16 de jun. de 2026

COMO VAMOS VENCER ISSO.

                                           
Por Eduardo Miguel Álvarez Estévez |

 13 de junho de 2026

A pergunta direta: como vamos vencer isso?

Não tenho uma resposta mágica nem salvadora. Ninguém tem. Mas tenho certeza de que vencer não significa que o bloqueio vai desaparecer amanhã. Significa que não desmoronamos. Significa que eles não conseguem o que querem. Significa que resistimos o suficiente para que o custo de nos subjugar se torne insuportável para eles.

Como fazer isso? Aqui vão cinco pontos-chave, sem blá-blá-blá.

Primeiro: manter a coesão interna

O plano deles é nos quebrar por dentro. Que a escassez nos coloque uns contra os outros. Que o apagão nos deixe desesperados. Que a fila nos divida. Que o vizinho culpe o vizinho e não quem arquitetou essa asfixia.

Cada vez que um cubano ajuda outro, cada vez que um bairro se organiza, cada vez que alguém diz “vamos resolver isso aqui” em vez de “cada um por si”, estamos vencendo. A solidariedade não é poesia. É estratégia. Uma população coesa é um inimigo invencível. E nós ainda somos.

Dois: identificar o método

A guerra psicológica funciona quando não sabemos que é guerra psicológica.  O vídeo viral, o boato, a notícia falsa, a mensagem do WhatsApp que chega sem você saber quem a enviou... tudo isso perde força quando o desmascaramos.

É por isso que este blog é importante. É por isso que cada cubano que explica, que contextualiza, que diz “isso não é coincidência, isso faz parte de um plano” é importante. Identificar o método é neutralizá-lo. O que se entende já não assusta da mesma forma.

Três: explorar suas contradições

Eles não são um bloco monolítico. Têm pontos fracos. As eleições de novembro. O custo do destacamento militar, que já ultrapassa 2.100 milhões de dólares. A opinião pública interna que não quer outra guerra. A resistência do México, do Brasil e da Colômbia em serem cúmplices.

Cada dia que passa sem que haja uma explosão, cada dia em que o Nimitz gasta milhões sem resultados, cada dia em que um legislador democrata pergunta “para que estamos fazendo isso?”, a posição deles se enfraquece. Nossa resistência não é passiva: é uma força que desgasta o adversário.

Quatro: não nos isolarmos

A solidariedade internacional existe. Não é suficiente, mas é real. Vimos isso em Londres, com 117 parlamentares assinando uma moção contra as sanções. Vimos isso no Parlatino, alertando sobre a ameaça militar. Vimos isso na ONU, com um embaixador cubano que chamou o embaixador dos Estados Unidos de mentiroso na cara dele.

É preciso alimentar essas vozes. Cada gesto de apoio, cada declaração, cada parlamentar que assina uma moção contra o bloqueio é uma brecha no cerco diplomático que Washington quer impor. Não estamos sozinhos, embora às vezes pareça que sim. E cada voz que se soma torna mais difícil que nos esmaguem em silêncio.

Cinco: resistir com inteligência, não apenas com perseverança

Resistir não é apenas suportar. É se adaptar. É buscar alternativas financeiras. É explorar os mecanismos dos BRICS. É negociar sem se ajoelhar. É saber quando ceder um metro para ganhar um quilômetro.

A firmeza sem inteligência é teimosia. A inteligência sem firmeza é rendição. Precisamos das duas. E nós as temos.

O que eu defendo

Vencemos se não nos rendermos. Vencemos se continuarmos sendo um problema tão caro que eles prefiram buscar outra saída. Vencemos se o mundo continuar observando e eles não puderem fazer o que querem sem pagar um preço político global.

Não será amanhã. Não será fácil. Mas já resistimos por mais de sessenta anos. E este governo tem meses, não décadas. O tempo não está do lado deles.

Resistir, nos manter unidos, nos posicionar, tecer alianças, resistir com sensatez. Esse é o caminho.

Pátria ou Morte. Venceremos.

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  @comitecarioca21                       

ESTE É O MELHOR TEXTO QUE LI NOS ÚLTIMOS MESES

                                              

                  Cuba, na encruzilhada de um multilateralismo hipócrita.

Josué Veloz Serrade

18 de março de 2026

O cerco perfeito: quando a asfixia é a política

A atual crise energética que Cuba atravessa não é um acidente da natureza nem uma mera falha de infraestrutura. É o ponto culminante de um cerco geopolítico planejado com precisão cirúrgica ao longo de seis décadas. O que a Ilha vive hoje é a convergência letal da guerra econômica tradicional — o bloqueio — e um novo contexto internacional em que os atores que deveriam equilibrar a balança optaram pelo que poderíamos chamar de uma geopolítica do mínimo.

Cuba não enfrenta apenas a hostilidade do império, mas o abandono silencioso daqueles que, em teoria, deveriam contestar a ordem unipolar.

Mas antes de analisar as coordenadas geopolíticas, é necessário questionar o mapa psíquico que subjaz a essa situação. Pois o que ocorre com Cuba não é apenas um problema de correlação de forças; é também um problema de desejo, de fantasma político, daquilo que Freud chamou de Verneinung, a negação como forma de reconhecimento encoberto. Aqueles que abandonam Cuba a negam, mas, ao negá-la, a confirmam e, acima de tudo, confirmam o que negam de si mesmos.

 O bloqueio existe porque Cuba ainda interpela, continua sendo um sintoma incômodo dentro do sistema capitalista global. Se Cuba não representasse nenhuma ameaça real, bastaria ignorá-la. O fato de que seja preciso destruí-la demonstra que sua mera existência continua sendo intolerável para a ordem do Amo.

A pergunta que paira sobre este texto pode irritar mais de um, mas é necessária: o que resta da solidariedade internacional quando os gestos simbólicos substituem as ações concretas? O que significa realmente apoiar Cuba quando o cerco se estreita e a asfixia se torna tangível?

 E, acima de tudo: o que diz sobre o conjunto de forças geopolíticas que declaram querer outro mundo o fato de serem capazes de assistir a esse afogamento sem mover um dedo?

 

O abandono não declarado dos parceiros estratégicos

Nestes dias de tensões mundiais, ressurge também a teoria das relações internacionais, na qual se aborda o realismo periférico que descreve a tendência dos Estados de priorizar seus interesses imediatos — comércio, estabilidade de fronteiras, não incomodar o hegemônico — em detrimento de alianças ideológicas ou históricas quando a pressão do império aumenta. Mas o realismo periférico não basta para explicar totalmente o comportamento atual da Rússia e da China em relação a Cuba. Aqui opera algo mais profundo. Opera a renúncia ao próprio desejo como condição para sobreviver no sistema que, supostamente, desejam transformar.

