Raúl Capote
Não se trata de uma oscilação pendular; não é o clássico
embate entre conservadores e progressistas que tem marcado a política
latino-americana desde a queda das ditaduras militares.
O que está abalando o continente hoje é uma transformação
profunda, uma maré negra* que, desde 2023, vem manchando o mapa político da
América Latina e levou a extrema direita ao poder em doze países da região.
Desde janeiro de 2025, as sete eleições presidenciais
realizadas no continente resultaram na vitória de uma direita subserviente,
totalmente submissa aos ditames de Washington.
Equador com Daniel Noboa, Bolívia com Rodrigo Paz, Honduras
com Nasry Asfura, Chile com José Antonio Kast, Costa Rica com Laura Fernández,
Peru com Keiko Fujimori e, mais recentemente, Colômbia com Abelardo de la
Espriella – sete de sete.
Esta não é a velha direita conservadora, mas uma versão
mais agressiva, focada na personalidade e obcecada por segurança — uma versão
que, em sua essência, é profundamente influenciada pelo trumpismo.
Nem todos são cópias fiéis do presidente dos EUA, mas a
maioria imita abertamente sua retórica, sua agenda e até mesmo sua presença em
público. Kast chega a La Moneda prometendo deportações em massa e o
fortalecimento da fronteira norte; Laura Fernández governa a Costa Rica com uma
megaprisão inspirada no CECOT de El Salvador; e De la Espriella discursou para
seus apoiadores por trás de um vidro à prova de balas, envolto na bandeira
americana, diante de uma plateia usando bonés com a inscrição “Make Colombia
Great Again” (Tornar a Colômbia Grande Novamente).
Esse fenômeno não é coincidência; o próprio Trump atuou
como força motriz e padrinho dessa onda. Ele define a agenda regional, apoia
candidatos e orquestrou fóruns sob medida para sua agenda, como a cúpula
“Escudo das Américas”. A “trumpificação” da América do Sul agora é uma
realidade confirmada.
Embora a Argentina tenha se tornado um amplo campo de
testes para esse movimento de extrema-direita, Javier Milei — cujo ensaio
político, feito por Maristella Svampa, descreve como um verdadeiro “amplo campo
de testes” para a extrema-direita — acaba de reunir cerca de 500 apoiadores
fervorosos em Buenos Aires, na conferência “Vientos del Cambio”, com
representantes do Peru, Chile, Colômbia, Brasil e El Salvador. Lá, eles
celebraram as 17.000 desregulamentações que desmantelaram o Estado argentino —
uma prévia do modelo que pretendem exportar para o resto do continente.
O
Brasil, um dos dois bastiões que, juntamente com o México, ainda se mantêm como
representantes da esquerda, enfrenta eleições cruciais.
O
presidente Lula da Silva alertou que a democracia brasileira exige mobilização
diante do avanço da extrema-direita e advertiu contra uma “internacional de
extrema-direita” que reúne Trump, Orbán e os líderes radicais da região.
A onda de cunho fascista ameaça engolfar todo o continente,
no que seria um dos piores retrocessos civilizacionais de nosso tempo — uma regressão
histórica à barbárie.
Raúl Capote é um escritor, professor, pesquisador e
jornalista cubano. É autor de Juego de Iluminaciones, El caballero ilustrado,
*El adversario, Inimigo, La guerra que se nos hace e Guarimbas.
*A maré negra é uma grande mancha de óleo ou petróleo que se espalha pelos mares e oceanos após um vazamento ou acidente. Aqui o termo é usado como uma equivalência ao desastre causado pela extrema-direita na região.

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