Nova Esquerda, do Black Power e do terrorismo das décadas de 1970 e 1980, passando pelos sandinistas e pela Venezuela de Chávez, até o presente, quando animaria o DSA, o movimento pelas vidas negras, a organização contra o ICE e a solidariedade à Palestina nos campi universitários. A operação que torna essa tese possível é o colapso atributivo: movimentos heterogêneos em origem, composição e reivindicação, e distribuídos por seis décadas, são reduzidos a efeitos de uma só causa externa. O esquema é herdado — extraído e citado com aprovação de um estudo de segurança interna do Senado, de 1966, sobre a “conspiração comunista internacional” — e aqui adaptado ao ambiente jurídico das imputações de apoio material e de atuação como agente estrangeiro.

A ligação entre Cuba e esses movimentos se afirma a partir de um critério que não pode ser testado, pois o relatório considera relevante qualquer episódio que possa ser vinculado à influência cubana “de algum modo, forma ou feitio” — fórmula suficientemente vaga para que nenhuma evidência seja capaz de abalar a conclusão. Sua força persuasiva repousa na justaposição do material verificado ao não verificado: condenações documentadas por espionagem — Ana Montes, Walter Myers e Manuel Rocha — figuram ao lado de depoimentos de desertores de fonte única e de afirmações genéricas sobre movimentos de massa, de modo que a credibilidade das condenações se transfere a alegações que não compartilham nenhuma de suas bases probatórias. As fontes, ao longo de todo o texto, são partes no conflito que o relatório descreve, provenientes de comitês do Congresso da Guerra Fria, de relatórios do Departamento de Estado e da CIA, de arquivos do FBI e de relatos de desertores, sem que se recorra a praticamente nenhuma produção acadêmica independente ou cubana, salvo quando esta pode ser citada como confissão.

A interpretação depende daquilo que o relatório omite. O bloqueio estadunidense, mantido há sessenta anos, principal causa material da penúria econômica cubana e alvo de condenação quase unânime da Assembleia Geral da ONU ao longo de três décadas, aparece apenas como algo contra o qual a esquerda faz campanha, nunca como uma política de custos mensuráveis. O histórico da ação encoberta dos Estados Unidos contra Cuba — a invasão da Baía dos Porcos, os repetidos atentados contra Castro e o ataque a bomba ao voo 455 da Cubana, em 1976 — está ausente, o que permite apresentar a acusação de abrigar foragidos como se ela corresse em uma única direção. As origens internas do radicalismo estadunidense são igualmente suprimidas, de sorte que as leis Jim Crow, a Guerra do Vietnã, a violência policial, a crise financeira de 2008 e o assassinato de George Floyd não figuram como causas, e os movimentos que engendraram podem ser explicados como importações. Aplicada em particular à luta de libertação negra, essa é a antiga tese do “agitador externo”, que reatribui a Havana a agência de estadunidenses que agem movidos por reivindicações internas.

Vários dos próprios achados do relatório destoam de suas conclusões. Ele reconhece que Cuba jamais teve capacidade de derrotar os Estados Unidos em um conflito convencional e, em seguida, trata essa fragilidade como prova de perigo, e não como um limite a ele. Ressalta que os agentes mais danosos de Cuba eram ideólogos não remunerados, que não deixaram rastro financeiro — um dado que documenta estadunidenses agindo por convicção própria, ao mesmo tempo que o relatório apresenta essa convicção como uma conquista de Havana. Apoia-se ainda nos comitês de segurança interna do Congresso como autoridades, embora observe, em outra passagem, que a repressão do período macartista reduziu o Partido Comunista de cerca de setenta e cinco mil para menos de cinco mil filiados, citando como confiável um aparato que ele próprio registra como desacreditado.

A intenção do relatório é legível nas medidas repressivas que endossa. Fornece a justificativa para uma postura coercitiva no exterior — as sanções de 2026 ao ICAP e à agência de viagens Amistur, ao amparo da Ordem Executiva 14404, a manutenção de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo e a alegada operação contra Maduro — e para a repressão interna, na qual a organização contra o ICE, o movimento pelas vidas negras e a solidariedade à Palestina são dispostos em um mesmo continuum de inteligência estrangeira, de modo que a atividade política protegida possa ser tratada como questão de segurança nacional. Seu efeito analítico é interditar a explicação estrutural, pois atribuir as políticas anti-imperialistas e de justiça racial a um comando estrangeiro elimina a possibilidade de que a própria ordem interna produza a sua oposição. Lido na contramão de seu propósito, o mesmo documento se revela um registro detalhado de seis décadas de solidariedade internacionalista que resistiu ao bloqueio, e de um Estado que passou a explicar a oposição interna localizando a sua origem no exterior.