Lacan distingue entre a demanda e o desejo. A demanda é o que se pede explicitamente; o desejo é o que está subjacente e que muitas vezes não pode ser articulado sem custo. A Rússia e a China exigem, em seus discursos, um mundo multipolar, o fim da unipolaridade, o respeito à soberania. Mas seu desejo, revelado por seus atos e não por suas palavras, é a integração progressiva nas regras do mesmo sistema que dizem contestar.

Por mais amargo que seja ouvir isso, ao abandonarem Cuba, elas não estão simplesmente sendo pragmáticas, estão confessando que seu horizonte real não é a transformação da ordem mundial, mas a negociação de um lugar mais confortável dentro dela.

Presas em seus próprios conflitos de desgaste — a Ucrânia para a Rússia, Taiwan e o Mar da China Meridional para Pequim —, ambas as potências consolidaram uma postura defensiva. Seu apoio a Cuba se reduziu ao discurso em fóruns multilaterais e ao fornecimento de determinados recursos, sem desafiar estruturalmente o bloqueio. Não enviam o petróleo necessário, não habilitam linhas de crédito que contornem as sanções secundárias, não escoltam com seus navios os suprimentos para a ilha. Se lhes perguntassem por quê, a resposta talvez fosse a mesma do grande conformista: o momento não é oportuno, os custos são altos demais, é preciso ser realista.

Mas o realismo, neste contexto, é outra forma de avançar rumo a uma capitulação antecipada. Talvez, no fundo, acreditem que estão abandonando aqueles que podem cair primeiro, não aqueles que cairão por último, que poderiam ser eles próprios. Encontraram seu limite histórico e, em vez de empurrá-lo e quebrá-lo, o normalizaram. Ao fazer isso, cometem um erro de cálculo estratégico que a história já puniu antes. Sempre que uma potência permite que a ordem hegemônica destrua um elo sem custo, essa ordem sai fortalecida e se aproxima mais um passo da subjugação daqueles que acreditavam estar a salvo. Ao permitir que um projeto soberano seja destruído pelo império sem consequências, eles enviam uma mensagem às suas próprias populações e a outros atores secundários: a solidariedade é um luxo que não podemos nos permitir; quando chegar a sua vez, você estará sozinho.

 

América Latina e Caribe: a diplomacia dos abraços vazios

A postura do Brasil e da Colômbia é, talvez, a mais paradigmática da falência contemporânea do progressismo. Lula da Silva e Gustavo Petro, dois líderes que devem seu capital político à narrativa da transformação social e da soberania regional, optaram pelo que poderíamos chamar de uma espécie de simbolismo de baixo custo com declarações de apoio moral, apelos ao diálogo e presença discursiva em fóruns internacionais. Mas enquanto as palavras circulam, as condições estruturais de asfixia — o bloqueio, as listas de países patrocinadores do terrorismo, as sanções financeiras — permanecem intactas.

Tudo transcorre como se houvesse uma espécie de identificação com o agressor, como um mecanismo pelo qual o sujeito submetido a uma força superior assimila, inconscientemente, os valores e as lógicas desse poder para sobreviver. Não se trata de uma traição consciente, mas de uma adaptação que, com o tempo, torna-se constitutiva da própria identidade. Algo disso ocorre com certos governos progressistas latino-americanos: eles incorporaram tanto a lógica do campo de jogo imperial — suas instituições, seus mercados, suas regras — que já não conseguem imaginar uma ação política que rompa com esse campo, embora no discurso a proclamem necessária.

 Brasil e Colômbia esquecem que, se fossem hoje uma verdadeira retaguarda estratégica, não seria um favor que fariam a Cuba, seria uma necessidade própria.  Se os Estados Unidos continuarem inclinando a balança a seu favor na região — como fazem com sua política de sanções, seu domínio do FMI, seu controle da OEA e sua influência sobre as direitas locais —, com quem contarão Lula e Petro quando a maré reacionária os atingir? Terão queimado, com sua prudência, a retaguarda de que precisarão desesperadamente.  Nos últimos dias, Lula afirmou que poderiam ser invadidos “a qualquer momento”; poderíamos responder-lhe: “E quanto mais sozinho você ficar, maiores são as chances reais de que isso aconteça”.

O caso da Venezuela é o mais doloroso porque representa a mutilação de um projeto que já foi o pilar da solidariedade regional. Hoje, a Venezuela está de fato submetida às decisões geopolíticas dos Estados Unidos.

O regime de sanções extremas, o sequestro de Maduro e Cilia Flores, alcançaram seu objetivo: condicionar o Estado venezuelano, obrigá-lo a negociar em condições de inferioridade e reduzir sua capacidade de projeção internacional. A Venezuela já não pode ajudar Cuba porque mal consegue ajudar a si mesma. Se o império conseguiu com a Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, que esperança tem um país menor sem esse recurso? Mas os governos da região não tiram a conclusão correta. Em vez de se unirem para romper o cerco, eles se dispersam, negociam separadamente e caem um após o outro.

Alguns dos pequenos países que receberam solidariedade cubana — médicos em suas aldeias, professores em suas escolas, brigadas em meio às suas catástrofes — hoje torcem o nariz e viram as costas.  Nas relações internacionais, é o que se denomina bandwagoning: a tendência dos atores fracos de se alinharem com o mais forte quando percebem que o benfeitor histórico está em retirada. É uma lógica cruel, mas previsível.

O que eles não entendem é que sua sobrevivência a longo prazo não depende de agradar ao Mestre, mas da existência de um ecossistema regional soberano. Ao darem as costas a Cuba, estão contribuindo para desmantelar o único tecido de solidariedade que poderia protegê-los quando forem os próximos da lista. É a lógica do “eu me salvo” que conduz inevitavelmente ao “todos afundamos”. Todo aquele que opta por salvar a si mesmo acaba isolado e depois subjugado.  No fim, a morte os espera de qualquer maneira, mas uma morte solitária, sem a dignidade de ter lutado ao lado dos outros.

 

O mito da autossuficiência é uma armadilha discursiva

 

Diante desse panorama, a objeção liberal, e às vezes até mesmo a de certa esquerda, soa previsível: por que recorrer aos outros?  Acaso Cuba não deveria valer-se por si mesma? Essa pergunta merece ser rigorosamente refutada, pois funciona como uma armadilha retórica que naturaliza a violência do bloqueio e culpabiliza a vítima.

