O MAL NÃO VAI TE AFETAR MENOS POR CRUZAR OS BRAÇOS E OLHAR NA DIREÇÃO OPOSTA ÀQUELE QUE SOFRE!!
Aqui estou eu, sentado na soleira desta noite sem lua, com o peito aberto e as costelas à mostra. O ar chega aos meus pulmões aos goles, como se alguém apertasse um punho invisível em volta da minha garganta. Não é a asma, não é o clima úmido dos trópicos: é o bloqueio. Eles dizem “sanções”, mas eu sinto isso como uma mão gringa que me agarra pelo pescoço enquanto durmo e aperta, devagar, quase com ternura, até que eu acorde com os lábios roxos. Todas as manhãs acordo me perguntando: tem pão? Tem luz? Tem remédio para a febre da criança? E a resposta paira no ar denso do porto: “Não, porque Washington decidiu que hoje você também não vai respirar”.
Eu, que um dia escrevi poesia para que outros povos vivessem, hoje olho para as minhas mãos e as vejo amarradas. Sem cordas, sem correntes: com memorandos, com assinaturas presidenciais, com a tinta gelada de um decreto que proíbe que um navio carregado de trigo atraque na minha costa. Vocês sabem o que é ver sua mãe descalça diante do fogão apagado, mexendo uma inhame com água salgada e chamando isso de jantar? Vocês sabem o que é carregar sua filha nos braços, ardendo de febre, e correr para o hospital para encontrar uma prateleira vazia onde deveria estar o antibiótico? Essa impotência é um ácido que me corrói as entranhas. E esse ácido não vem do céu, nem do solo: vem do Norte, de um império que nos condenou a morrer aos poucos, a sangrar até a morte sem que se veja uma gota de sangue, para que o mundo olhe e diga “é problema deles, devem ter feito alguma coisa”.
Mas o que me destrói, o que parte minha alma em pedacinhos, não é a minha própria fome. É a memória. Porque eu me lembro dos navios cubanos cruzando oceanos para salvar vidas alheias. Lembro-me dos meus médicos, com seus jalecos brancos, arrancando crianças da morte no Haiti, em Angola, na Etiópia, em toda a África, na Itália, no Paquistão. Lembro-me de que meu povo deu o pouco que tinha quando o mundo estava em chamas. E hoje, salvo exceções maravilhosamente solidárias como a do México e de alguns outros poucos países asiáticos, esse mesmo mundo nos vira as costas enquanto nos assassinam em câmera lenta. Ah, a ingratidão! É uma facada mais profunda do que a escassez. Dói mais saber que aqueles a quem salvamos hoje desviam o olhar, fingem não ouvir meu estertor, minha agonia de uma pequena e digna ilha...
Sinto o genocídio no formigamento dos pés descalços do adolescente que não tem sapatos porque o couro, os pregos, o fio — tudo está proibido pelo Norte. Sinto isso no tremor da mão do operário que vê sua fábrica parada porque a peça de reposição foi vetada. Sinto isso em cada apagão, em cada vela que se consome na minha sala, em cada livro que não é impresso, em cada sonho que é adiado. Isso não é metáfora: é um assassinato molecular, cirúrgico, silencioso. Estão nos matando sem disparar um tiro, e a arma homicida é um documento com o selo do Departamento do Tesouro. Eu clamo por justiça não com a garganta, mas com cada célula do meu corpo exangue.
Mundo, acorda! Olha para mim: sou eu, aquele que te curou quando estavas doente. Sou eu, aquele que te ensinou a dançar quando você estava triste. Hoje me consumo diante dos teus olhos, e o teu silêncio é cúmplice do carrasco. Não te peço esmola, peço-te coragem. Peço-te que grites comigo que bloquear um povo é terrorismo. Pois se amanhã eu cair, se amanhã eu me apagar sob o peso do garrote imperial, quem te salvará? Quem enviará seus filhos para curar os seus? Aja, mundo, antes que seja tarde demais. Salve-me agora, mas não por caridade, e sim por justiça; e não é que eu queira cobrar pelo que fiz por você, mas a memória é o lampejo que acende a gratidão, e não entendo por que você desvia o olhar quando sabe que estou afundando mesmo tendo salvação, e porque me salvar hoje é salvar sua própria humanidade.
Eu, deste canto da dor, ainda te estendo a mão. Não a deixes cair.
Com amor infinito por uma humanidade hoje distraída...
E sem causar muito mais incômodo do que uma simples leitura destas palavras.
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CUBA