17 de jul. de 2026

UMA ESQUERDA QUE NÃO TENHA MEDO DE SER DE ESQUERDA

                           
     O que resta, quando se abre mão do controle de quem detém o orçamento, é o reconhecimento: dar nome àqueles que o país nunca nomeou, celebrar identidades que antes estavam ocultas. E o reconhecimento importa; foi conquistado com muito esforço. A armadilha reside no fato de que o reconhecimento vem sozinho, sem qualquer apoio, como um prêmio de consolação por aquilo que não é compartilhado.

Existe uma versão conveniente dessa história, e é a primeira que deveria ser jogada no lixo. Ela diz que a esquerda se esqueceu dos pobres e da redistribuição de renda porque se deixou levar por discussões sobre pronomes, que trocou a luta de classes por uma linguagem inclusiva e se tornou arrogante e prepotente. É falsa, ou é apenas meia verdade — a metade que não nos obriga a olhar para o que é importante.

A esquerda não parou de falar sobre redistribuição por considerá-la fútil. Algo pior aconteceu: ela deixou de acreditar que o mundo poderia ser mudado e começou a administrá-lo. Trocou a promessa de emancipação pela promessa de que seu dinheiro durará até o fim do mês, o que não tem nada a ver com a promessa de emancipação.

A mudança global tem uma data. Quando o Muro de Berlim caiu em 1989 e o modelo ficou sem adversários, a redistribuição começou a soar como algo do passado, uma utopia empoeirada. "Não havia alternativa",  repetia Thatcher , e metade da social-democracia europeia acreditou nela e aderiu.  Piketty  mensurou isso com números: mais de trezentas eleições em vinte e um países entre 1948 e 2020, e sempre a mesma coisa. Nos anos 50, quem tinha menos instrução e menos dinheiro votava na esquerda. Hoje, quem tem pós-graduação vota nela. Deixou de ser o partido da maioria que vive do trabalho e se tornou o partido de uma minoria com diplomas.

No  Chile,  a situação era ainda mais flagrante. Os socialistas retornaram do exílio europeu com malas cheias de "democracia de mercado", tendo  deixado Marx  para trás em algum cômodo em  Berlim . Governaram, como  disse Aylwin , "na medida do possível", e o que era possível acabou sendo muito pouco: permaneceram por vinte anos com a Constituição de 1980 e os  fundos de pensão ( AFPs)  que  Pinochet  havia criado em 1981. Seguiram-se quatro  governos da Concertación  , e a velhice continuou sendo administrada por entidades privadas, exatamente como a ditadura a havia deixado. Reduziram a pobreza, sim. Mas a desigualdade foi obra de Pinochet, e foi mantida intacta por quem veio depois, alegando ser de esquerda: o 1% mais rico detém um quarto de toda a riqueza, enquanto a metade mais pobre acumula 2%.

E depois há aqueles que prometeram enterrar tudo isso. A  Frente Ampla  chegou ao  Palácio de La Moneda  jurando mudar tudo, mas sua retórica se dissipou antes de seis meses. Apresentaram um projeto de reforma tributária visando os mais ricos, que foi rejeitado pela  Câmara  em 2023, e em vez de lutar contra essa derrota e promover mudanças radicais, desistiram e começaram a administrar o status quo. Até mesmo a reforma da previdência, a única de grande porte, acabou sendo um acordo com a direita, deixando os fundos de pensão privados (AFPs) intocados. E o resultado mais custoso não é medido pelas pesquisas: as pessoas deixaram de acreditar que a esquerda possa mudar alguma coisa.