A autarquia é um mito no sistema mundial contemporâneo. Nenhum país é uma ilha, nem mesmo as ilhas. Os Estados Unidos não se valem por si mesmos, dependem de uma rede global de bases militares, do dólar como moeda de reserva imposta ao mundo por meio dos acordos de Bretton Woods e da pressão de seus porta-aviões, e de cadeias de abastecimento que exploram sistematicamente. A China não se vale por si mesma, depende de matérias-primas africanas e latino-americanas e de mercados globais para sua superprodução industrial. A Rússia não se sustenta sozinha; seu poderio energético é nulo sem os gasodutos e sem compradores dispostos a pagar por sua tecnologia militar.

A dependência não é a exceção no sistema internacional, é uma regra estrutural. O que varia é o tipo de dependência e a margem de autonomia que se pode construir dentro dela. Um país como Luxemburgo desfruta de altos padrões de vida porque está inserido no coração do bloco imperial. Um país como Cuba tem que sobreviver apesar de estar bloqueado pelo imperialismo. A pergunta correta, então, não é por que Cuba não é autossuficiente, mas por que se exige de Cuba um nível de autossuficiência que não se exige de mais ninguém. Essa exigência assimétrica não é inocente; é uma armadilha discursiva e covarde que coloca a ilha em uma posição ontologicamente impossível, para depois apresentar sua impossibilidade como evidência de seu fracasso.

Impõe-se a Cuba uma espécie de duplo vínculo: submete-se ao sujeito uma condição que ele não pode cumprir e o culpa pelo incumprimento. O neurótico produzido pelo duplo vínculo não pode escapar porque a armadilha está inscrita na própria linguagem com que se fala a ele. Cuba está presa nessa linguagem: se resiste, é uma ditadura que faz seu povo sofrer; se negocia, está cedendo à chantagem imperial; se pede ajuda, é um Estado falido que não consegue se sustentar sozinho. Não há saída dentro do discurso do Amo, porque o discurso do Amo não foi concebido para ter uma saída, mas para aprisionar.

 

A metodologia do império: negociar, sufocar, culpar

 

O que descrevemos não ocorre no vácuo. Responde a uma metodologia do imperialismo norte-americano em suas negociações com atores soberanos que se recusam a capitular. O roteiro histórico é invariável e tem sido executado com variações mínimas.

Primeiro, a mesa de diálogo como armadilha. Sentam-se para negociar não para chegar a acordos, mas para ganhar tempo. Enquanto a contraparte deposita esperanças na via diplomática — enquanto o sujeito acredita que o Outro é suscetível de ser convencido —, o império continua aplicando sanções, fortalecendo a oposição interna, preparando o terreno. É o gesto que Lacan identificaria como perverso, a promessa que estrutura o vínculo apenas para perpetuar a dependência.

Segundo, a exigência de concessões unilaterais. O império nunca negocia de boa-fé; negocia a partir de uma posição de força absoluta. Exige que a outra parte ceda primeiro, que demonstre vontade de mudança, que desmonte suas estruturas defensivas como gesto de boa-fé.

Cada concessão feita pela parte fraca é interpretada como sinal de fraqueza adicional e é respondida com mais pressão. O mecanismo é sinistro em sua lógica: quanto mais se cede, mais se deve ceder. A negociação se transforma em um processo de esvaziamento progressivo da soberania.

Terceiro, se não obtêm o que querem, invadem ou destroem. Quando o diálogo não produz a rendição completa, eles passam para a fase seguinte: invasão direta — Panamá, Granada, Iraque —, golpe de Estado — Honduras, 2009; Bolívia, 2019 —, guerra de baixa intensidade — Nicarágua nos anos 80 —, ou destruição econômica sistemática — Cuba, Venezuela, Irã —. A diplomacia é apenas o prelúdio da agressão.

Aqueles que, de boa-fé, instam Cuba a negociar com Washington ignoram essa estrutura. Cuba não é levada à mesa para dialogar; é levada à mesa para se render nas condições mais desfavoráveis possíveis.

 

A crise humanitária como arma de guerra

 

A ajuda humanitária que chega a Cuba hoje — os envios de alimentos, medicamentos, geradores — é vital para aliviar o sofrimento imediato. Mas, em termos políticos, funciona como um paliativo que corre o risco de despolitizar a crise. É o respirador que se coloca em um paciente em coma: mantém o doente vivo, mas não repara a lesão que o levou ao coma. O paciente precisa de uma cirurgia estrutural, não da perpetuação da emergência.

O bloqueio não é uma sanção, é um mecanismo de desgaste projetado para provocar uma implosão a partir de dentro. Oferecer ajuda humanitária, por mais valiosa que seja, sem romper o cerco financeiro e energético é como bombear água de um navio que continua com um buraco aberto pelo ataque inimigo.

O buraco é permanente; e o bombeamento, exaustivo. O objetivo estratégico do bloqueio — o que na terminologia militar se chama de guerra de quarta geração ou mudança de regime por asfixia — é negar ao Estado a capacidade de satisfazer as necessidades básicas de sua população, para que seja a própria população que acabe por derrubar seu governo. Não há nada de acidental nessa estratégia: ela é deliberada, está documentada e vem sendo aplicada com diferentes graus de intensidade há mais de seis décadas.

O apagão não é apenas a ausência de luz, é uma pedagogia do medo, uma lição que o Amo ministra dia após dia. Cada hora sem eletricidade, cada fila para conseguir alimentos, cada médico sem suprimentos é um lembrete do que custa resistir. É o gozo do poder em sua forma mais cruel, não o gozo de destruir o inimigo de uma só vez, mas o gozo de vê-lo se degradar lentamente, de transformar sua vida em uma demonstração permanente de que a resistência leva ao sofrimento. Dói constatar isso, mas a maior crueldade do bloqueio não é sua força, é sua lentidão.

 

A narrativa do Estado falido ou a culpa sempre recai sobre a vítima

 

E aqui chegamos ao ponto mais perverso de toda a operação: a construção do relato que inverte a causalidade.

O império não apenas destrói; ele também constrói o dispositivo discursivo para que a destruição pareça merecida ou inevitável.

Um Estado ao qual se nega a possibilidade de importar alimentos, medicamentos, combustível e peças de reposição; cujas finanças internacionais são bloqueadas; ao qual se impede o acesso a créditos; ao qual se submete a uma guerra midiática; ao qual se castiga por comercializar com quem quer que seja: esse Estado terá, por definição, enormes dificuldades para funcionar normalmente. Então, quando essas dificuldades se manifestam — apagões, escassez, migração —, o coro imperial e seus porta-vozes locais dizem: vejam, é um Estado falido, o socialismo não funciona.

 

Apresenta-se como fracasso interno o que é resultado de uma agressão externa.


A causalidade se inverte: o bloqueio não é a causa da crise; a crise é a prova de que o regime é incompetente. É a mesma lógica do abuso: amarra-se as mãos do sujeito, bate-se nele durante horas e, depois, o acusa de não ser capaz de se defender. Esse mecanismo tem um nome: projeção. O agressor projeta sobre a vítima a responsabilidade pelo que lhe faz; assim, externaliza sua própria culpa e mantém intacta sua imagem de ordem e civilização.

A categoria de Estado falido não é descritiva, é performativa. Nomear Cuba como Estado falido não constata uma realidade; constrói uma realidade que justifica o abandono e, eventualmente, a intervenção. É o conceito que torna possível o que vem a seguir, a “haitianização”, como disse Claudio Katz recentemente. Reduzir a ilha a um estado de degradação tal que se torne uma vitrine do horror, uma demonstração permanente do que acontece àqueles que ousam escolher um caminho soberano.

 

A mensagem é perversa em sua transparência: vejam o que acontece se ousarem ser livres.

 

Mas um verdadeiro Estado falido não resiste a 65 anos de bloqueio. Um verdadeiro Estado falido não tem uma taxa de mortalidade infantil mais baixa do que a dos Estados Unidos. Não forma médicos que salvam vidas em todo o mundo. Não mantém um sistema educacional universal, uma ciência própria — incluindo vacinas — e uma cultura vibrante. O que o império chama de Estado falido é, na verdade, um Estado agredido que se recusa a morrer. Essa é a verdade incômoda. E essa é, precisamente, a razão da fúria imperial. Cuba, na verdade, não fracassa. Cuba insiste. E essa insistência é intolerável.

 

Que opções deixaram para Cuba?

 

Analisadas as coordenadas do cerco, a pergunta torna-se inevitável: que opções tem, na verdade, a liderança política cubana? Ou, para ser mais preciso: que opções lhe deixaram?

 

A primeira é a negociação em condições de asfixia.

 

É a que recomendam os bem-intencionados, aqueles que querem que Cuba dialogue e negocie com os Estados Unidos. Mas negociar com um império que tem o pé no seu pescoço não é diálogo, pode ser rendição condicionada. Cuba demonstrou vontade de diálogo histórico em múltiplos momentos, mas sempre a partir de posições de dignidade. Sentar-se hoje para negociar sem antes ter rompido o cerco energético e financeiro é aceitar a negociação do afogado, aceitar qualquer cláusula por uma lufada de ar. O resultado seria uma normalização que equivaleria à liquidação do projeto revolucionário por gotejamento, como ocorreu na Europa Oriental após a queda do muro, mas com o agravante de ter o império a 90 milhas.

 

A segunda opção é a resistência heroica, mas solitária.

 

É a que Cuba vem praticando há décadas: inovar, resistir, buscar brechas, diversificar relações. Mas essa opção, que era viável quando existia um campo socialista disposto a sustentar o fluxo de recursos, hoje se depara com um limite material concreto. A resistência heroica sem retaguarda se transforma, com o tempo, em resistência agônica. Não porque o povo cubano tenha perdido a vontade, mas porque a vontade por si só não move turbinas nem enche prateleiras.

 

A terceira opção é aquela que o império concebe como o cenário desejado: a implosão.

 

A explosão induzida pelo acúmulo de sofrimento, amplificada pelas redes de oposição financiadas do exterior, que permita uma intervenção humanitária ou uma transição acordada. Esta não é uma opção para Cuba; é a armadilha que lhe é colocada.

 

A quarta, a única que realmente mudaria o tabuleiro, não depende de Cuba.

 

Depende de que aqueles que dizem apoiá-la passem das palavras aos atos. Depende de que enviem o petróleo necessário, de que disponibilizem os navios, de que escoltem os suprimentos, de que rompam o cerco financeiro com mecanismos concretos. Depende de que perguntem a Cuba o que é preciso fazer e o façam.

Não há mais metáforas. É o petróleo ou a asfixia. São os navios ou o bloqueio. É a ação ou a cumplicidade.

 

As lições da história que o mundo prefere esquecer

 

O esquecimento não é passivo. O esquecimento é um ato: a repressão ativa daquilo que, se fosse lembrado, obrigaria a agir de outra maneira. A comunidade internacional esquece convenientemente os paralelos históricos, porque lembrá-los tornaria insustentável a postura atual.

Em 1941, os tanques alemães estavam às portas de Moscou. Quanto tempo ficaram sem reagir? Como sabem que depois não virão atrás de vocês? Hoje, ninguém parece entender que a retaguarda cubana é a retaguarda do mundo inteiro. Alguns talvez a vejam como um cadáver político antecipado e se comportem em consequência disso.

Durante décadas, os Estados Unidos apoiaram o regime de Chiang Kai-shek em Taiwan com dinheiro, armas e frota naval, mesmo quando era evidente sua derrota na guerra civil chinesa. Fizeram isso porque Taiwan era um porta-aviões estratégico contra a China Popular. Ou seja, o império sustenta seus aliados até o fim, porque entende que a lealdade aos seus é uma condição de seu próprio poder. Mas os aliados de Cuba fazem o contrário: abandonam-na quando o custo político de apoiá-la supera o benefício de não fazê-lo.

A República Espanhola é a lembrança mais exata da situação que Cuba vive hoje. Ela lutava contra o fascismo, mas as democracias ocidentais — França e Reino Unido, principalmente — assinaram o Comitê de Não Intervenção enquanto a Alemanha e a Itália enviam tropas, aviões e artilharia às forças de Franco. Os Estados Unidos, por sua vez, promoveram o embargo de armas. A não intervenção foi o nome elegante para a cumplicidade. A República foi abandonada, asfixiada e finalmente derrotada.

O resultado? Quarenta anos de ditadura franquista. Mas o mundo pagou também um preço maior: a impunidade com que o fascismo triunfou na Espanha encorajou o nazismo, ao mesmo tempo em que reforçou a impunidade fascista e contribuiu para o início da Segunda Guerra Mundial. O abandono da República não foi acidental; foi uma decisão com consequências históricas catastróficas.  Hoje, alguns governos progressistas praticam a mesma não intervenção em relação a Cuba, enquanto o império exerce sua intervenção permanente por meio do bloqueio. Não há lição aprendida. O esquecimento é produtivo e permite que se repita.

 

O que o império esquece: os povos não se rendem

 

E, no entanto, diante desse panorama desolador, existe um contraponto que a análise geopolítica clássica tende a subestimar. Cuba conta com algo que nenhum bloqueio pode estrangular por completo: conta com os povos do mundo mais do que com os Estados. Com os movimentos de solidariedade que, em cada país, se reúnem, organizam e preparam envios de ajuda. Com a memória viva de milhões de pessoas que sabem o que Cuba deu ao mundo e não estão dispostas a permitir que ela seja reduzida a escombros em silêncio.

Os Estados calculam, medem custos, avaliam riscos, ponderam sanções. Os povos, quando estão organizados e conscientes, agem por convicção.