O que resta, quando se abre mão do controle sobre quem detém as rédeas do dinheiro, é o reconhecimento: dar nome àqueles que o país nunca nomeou, celebrar identidades que antes estavam ocultas. E o reconhecimento importa; foi uma conquista árdua. A armadilha surge quando ele chega sozinho, sem qualquer apoio, um prêmio de consolação para o que não é compartilhado.  Nancy Fraser  identificou isso há trinta anos e, junto com isso, apontou outra armadilha: você pode distribuir remendando o resultado sem mexer na máquina que o produz — um bônus, um ponto percentual extra do  Fundo Universal de Pensões (PUP)  para estender a aposentadoria. A verdadeira redistribuição significa mudar a máquina, quem decide o que é produzido e para quem. A esquerda se contentou com a opção mais barata, uma identidade celebrada sem tocar em um único centavo do dono de tudo. Dar à mulher o suficiente para sobreviver não é o mesmo que mudar o sistema que a deixou pobre e, ao longo do caminho, essa diferença se perdeu, o próprio fundamento da transformação.

Muitos dos líderes dessa ala esquerda frequentaram as mesmas escolas que a elite chilena e vivem nos mesmos bairros. Deixaram de questionar quem é o dono do país porque pararam de se sentar em mesas onde essa pergunta incomoda as pessoas. Vai além da mera conveniência: eles não conseguem mais imaginar outra coisa. É difícil sonhar em acabar com um sistema no qual você se dá bem; isso é realismo capitalista. O partido dos diplomas não morde a mão que o alimenta.

A raiva de quem não consegue pagar as contas agora está sem lar, porque a esquerda parou de falar sobre a situação financeira dessas pessoas, e essa raiva sem lar se instala com a primeira pessoa que abre a porta.

Todos nós pagamos o preço dessa resignação. A raiva daqueles que não conseguem pagar as contas os deixou sem-teto, porque a esquerda parou de conversar com eles sobre suas finanças, e essa raiva de quem não tem um lar se instala com a primeira pessoa que abre a porta. Foi a direita que abriu essa porta, uma direita que não separa a necessidade de comer da crença em algo: ela vende ordem, que nada mais é do que medo bem administrado, e, ao mesmo tempo, jura que ninguém vai mexer no seu salário para sustentar o vizinho.

Não há como escapar dessa situação escolhendo entre melhor distribuição e reconhecimento. Essa briga começou com quem não queria pagar por nenhuma das duas. Uma gaiola mais confortável ainda é uma gaiola, e a questão crucial é a mais incômoda de todas: de quem é? De quem é o lítio que é exportado enquanto debatemos o salário mínimo aqui? De quem é o terreno, cujo aluguel hoje custa o mesmo que seus pais pagavam por uma casa?

Tirar essas coisas das mãos de poucos e decidir coletivamente tem um nome antigo que a esquerda aprendeu a silenciar por medo: socialismo. Nada dessa bobagem antiquada de manualismo: socialismo no sentido de coisas tão pouco heroicas quanto estudar sem ter que carregar um  empréstimo estudantil  por vinte anos, ter um salário suficiente para criar um filho, aposentar-se sem depender do mercado de ações. Nessa mesma linha, o trabalho de cuidado expõe tudo: pagar por ele é compartilhar; chamá-lo de trabalho em vez de amor é reconhecimento. Porque, na realidade, as duas coisas sempre foram a mesma coisa.

Mamdani  conquistou  Nova York  com medidas concretas, como congelamento de aluguéis e jardins gratuitos, e seis meses depois a cidade acredita nele. Defender instituições nunca encheu as urnas. A esquerda é enviada para proteger a democracia justamente quando ela está ameaçada, mas ninguém sai para defender a gaiola que os aprisionou. A única maneira de quererem defendê-la é se ela finalmente servir a algum propósito.

Nada disso se conquista sem força, e a força não se constrói simplesmente dizendo às pessoas que você as vê. Uma ferida não preenche uma praça. Ela é preenchida por pessoas que voltam a acreditar que as coisas podem mudar, e que a fé é a única coisa que a direita, por mais ordem que prometa, não consegue fingir.

A esquerda nunca teve que escolher entre o pão e o seu nome, nem entre a sobrevivência e a liberdade. Ser convencida a escolher, e sempre escolher a opção menos favorável, foi a sua derrota. O grave é que aprendeu a chamar isso de realismo.


Por Verónica Aravena. El Ciudadano_Resumen Latinoamericano 13 de julho de 2026.                                                                                                                                                                                                       Em espanhol: https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/07/13/pensamiento-critico-una-izquierda-que-no-tenga-miedo-ser-de-izquierda/

@comitecarioca21

16 de jul. de 2026

Denúncia de reunião convocada por Rubio contra forças progressistas.