A solidariedade interestatal é frágil porque depende de governos, de ciclos eleitorais, de alianças mutáveis, alianças que hoje estão mortas.

A solidariedade dos povos é mais lenta, mais difícil de articular, mas quando se ativa é diferente: não pode ser sancionada pelo FMI nem coagida pela OTAN.

Não há outro país no mundo que tenha uma rede de movimentos de solidariedade tão extensa, persistente e enraizada em múltiplas gerações como Cuba. Esse tecido humano é um ativo estratégico que não aparece em nenhum balanço convencional.

 

A diáspora como quinta coluna inversa

 

Há um fator que o Pentágono parece ignorar, talvez porque não se encaixa em seus modelos de análise: a composição demográfica da emigração cubana nos Estados Unidos mudou muito nas últimas décadas. Os cubanos de Miami nos anos 60 eram a elite branca que fugiu da revolução, proprietários expropriados, profissionais de classe alta, figuras do antigo regime batistiano. Eram o lobby mais feroz contra a revolução, o motor do bloqueio, a base social do exílio radical.

Hoje, a maioria dos cubanos nos Estados Unidos são emigrantes econômicos das últimas décadas, que chegaram em jangadas ou por países terceiros, com família na Ilha, com laços afetivos e culturais intactos, com uma visão muito mais matizada da realidade cubana.

Se o império ousasse invadir, as bombas cairiam sobre seus povos, sobre suas avós, sobre seus irmãos. Alguém realmente acredita que os milhares de cubano-americanos — seus filhos e netos — receberiam essa guerra com entusiasmo?

O cálculo político é o inverso: o que o império teria não é uma retaguarda em Miami, mas uma quinta coluna dentro de suas próprias fronteiras, uma comunidade disposta a se rebelar de dentro do próprio Amo.

Isso é o que a análise puramente institucional não consegue ver, porque trabalha com categorias frias, alianças, interesses e recursos. O que escapa a essas categorias é a dimensão libidinal da política: o amor, o luto, o sentimento de pertencimento. Um povo não é uma variável geopolítica. Um povo tem uma mãe. E quando as bombas caem sobre a mãe, o cálculo racional se dissolve em algo mais antigo e poderoso.

 

Irã e Vietnã: lições da resistência assimétrica

 

A heroica resistência do Irã diante do imperialismo nos mostrou o caminho: onde quer que alguém caia, surgirão cem dispostos a empunhar as armas e defender a pátria. Não é retórica, é a descrição de uma sociedade que interiorizou a defesa da nação como um valor inalienável, que fez da resistência uma identidade coletiva mais forte que o medo.

Cuba tem esse mesmo DNA: é uma nação em armas não por conscrição forçada, mas pela consciência histórica acumulada em sessenta e cinco anos de assédio.

O Vietnã ensinou que uma guerra não se decide apenas no plano militar.

A Ofensiva do Tet de 1968 foi uma derrota tática para o Vietcong e o exército do Vietnã do Norte, que sofreram enormes perdas e não conseguiram manter as posições conquistadas. Mas foi uma vitória política estratégica: demonstrou que eles podiam atacar em qualquer ponto do país, inclusive nos centros do poder sul-vietnamita, e quebrou a narrativa de Washington de que a guerra estava prestes a ser vencida. A partir de então, a confiança da sociedade estadunidense na guerra começou a desmoronar. A guerra não se ganha ocupando território; ganha-se desgastando a vontade política do invasor. E essa vontade, nas democracias liberais com opinião pública e eleições periódicas, tem um limite mensurável em caixões e em índices de aprovação presidencial. Cuba, com sua geografia complexa, com sua população preparada durante décadas para a defesa territorial, poderia reproduzir esse cenário.

Uma invasão a Cuba não seria a operação cirúrgica de Granada nem o passeio do Panamá. Seria um atoleiro sangrento e prolongado, que duraria anos e custaria milhares de vidas estadunidenses.

 

A paradoxo do isolamento preventivo: morrer sozinho para não morrer juntos

 

Chegados a este ponto, devemos questionar o mecanismo profundo que leva as potências que deveriam contestar a ordem unipolar a abandonar Cuba. A resposta superficial é o cálculo de custos: apoiar Cuba tem um preço em termos de sanções secundárias, de tensão com Washington, de risco comercial.  Mas essa explicação é insuficiente, porque o abandono não é apenas racional; ele tem uma dimensão de satisfação, de alívio, que talvez apenas a psicanálise possa esclarecer.

Existe na política internacional algo análogo ao que Freud descreveu como pulsão de morte no indivíduo: a tendência à autodestruição, ao retorno a um estado de quietude que se alcança à custa da própria vida.

Os atores que abandonam Cuba não estão apenas calculando seus interesses; estão também, de certa forma, renunciando ao próprio desejo de transformação. O abandono de Cuba é a renúncia à possibilidade de outro mundo. É a aceitação, no fundo, de que a ordem do Amo é a única ordem possível, de que o capitalismo global é o horizonte insuperável da história.

Há nessa renúncia algo do que Marcuse chamou de dessublimação repressiva, que é a integração do sujeito no sistema por meio da promessa de pequenas satisfações que neutralizam o impulso radical. Os governos progressistas latino-americanos, as potências do BRICS, os partidos de esquerda europeus, as organizações solidárias que hoje desviam o olhar: todos encontraram, de uma forma ou de outra, seu nicho dentro da ordem. Obtiveram sua cota de reconhecimento, seu espaço de dissidência confortável, seus gestos permitidos.  E, nesse processo, deixaram de ver Cuba como um espelho do que poderiam ser, para passá-la a ver como uma lembrança incômoda do que deixaram de ser.

Porque Cuba interpela: isso é o insuportável. Não que seja um fracasso, mas que seja uma pergunta permanente, dirigida a todos aqueles que, em algum momento, acreditaram que outro mundo era possível e depois decidiram que era demasiado caro.  Cuba lhes pergunta: em que momento exato você decidiu que a normalidade capitalista era preferível à luta? Em que momento exato você desistiu do desejo? Essa pergunta é a razão profunda do bloqueio e do abandono.

Ao abandonar Cuba, não estão evitando seu próprio fim; estão apenas adiando-o e garantindo que, quando ele chegar, se encontrem na mais absoluta solidão. Estão cavando sua própria cova com a desculpa de não sujar as mãos com a terra da sepultura de Cuba. Pois quem escolhe salvar a si mesmo em uma tempestade coletiva acaba isolado e depois subjugado. O Amo, uma vez que acaba com o irmão, não faz as pazes com aqueles que assistiram; ele os incorpora à lista dos próximos. Ele sempre precisa de novas vítimas para legitimar sua existência.

 

A solidariedade como necessidade estratégica e ato de dignidade

 

O que testemunhamos nesta análise não é uma série de erros táticos isolados, mas uma profunda crise de consciência geopolítica e moral no progressismo global. Perdeu-se a noção de que a solidariedade não é um luxo moral reservado para os bons tempos, é uma necessidade estratégica e, ao mesmo tempo, a própria definição do que significa pertencer a um projeto político que aspira a algo mais do que a administração da ordem existente.

Cuba não é apenas Cuba: é a demonstração viva de que é possível resistir durante décadas ao cerco do maior poder do mundo e manter em pé um sistema de saúde universal, uma educação gratuita, uma cultura própria, uma dignidade inalienável.

Isso não prova que o modelo cubano seja perfeito: prova que a alternativa ao capitalismo global não é o caos nem o fracasso automático, mas que é possível e vale a pena construir algo diferente e até mesmo belo. Ao destruir Cuba, o império não está eliminando uma ameaça militar, está eliminando uma prova, está apagando um exemplo. Pretende demonstrar que fora da normalidade capitalista não há vida possível.

Aqueles que entregam Cuba entregam a si mesmos. Não como metáfora, mas na ordem estratégica. Uma ordem mundial que diz chamar-se multipolar, mas não protege seus membros mais vulneráveis quando o Amo aperta, não é uma ordem alternativa, é uma extensão descentralizada do mesmo domínio, um sistema onde a multipolaridade é a forma decorativa da unipolaridade efetiva. Ao trair Cuba, eles dizem ao Sul Global: “se você não tem petróleo ou uma posição geográfica vital para nós, não espere nada”. Isso, a longo prazo, priva-os de aliados autênticos e os deixa em um mundo onde só importa a força bruta: um mundo onde eles também, embora grandes, são vulneráveis.

Quando o império olha para Cuba, vê uma pequena ilha que pode bloquear e asfixiar quase sem consequências. O que não vê — ou o que não quer ver — é que essa ilha é um vulcão adormecido sobre uma falha tectônica global.

Cuba não é apenas sua geografia, é sua história, é seu exemplo, é o sonho de milhões de pessoas que, em algum canto do mundo, ainda acreditam que outro mundo é possível.

E enquanto esse sonho existir, enquanto houver um povo que o encarne com sua resistência cotidiana, a ordem do Senhor não estará completa. Sempre haverá uma fenda. Sempre haverá uma pergunta sem resposta.

Se algum dia o império esquecer o Vietnã, esquecer o Irã, esquecer que os povos não se rendem e se atrever a invadir a ilha, descobrirá que a guerra não se ganha com porta-aviões.  Ganha-se com a capacidade de um povo de dizer “não”, mesmo que isso lhe custe a vida. E esse “não” de Cuba, multiplicado por milhões dentro e fora da ilha, será o seu túmulo.

Enquanto isso, a batalha é outra. É a batalha pela vida cotidiana, pela luz, pela comida, pela esperança.  E nessa batalha, os povos do mundo têm a palavra. Não para substituir os Estados, mas para obrigá-los a agir. Para lembrá-los de que a história julga. Que o julgamento sobre aqueles que abandonaram a República Espanhola foi severo e permanente.

 

Que o silêncio, quando pode ser quebrado, é uma decisão. E que as decisões têm consequências.

 

Cuba pede ações concretas: o petróleo necessário, os navios, a escolta, o rompimento do cerco financeiro, a proteção do espaço marítimo, a pressão real nos organismos internacionais. Pede que aqueles que dizem apoiá-la perguntem o que há para fazer e o façam. Não é um pedido de caridade, é uma exigência de coerência. Chega de declarações. Chega de mensagens de apoio que servem de álibi para a inação.

A pergunta final não é para Cuba. Cuba já deu sua resposta com 67 anos de Revolução. A pergunta é para o mundo. Para aqueles que dizem querer outra ordem.

Para aqueles que assinaram declarações e enviaram mensagens. Para aqueles que têm petróleo e navios, mas não os enviam, ou votos relevantes na ONU que só usam para se abster.

De que lado você está? Do lado daqueles que esperam que os Estados se decidam, ou do lado daqueles que já estão agindo? Do lado daqueles que enviam mensagens de apoio, ou do lado daqueles que enviam os navios e decidem enfrentar de uma vez por todas os desígnios do imperialismo?

                                             


             Trad/Ed @comitecarioca21 

               

COMO CUBA ESTÁ SENTINDO O BLOQUEIO ENERGÉTICO ?

                                
Por Pascual Serrano

Todos parecem indignados com Trump, suas interpretações geopolíticas, suas medidas políticas e suas guerras. No entanto, tanto políticos quanto a grande mídia concordam com ele que a situação em Cuba é desesperadora e à beira do colapso. O cenário que promovem é o de um Estado falido, para que uma intervenção militar possa ser interpretada não tanto como agressão, mas como salvação ou, pelo menos, algo que não possa piorar a situação. O objetivo, como diz Belén Gopegu, é. E aí o objetivo é incutir a ideia de que "não há mais nada a fazer", basta esperar pela chegada do imperialismo.

Estivemos em Cuba, vimos, observamos, fizemos perguntas e tomamos notas. Descobrimos um povo abatido e sofrendo com o bloqueio energético, mas com um governo que está administrando a situação e cidadãos que estão seguindo em frente.

O primeiro ponto a considerar é que Cuba foi submetida a um bloqueio energético, que impediu a ilha de receber uma única gota de petróleo durante quatro meses. Esse petróleo era anteriormente fornecido pelo México e pela Venezuela. Como resultado, as usinas termelétricas da ilha ficaram sem a matéria-prima necessária para operar. É surpreendente como o mundo reagiu ao bloqueio da ajuda alimentar que Israel impôs a Gaza, mas bloquear o acesso à energia é igualmente sufocante para uma economia e tão criminoso para um país. Você consegue imaginar o que aconteceria com a Espanha se fosse impedida de receber uma única gota de petróleo ou gás? Ou com uma ilha como a República Dominicana, vizinha de Cuba? Imagine bloquear o acesso da República Dominicana aos 50 ou 60 milhões de barris que recebe anualmente, ou aos 2,8 milhões de barris por dia que o Japão importa. E quando esses países não conseguem se desenvolver devido à falta dessa energia, então as pessoas dirão que o capitalismo não funciona.

O primeiro paradoxo é que o governo Trump afirma que Cuba é um Estado falido, mas justamente por haver presença estatal na organização da sociedade, o déficit energético está sendo administrado. O Estado cubano classificou as áreas de acordo com prioridades energéticas, que denomina circuitos com níveis de importância, dando prioridade máxima a áreas com hospitais ou unidades de saúde, escolas, bombeiros, indústrias alimentícias e assim por diante. Nessas zonas protegidas, a eletricidade praticamente nunca é interrompida.