                                               

        O governo cubano rechaçou a reunião convocada pelo secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, para discutir o "terrorismo de extrema esquerda". Havana afirma que o encontro visa justificar ações contra organizações progressistas e restaurar mecanismos de perseguição política.

O governo cubano denunciou na segunda-feira que a reunião ministerial convocada pelo secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, para tratar do "terrorismo transnacional de extrema esquerda" será baseada em argumentos falsos com o objetivo de justificar ações contra forças progressistas, organizações de esquerda e movimentos sociais.

Por meio da rede social X, o Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, afirmou que o encontro "buscará restabelecer a perseguição e a repressão política contra aqueles que denunciam, discordam e lutam contra as medidas neoliberais, imperialistas, fascistas e de extrema-direita promovidas pelo governo dos EUA".

O ministro das Relações Exteriores cubano acrescentou que "os meios para alcançar isso não importam, nem as vítimas, nem os dois pesos e duas medidas. Tudo o que é preciso é uma nova mentira, vinda de alguém com histórico de criá-las, e uma boa máquina de propaganda que eles já controlam."

Anteriormente, Rodríguez descreveu a reunião como um "encontro ministerial macartista" e afirmou que tentaria comprovar a existência de supostas ameaças orquestradas por forças progressistas, organizações de esquerda, movimentos sociais e aqueles que lutam contra "opressão, exploração, racismo, guerra, intervenção e brutalidade imperialista".

Ele também considerou a iniciativa como "um passo para restaurar a intimidação e legitimar políticas como a nefasta Operação Condor ", referindo-se ao mecanismo de coordenação repressiva implementado por diversas ditaduras latino-americanas desde 1975 com o apoio dos Estados Unidos.

Na semana anterior, o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, também criticou a ligação e a descreveu como uma " cortina de fumaça " diante do cenário político interno que os republicanos enfrentam antes das eleições legislativas marcadas para novembro nos Estados Unidos.

Segundo uma reportagem do jornal estadunidense The Washington Post, Marco Rubio convocou uma reunião para 15 de julho com representantes de mais de 60 países para analisar o que o governo do presidente Donald Trump chama de "ressurgimento do terrorismo transnacional de extrema esquerda".

https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/07/15/cuba-denuncian-reunion-convocada-por-rubio-contra-fuerzas-progresistas/
                                

15 de jul. de 2026

A amnésia do carrasco: quem são os que operam a guilhotina?

                                       
Autor:  Raúl Antonio Capote

Alguns dizem que a memória é curta, que o cinismo é uma qualidade diplomática, independentemente de ser aplicado no pódio da ONU, no gabinete do Secretário de Estado ou na própria Casa Branca.

Neste caso específico, eles foram ao extremo em ambos os casos. Na segunda-feira, 13 de julho, o governo de Donald Trump anunciou um novo pacote de “sanções” contra dez entidades cubanas, incluindo o Ministério do Turismo, o Grupo Empresarial de Comércio Exterior (Gecomex), o Grupo Empresarial de Transporte Portuário Marítimo (Gemar), as empresas de energia Enetec e Coreydan e também — é claro — as Milícias das Tropas Territoriais e a Associação de Combatentes da Revolução Cubana.

Seguindo o procedimento padrão, o Departamento de Estado, em sua declaração, os descreve como "instrumentos de repressão" e afirma que tudo faz parte de uma "iniciativa abrangente" para "acabar com as atividades malignas do regime cubano" e "mudar seu comportamento".



Mas apenas alguns dias antes, no palco da Assembleia Geral da ONU, o embaixador dos EUA, Mike Waltz, havia declarado solenemente: "Não há embargo dos EUA". E acrescentou, para não deixar dúvidas sobre seu gênio retórico: "O único embargo em Cuba é a guilhotina que o regime mantém sobre a cabeça de seu povo".

Mas, senhor embaixador, se não há bloqueio, o que são essas "sanções" que o seu próprio governo anunciou recentemente? Um ato de amor fraternal? Um gesto de solidariedade internacional?

Porque, sejamos honestos, não é muito sério dizer em um palanque que não há embargo econômico e, no dia seguinte, o Departamento do Tesouro publicar uma nova lista de entidades "sancionadas".