Da mesma forma, o governo cubano está priorizando centros de saúde, educação e assistência social para a instalação de painéis solares. Numa corrida contra o tempo, e com a ajuda da China, sistemas de energia solar que abastecem instalações de saúde e hospitais estão sendo inaugurados diariamente.

Em relação à distribuição de gasolina, os critérios também são sociais; os serviços públicos têm abastecimento garantido, assim como a produção agrícola e as empresas estratégicas, enquanto o uso privado tem menos combustível disponível a um preço muito elevado.                                         

Da mesma forma, o Estado planeja conexões e desconexões territoriais em suas usinas termoelétricas para garantir a distribuição do fornecimento e evitar o colapso do sistema devido à demanda exceder a eletricidade disponível.

Foi o planejamento do Estado que permitiu que os 730 mil barris de petróleo bruto ("um terço do que precisamos em um mês", nas palavras do presidente Díaz-Canel) que chegaram no navio russo Anatoly Kolodkin em 31 de março fossem utilizados e otimizados ao máximo para gerar 800 ou 1.000 MW, um terço de tudo o que é necessário nos horários de pico.

Diferentemente do que acontece em nossos países, onde um aumento no preço da energia se traduz instantaneamente em inflação e aumento de preços, em Cuba não há aumento nos preços dos produtos de primeira necessidade. Isso ocorre porque o Estado mantém um preço fixo para a produção de energia e não há distribuidores que possam especular ou estocar o produto. Além disso, os produtos importados não têm motivo para aumentar de preço, pois não são afetados por nenhum bloqueio energético.

O governo dos Estados Unidos propõe permitir a importação de combustível, mas apenas para o setor privado — ou seja, para indivíduos ricos e empresas privadas, independentemente do seu porte. Em outras palavras, pretende eliminar os critérios sociais e estratégicos do Estado cubano. Sem um Estado que priorize as necessidades e coordene as conexões e desconexões do fornecimento, as demandas individuais levariam o sistema ao colapso constante.

Ele diz que é um estado falido, mas o que ele realmente quer é desativá-lo, porque sabe que não é um estado falido de forma alguma.

A iniciativa dos cubanos comuns também merece destaque. As ruas de Havana estão repletas de motocicletas elétricas chinesas e até triciclos que podem transportar até seis pessoas, os quais já substituíram a maioria dos carros a gasolina e, sobretudo, os táxis. Essas motocicletas, que estão resolvendo o problema de transporte de Havana, custam em torno de US$ 600 ou US$ 700, um valor considerável para um cubano, mas vale lembrar que eles passaram a vida inteira pagando uma quantia mínima por eletricidade, menos de um dólar por mês. Agora, recarregar as baterias de suas motocicletas em casa é praticamente de graça.

Por outro lado, muitas casas já possuem painéis solares para garantir sua autossuficiência energética. É curioso que nós, espanhóis, estejamos sendo forçados a essa transição energética para lidar com as sanções que nós mesmos impusemos à Rússia e o consequente aumento nos preços do gás. Cuba está fazendo o mesmo, mas devido ao bloqueio dos EUA.

A interrupção nos transportes significa que muitos trabalhadores estão se hospedando com amigos e familiares para evitar o deslocamento diário, ou levando comida e roupa para lavar na geladeira ou máquina de lavar de algum parente que tenha eletricidade. Em outras palavras, o país não está paralisado nem entrando em colapso. Na verdade, embora tenhamos visto menos veículos a gasolina nas ruas de Havana e uma queda acentuada no turismo, locomover-se pela cidade não é difícil; as pessoas estão indo trabalhar e, nos fins de semana, os estabelecimentos de entretenimento não podem reclamar da falta de clientes cubanos. Nada parecido com o Período Especial da década de 1990.

A transparência do governo cubano em relação à situação energética é absoluta. Os cubanos acompanham um canal do WhatsApp administrado pela União Elétrica Cubana, onde é compartilhado um gráfico diário com a “Atualização do Sistema Energético Nacional”. Lá, eles podem ver que a disponibilidade típica nos horários de pico é de cerca de 2.000 MW (vinte dias atrás era inferior a 1.500 MW) e a demanda é de 3.000 MW. O déficit de 1.000 MW deve ser distribuído de acordo com as prioridades e de forma escalonada para evitar o colapso do sistema.

Atualmente, a China já construiu 75 dos 92 parques solares que prometeu inaugurar até 2028 em apenas doze meses, aumentando sua geração total de energia de 5,8% para 20%.  Cada parque solar custa aproximadamente US$ 16 milhões, e os 75 já construídos representam um investimento de mais de US$ 1,2 bilhão em infraestrutura energética instalada em tempo recorde. Cada megawatt de capacidade solar instalada representa quase 18.000 toneladas de combustível que a ilha deixa de precisar importar.

                                  

Hoje, a energia solar em Cuba já produz 1.000 MW, o que corresponde a 20 a 25% das necessidades energéticas do país. É importante ressaltar que, embora a energia solar atual ajude a suprir a demanda de pico durante o dia, ela não resolve o problema dos apagões noturnos sem sistemas de armazenamento de energia de grande porte. E não podemos esquecer que os cubanos consomem muita eletricidade à noite para seus aparelhos de ar condicionado.

A velocidade de implantação é surpreendente até mesmo para os padrões chineses: alguns parques entraram em operação em apenas 35 dias após a chegada dos equipamentos. Além da enorme contribuição para a rede elétrica, o acordo com a China inclui a doação de 70 toneladas de peças para geradores e planos para instalar 10.000 sistemas fotovoltaicos em residências, maternidades e clínicas.

É evidente que o objetivo do bloqueio energético é provocar uma revolta popular contra o governo, algo que parece cada vez mais improvável e absurdo. É difícil saber com precisão a porcentagem de apoio ou oposição ao governo cubano, mas é inegável que o apoio é maior do que os 36% de que Trump desfruta. Eu diria até que é maior do que era há alguns anos. A arrogância e a falta de tato de Trump ao afirmar que queria "tomar o controle de Cuba" geraram rejeição até mesmo entre os cubanos que, ingenuamente, poderiam ter pensado que o governo estadunidense alguma vez se interessou pela democracia ou pelos direitos humanos em Cuba.

Em conclusão, um Estado socialista que planeja e prioriza, a solidariedade chinesa e a inventividade cubana estão garantindo que, mais uma vez, Cuba avance e que os planos dos Estados Unidos para derrubá-la continuem a fracassar, como têm acontecido nos últimos mais de sessenta anos.

 

https://cubaenresumen.org/2026/04/28/como-vive-cuba-el-bloqueo-energetico/

@comitecarioca21

                    

12 de jun. de 2026

UM FESTIVAL DE NOTÍCIAS FALSAS. É O BLOQUEIO MIDIÁTICO. TRAGICÔMICO.

                              
Carmen Diniz

       Anos atrás um escritor brasileiro, Sergio Porto, de heterônimo Stanislaw Ponte Preta, lançava slogan e livros denominados FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) com crônicas publicadas em jornal com um viés cômico sobre as coisas que aconteciam durante a ditadura militar no Brasil.  

      Inescapável a associação com as notícias falsas divulgadas initerruptamente por contrarrevolucionários na tentativa constante de derrubar o governo cubano, com a vã esperança de que o povo cubano - esse povo resistente e heroico - se revolte com as consequências das medidas do bloqueio impostas pelo governo estadunidense. O escritor Fernando Morais, esta semana declarou que Cuba já enterrou 10 presidentes estadunidenses. Que vai enterrar outros dez. E que a Revolução não vai se acabar. Dizia Fidel que só quem poderia acabar com a Revolução seria o povo cubano. Não nos parece, resistindo a tanto há tanto tempo. 

    Escolhemos alguns poucos exemplos mais recentes de "fake news" para demonstrar a quantidade de informações falsas que insistem em divulgar sobre a Ilha. É um festival de tentativas de difamar o governo cubano e aquela velha história sobre "governo falido", "bloqueio interno" (!?),etc.. Praticam essa "modalidade" de postagens sem conseguir que o povo cubano derrube o governo - essa a intenção permanente desde 1959. E continuam tentando. Sem qualquer resultado, há quase sete (sete!) décadas.  Vejamos alguns exemplos mais recentes (porque a totalidade desse tipo de 'informação' seria impossível em razão da quantidade....) sobre as "notícias"  :

Sobre o assunto, perfeito artigo de Raul Capote: 
*ARMAS PARA CIVIS VOLUNTÁRIOS EM CUBA ?*
Raul Capote
Vários meios de comunicação digitais estão divulgando a “notícia” de que, em Cuba, o governo estaria distribuindo armas a civis voluntários diante da possibilidade de uma agressão.
Deixo claro: em Cuba não se improvisa; somos um país organizado, sobretudo no que diz respeito à defesa.
Aqui existem Milícias de Tropas Territoriais, herdeiras das Milícias Nacionais Revolucionárias, sim, as mesmas que derrotaram os mercenários ianques em Girón, as que limparam as montanhas de bandidos rebeldes, sobretudo em Escambray, integradas por camponeses, estudantes e operários.
As MTT se preparam desde 1980 para a Guerra de Todo o Povo, juntamente com as Brigadas de Produção e Defesa; em cada Zona de Defesa existem essas unidades prontas para enfrentar o inimigo, compostas pelo povo.
Se o inimigo cometer o erro de colocar suas botas sujas em Cuba, encontrará um vespeiro; cada cubano tem capacidade, sabe o que fazer e, sobretudo, o porquê.

 Aqui é sobre um suposto "Carnê de Compromisso Revolucionário" (rsrsrsrsrs) obrigatório para toda pessoa maior de 14 anos para ter acesso a todos os direitos Esse tem até o número do decreto (89/2026) que o teria instituído ...


Notícias falsas circulam nas redes sociais sobre o Terminal de Contêineres de Mariel, em Cuba
7 de junho de 2026 
Neste momento, circulam nas redes sociais áudios totalmente falsos sobre o Terminal de Contêineres de Mariel, referindo-se a uma “suposta emergência no porto”. O Terminal de Contêineres está operando normalmente, sem interrupções e sem que tenha ocorrido qualquer acidente.
(retirado do Cubadebate)


Tentou-se envolver o Ministro do Turismo, Juan Carlos García Granda, em supostas negociações com autoridades estrangeiras. Reiteramos com firmeza que tais afirmações carecem de qualquer veracidade.

O Ministro Juan Carlos García Granda reafirma que Cuba mantém seu rumo soberano e transparente. Convocamos a cidadania e nossos públicos internacionais a seguirem sempre os meios oficiais de comunicação.



A ETCSA nunca anunciou somente 3 horas de internet para "proteger a saúde mental" (!?) da população....


https://checamos.afp.com/doc.afp.com.B2879KE


OI ?



Toque de recolher. Sei. 



Até o Brasil entrou "na roda" do conversê gusano....

⛽ VANGUARD ENERGY: É ASSIM QUE O BLOQUEIO FUNCIONA NA PRÁTICA‼️
👉 Há alguns dias, aconteceu algo que explica melhor do que mil discursos como é a verdadeira política dos Estados Unidos em relação a Cuba.
📅 9 de junho: O Miami Herald anunciou um acordo histórico. A empresa Vanguard Energy (Flórida 🇺🇸) iria enviar combustível para Cuba, algo sem precedentes nas últimas décadas. Eles alugariam parte dos depósitos da CUPET, e o combustível seria vendido DIRETAMENTE ao setor privado cubano, não ao governo. Um alívio para a terrível situação energética que o povo vive.
👉 Mas tudo mudou em poucas horas.
📅 10 de junho: O Departamento de Estado desmentiu tudo: “Essa empresa não tem nenhuma licença”.
📅 11 de junho: Marco Rubio anuncia uma nova sanção contra a CUPET. No mesmo dia, o Condado de Miami-Dade, por meio de um funcionário cubano-americano com ambições políticas, REVOGOU a licença da Vanguard Energy.
Qual é a conclusão?
👉 Embora o acordo fosse direcionado ao setor privado (algo que o governo dos EUA diz apoiar), eles o destruíram mesmo assim. Por quê?
Porque o objetivo real não é “ajudar o povo cubano” nem “pressionar o governo”. O objetivo é CASTIGAR TODA A SOCIEDADE. Qualquer coisa que alivie o sofrimento material dos cubanos – mesmo que seja por meio de empresas privadas – é imediatamente bloqueada.
👉 Os isotanques e a chamada “ajuda humanitária” de 100 milhões servem apenas para dar uma boa impressão à opinião pública interna dos EUA. Na prática, o cerco se fecha cada vez mais.
Este caso também faz parte da guerra psicológica: abrir uma porta e fechá-la de golpe apenas semeia desânimo, confusão e desespero.
🔁 Compartilhe se você acha que essa informação deve ser divulgada. O bloqueio não é um mito, é uma política de punição coletiva projetada para asfixiar uma nação inteira.
#ComAVerdadeSomosMaisFortes

Assim seguimos, desmontando as falsas informações divulgadas incessantemente contra Cuba, seu povo, sua soberania. 
Venceremos ! Estamos vencendo há sete décadas !