Mas vamos por partes, porque esta é uma questão complexa. A mesma administração que agora está "sancionando" as milícias populares e as empresas de combustíveis é a mesma que, desde janeiro, impôs um bloqueio de petróleo que deixou mais de nove milhões de cubanos no escuro — não apenas uma vez, mas todos os dias.

É a mesma crise que afastou empresas estrangeiras, ameaçou países fornecedores e multiplicou a crise energética a extremos nunca antes vistos nem mesmo nos piores momentos do Período Especial.

Bruno Rodríguez Parrilla, membro do Bureau Político do Partido e Ministro das Relações Exteriores de Cuba, afirmou isso na ONU com a clareza que a razão e a dignidade proporcionam: entre março de 2025 e fevereiro de 2026, os danos causados ​​pelo bloqueio somaram mais de 8 bilhões de dólares, um recorde histórico.

                           

Então, surge a pergunta: se eles realmente se importam com os cubanos, por que lhes negam combustível, comida e remédios? Não, a guilhotina não é erguida pelo governo cubano sobre seus cidadãos; ela é fabricada em Washington, peça por peça, sanção por sanção, decreto por decreto, e imposta a um povo cujo único pecado foi recusar-se a abrir mão de sua liberdade.

Não, não se trata de um bloqueio imaginário, mas sim de um crime contra a humanidade, e a comunidade internacional sabe disso: 136 votos na ONU – contra apenas nove – a favor do pedido de Cuba para abrir o debate sobre o bloqueio, mas, é claro, para Washington, as maiorias não contam quando não são a seu favor.

Eles fazem isso sabendo que o mundo o rejeita, que é ilegal segundo o direito internacional e que viola os princípios mais básicos da Carta da ONU.

Assim, quando o mundo aponta a inconsistência, eles repetem o mesmo discurso de sempre: "Cuba é uma ameaça, existem bases de espionagem chinesas e russas", algo negado até mesmo pelo Pentágono.

 

https://cubaenresumen.org/2026/07/15/la-amnesia-del-verdugo-quienes-son-los-que-manejan-la-guillotina/


10 de jul. de 2026

GRACIELA RAMIREZ: "NÃO SE PODE ANALISAR A ECONOMIA CUBANA SEM FALAR DO BLOQUEIO."

                                                                                                     

      A jornalista argentina radicada em Cuba analisa as novas reformas econômicas aprovadas por Havana, o impacto diário das sanções americanas e o custo humano de uma política que condiciona o cotidiano de milhões de pessoas.

Cuba enfrenta uma nova fase econômica em um dos momentos mais complexos das últimas décadas. A Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um pacote de reformas econômicas e sociais com 176 propostas agrupadas em 23 áreas de ação, visando intervir em setores-chave como agricultura, energia, transporte, comércio exterior e turismo.

Mas qualquer análise da economia cubana, alerta Graciela Ramírez, permanece incompleta sem considerar o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos. Essa é uma política que Washington mantém há mais de seis décadas e que a Assembleia Geral das Nações Unidas tem reiteradamente solicitado o seu levantamento.

Quem é Graciela Ramírez?

Graciela Ramírez é uma jornalista argentina radicada em Cuba, especializada em Direito e Gestão Empresarial. Diretora do escritório da Resumen Latinoamericano em Havana e chefe da seção de Imprensa Cubana da Resumen Latinoamericano, ela analisa nesta entrevista as novas reformas econômicas implementadas pelo governo cubano, o impacto do bloqueio dos EUA e suas consequências diretas no cotidiano da população.

O bloqueio dói profundamente no dia a dia, na vida diária das famílias, nas coisas mais básicas: quando se tem filhos, pais idosos ou um ente querido doente.

Nesta conversa com  o Contraplano , Graciela Ramírez situa as reformas num cenário de forte pressão externa, argumenta que o bloqueio permeia toda a economia cubana e dá exemplos concretos do seu impacto na alimentação, saúde, transporte, energia e acesso a produtos básicos.

Cuba acaba de aprovar novas reformas econômicas em meio a enorme pressão externa. Até que ponto qualquer mudança interna na ilha pode ser analisada sem levar em conta o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos?

Esta é uma importante proposta de medidas econômicas, muitas das quais já haviam sido discutidas nas Diretrizes Econômicas de alguns anos atrás e que, por diversos motivos, não puderam ser implementadas na época. Mas não se pode analisar a economia cubana sem mencionar o bloqueio. Para mim, ele é o principal obstáculo ao desenvolvimento do país. Permeia absolutamente tudo.

Cuba tem sido submetida a essa política por mais de seis décadas. Nenhum outro país vivenciou uma situação semelhante por tanto tempo, especialmente diante da nação mais poderosa do mundo e de seu vizinho mais próximo, a apenas 145 quilômetros de distância. Desde o triunfo revolucionário de 1959, Washington implementou medidas para minar a economia cubana.

O memorando de Lester Mallory, de abril de 1960, deixou claro o objetivo dessa política: provocar dificuldades econômicas, privações materiais, fome e desespero para quebrar o apoio interno à Revolução. Esse espírito permanece, agora exacerbado por leis extraterritoriais como as Leis Torricelli e Helms-Burton, que estendem as sanções para além das fronteiras dos Estados Unidos.

De fora, a crise cubana é frequentemente discutida sem mencionar o bloqueio. Vivendo lá, como essa política de sufocamento é sentida no dia a dia: em relação à alimentação, medicamentos, transporte, energia ou acesso a bens básicos?

O confinamento é profundamente doloroso no dia a dia, na vida diária das famílias. É perceptível nas coisas mais básicas: quando se tem filhos, quando os pais precisam de cuidados ou quando um ente querido está doente.

Você percebe isso quando uma geladeira quebra e você não consegue encontrar uma peça de reposição. Quando uma pessoa diabética não tem seus kits de insulina. Quando uma família precisa de uma cadeira de rodas para um parente idoso e não consegue comprar ou alugar uma porque não estão disponíveis. Já vi pessoas entrarem em um hospital levando uma senhora idosa em uma cadeira, vinda de casa.

Isso também fica evidente em situações tão complexas quanto as fraldas geriátricas, que muitas vezes acabam sendo feitas de forma rudimentar com tecidos velhos ou materiais improvisados. Cuba já produziu a maior parte dos medicamentos necessários à sua população, mas hoje não consegue garanti-los em muitos casos.

A falta de suprimentos afeta cirurgias, tratamentos de hemodiálise, quimioterapia, vacinação infantil, cuidados básicos com feridas e até mesmo materiais para suturas. Isso causa imenso sofrimento tanto para as famílias quanto para os profissionais de saúde, que sabem qual tratamento administrar, mas nem sempre dispõem dos recursos necessários.

O transporte público é extremamente precário. As pessoas percorrem longas distâncias de bicicleta, ciclomotor, triciclo ou a pé. E os apagões, também causados ​​pelo bloqueio de energia, podem durar mais de 24 horas. Se a energia volta às três da manhã, muitas pessoas se levantam para buscar água, cozinhar ou lavar roupa. É muito difícil.                                

 “Se a eletricidade voltar às três da manhã, as pessoas se levantam para buscar água, cozinhar ou lavar roupa.”

                                    


Os Estados Unidos apresentam o bloqueio como uma ferramenta política contra o governo cubano, mas suas consequências recaem sobre a população cubana. Por que você acha que uma medida que as organizações internacionais e a maioria dos Estados-membros da ONU rejeitam ano após ano continua sendo mantida?

Os Estados Unidos persistem em uma política de infligir danos massivos à população cubana, numa tentativa de quebrar o povo através da fome, da exaustão e das doenças. O objetivo é provocar uma revolta interna que ponha fim à Revolução.

Muito se fala em direitos humanos, mas o direito internacional e os repetidos apelos da grande maioria dos países nas Nações Unidas para o fim do bloqueio econômico, financeiro e comercial são ignorados. Cuba é um país pequeno com poucos recursos, mas representa um exemplo de soberania política. Manteve seus sistemas de saúde, educação e cultura mesmo sob o bloqueio.

As novas reformas do governo cubano visam abrir oportunidades econômicas, protegendo simultaneamente a soberania do país. Que espaço real para reformas Cuba tem quando grande parte de suas relações comerciais, financeiras e bancárias são limitadas pelas sanções dos EUA?

Todas as medidas adotadas visam desenvolver as forças produtivas, eliminar os entraves burocráticos e abrir possibilidades de investimento e desenvolvimento, mantendo a soberania e as conquistas da Revolução.

Essas medidas estão sendo implementadas em um contexto muito adverso, mas isso não impedirá seu avanço. À medida que forem implementadas, seu verdadeiro alcance e impacto concreto ficarão claros. No entanto, é preciso compreender que Cuba está reformando sua economia com uma parcela significativa de suas relações comerciais, financeiras e bancárias condicionadas pelas sanções dos EUA.

Muitos meios de comunicação internacionais focam-se nas dificuldades econômicas de Cuba, mas falam muito pouco sobre o custo humano do bloqueio. Acha que existe uma forma injusta ou incompleta de noticiar o que se passa na ilha?

Sim. A perspectiva da grande mídia é profundamente tendenciosa. Nesta era de crise imperialista e ascensão de novas formas de ideologia de direita e fascismo, é conveniente retratar o socialismo como um suposto fracasso econômico e ocultar as causas subjacentes que impedem o desenvolvimento da economia cubana.

A vítima é culpada pelo crime cometido pelo agressor. Mas surge uma pergunta muito simples: se o sistema cubano é tão ruim, por que não suspendem o bloqueio? Cuba entrou para a história por ter resistido a seis décadas e meia de estrangulamento econômico e ainda estar de pé.

Cuba resistiu a décadas de severa pressão econômica sem abrir mão de sua soberania política. Como essa resistência é percebida hoje pela população, especialmente pelas gerações mais jovens?

Uma parcela significativa dos jovens migrou durante esses anos de bloqueio intensificado. O custo social é muito alto para as famílias, para os jovens que partem e para a própria Revolução, que os formou como profissionais.

Mas existe também outro setor que estuda, trabalha e cria. Uma juventude que faz parte de uma vanguarda política e outra que se esforça para progredir por meio de seus próprios empreendimentos. Os jovens têm sido fortemente bombardeados nas redes sociais para romperem seus laços históricos com a Revolução, mas permanecem jovens inspirados por Martí que, mesmo sob uma forte campanha anticubana, não querem voltar a ser uma colônia dos Estados Unidos.

Se você tivesse que explicar para alguém que nunca esteve em Cuba o que o bloqueio realmente significa, além de uma palavra repetida em discursos políticos, que exemplo concreto do cotidiano você usaria?

Eu explicaria com uma imagem: o bloqueio histórico e energético é como um estranho que arromba a porta da sua casa, coloca toda a sua família contra a parede — do recém-nascido ao avô — e aperta o pescoço de cada um até sufocá-los, enquanto exige que entreguem a casa.

O mais fraco pode morrer, outro pode tentar escapar, mas toda a família resiste, protege a criança, não se ajoelha, não perde a dignidade e não perde a esperança de que a vizinhança, que sempre ajudou compartilhando não o que sobrava, mas o que tinha, levante a voz e venha em seu auxílio.

Quando dizemos que o bloqueio é um genocídio, não estamos usando um rótulo de esquerda. É uma verdade dolorosa.

HISTÓRIA  HUMANA

O caso de Natali

Graciela Ramírez também relembra uma história específica que resume o impacto humano do bloqueio. Natali, uma menina de Camagüey, começou a mancar aos dois anos de idade. Após vários exames, foi diagnosticada com um tumor maligno muito agressivo. Ela foi transferida para Havana em plena pandemia e, após diversos tratamentos, teve que amputar a perna.

A prótese disponível era rígida, pesada e causava lesões na pele. Não havia cadeiras de rodas ou muletas adequadas para crianças. Ramírez conta que tentaram comprar uma cadeira de rodas na Amazon, mas, ao inserir o endereço de entrega, apareceu a mensagem: “Desculpe, as normas de embargo impedem o envio para esse destino”.

Por fim, tiveram que pedir ajuda a um diplomata latino-americano para comprá-la em outro país e trazê-la para Havana. As muletas chegaram por meio de amigos solidários no Brasil. Natali se recuperou inicialmente, mas depois sofreu uma recaída com metástase. Ela faleceu em 1º de janeiro de 2025, aos sete anos de idade.

“Ela era uma linda garota que jamais esqueceremos. Assim como jamais esqueceremos ou perdoaremos o mal que o bloqueio dos Estados Unidos está causando a esse povo”, conclui Ramírez.                                                                                                                                                                    https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/07/04/cuba-graciela-ramirez-no-se-puede-analizar-la-economia-cubana-sin-hablar-del-bloqueo/