O Irã não é alvo de
ataque dos EUA por ser uma república islâmica ou por questões ligadas aos
direitos humanos, mas porque exerce controle sobre rotas por onde escoam
produtos de países competidores do país norte-americano.
Dominar rotas
por onde fluem energia, finanças, logística e infraestrutura significa poder
para os EUA. Poder que Trump busca obter, custe o que custar – mesmo que
implique na destruição do planeta.
#LawfareNuncaMais (https://www.instagram.com/p/DTqALK4DibI)
EDIÇÃO
DE GUERRA
OPERAÇÕES
DE CONTRAINSURGÊNCIA NO IRÃ
O Irã parecia estar à beira do abismo. O Ocidente já
festejava a queda do governo iraniano e o regresso da monarquia iraniana com o
sha (rei) à frente de um novo governo. Mas, em apenas 48 horas, o que parecia
ser uma iminente revolução colorida, desinflou-se completamente, sendo
comprovadas as acusações iranianas de que a insurreição era organizada a partir
do exterior. O ponto de inflexão definitivo foi o apagão do sistema de internet
Starlink do norte-americano Elon Musk. O apagão deixou as células terroristas
sem comunicação, fragmentadas e sem capacidade de receber novas instruções do
imperialismo norte-americano e do sionismo “israelense”. Portanto, tornaram-se
vulneráveis à captura pelas autoridades iranianas.
Essa mudança radical não foi, em absoluto, fortuita. O
ponto de inflexão que salvou o Irã de uma revolução colorida, veio pelas mãos
de seu mais forte aliado, a Federação Russa que enviou, diante de uma
emergência, sistemas de guerra eletrônica que foram capazes de bloquear o sistema
norte-americano Starlink.
Em 03 de janeiro de 2026, o secretário de segurança da
Federação Russa, Serguei Shoigu, manteve um contato telefônico com seu homólogo
iraniano, Lila Rariani, em que se analisou os recentes acontecimentos no Irã e,
brevemente, mencionou-se a possibilidade de transferência de equipamentos de
guerra eletrônica.
Comenta-se que tais equipamentos foram extremamente
efetivos, já que não parece que tenha sido mera coincidência a paralisia súbita
de terroristas a serviço dos EUA e de “Israel”. De fato, um dia antes, os
representantes da oposição iraniana afirmaram que a Rússia ou a China Popular
ajudaram as autoridades iranianas a bloquear a internet Starlink. Diários, como
o Wall Street Journal e Sky News, informaram que Donald Trump tinha sido
informado por seus assessores do bloqueio da Starlink, em larga escala, no Irã.
Posteriormente, Donald Trump conversou com Elon Musk, exigindo explicações,
querendo saber como foi possível inabilitar a internet por satélite Starlink,
em todo o território iraniano, o que, por sua vez, seria consistente com
informações anteriores de que as autoridades iranianas estavam mapeando e
capturando as células dos insurgentes, por meio da localização das antenas
Starlink.
Enquanto isso, os informes russos indicam uso massivo do
sistema de guerra eletrônica Tirada 2S, especializado em bloquear comunicações
via satélite, o mais apto, para paralisar o sistema Starlink norte-americano.
Ainda que muitas informações sobre esse sistema sejam classificadas, pode-se
ter uma ideia do que é capaz.
Segundo o fabricante, o Tirada 2S é especializado na
interrupção do fluxo de informação entre satélites de órbita baixa e terminais
baseados em terra. É descrito como um sistema antissatélite Soft Kill que não
danifica o satélite de nenhuma forma, mas impede sua comunicação com os
receptores em terra, desde que se mantenha dentro do alcance do sistema que,
nesse caso, pode abarcar, pelo menos, 100 km, no entorno. Portanto, esse
sistema, por sua vez, bloqueia sistemas de comunicação via satélite nas bandas
UHF, L, S, C, XX e K, o que implica que, instalando um desses sistemas, no
centro de cada uma das cidades mais importantes iranianas, pode-se bloquear
efetivamente os sinais da rede Starlink, deixando os grupos insurgentes
totalmente vulneráveis. Combinando-se seu uso com sistemas mais portáteis e
móveis, teoricamente, é possível localizar as antenas dos sistemas Starlink
receptoras e, com isso, localizar e capturar os militantes das células
terroristas.
Trata-se, em realidade, de um dos usos geopolíticos mais oportunos e, sobretudo, decisivos da guerra eletrônica na História moderna. E se se considera o valor geopolítico do Irã, neste momento específico, foi uma decisão transcendental. Sem dúvida, a correta e oportuna aplicação da guerra eletrônica russa, na situação iraniana, permitiu, de modo efetivo e rápido, estabilizar um país que, facilmente, poderia ter sido consumido por uma revolução colorida e um golpe de Estado, levando a uma mudança de regime, na prática, a uma monarquia sanguinária sob controle norte-americano, tal como já aconteceu no passado.
Antes de acreditar que o sistema político iraniano oprime o
povo iraniano, veja a História de seus caluniadores, como os EUA e “Israel”, um
Estado artificial, mantido para oprimir não só os povos do Oriente Médio, mas
também da África, com tentáculos em todo o continente americano, inclusive, por
meio de seitas evangélicas neopentecostais que nada têm a ver com cristianismo.
Você decide... se fica a favor da soberania da República Islâmica do Irã que continua lutando, ou se prefere que o imperialismo estadunidense instaure, no país, uma monarquia sanguinária...
(Editor: Nilson Dalledone nilsondalledone@gmail.com Fontes russas e iranianas).
O Irã está na ordem do dia. As pessoas gritam e acusam, ou
usam a ironia, para intimidar interlocutores divergentes, reais ou imaginários.
Repetem chavões: ali, dizem, está instalada uma teocracia assassina, que
“enforca mulheres em praça pública”, “empurra homossexuais do alto de prédios”
e massacra um povo oprimido.
Desculpem confrontá-los, mas isso é um delírio.
Não há “teocracia assassina”. O sistema político iraniano
combina múltiplas instâncias, leigas e religiosas, eleitas pelo voto direto e
indicadas pelo clero xiita. A política depende de um permanente equilíbrio
entre instituições diferentes.
A Presidência da República é eleita pelo voto direto, com
mandatos de quatro anos, com a possibilidade de uma reeleição. Há alternância
de poder. Em cada eleição, o leque de alternativas oferecido ao eleitorado
iraniano é muito maior do que os dois eternos candidatos – o democrata e o
republicano – que se se apresentam monotonamente aos eleitores americanos.
Funcionam dezenas de associações políticas, mas as eleições
costumam ser disputadas por candidatos individualmente, o que me parece muito
melhor. O atual presidente é um cirurgião cardíaco, proeminente integrante da
comunidade científica do país. Não é político profissional e nem era o candidato
preferido do estamento religioso.
O Parlamento iraniano também é eleito pelo voto direto. São
290 deputados com mandatos de quatro anos. A presença feminina é significativa.
Armênios cristãos, assírios, caldeus, judeus e zorotastrinianos têm cadeiras
reservadas.

O clero xiita intervém no sistema político a jusante e a
montante desses órgãos, como poder regulador.
O líder supremo, vitalício, é escolhido pelo estamento
religioso. O presidente da República cuida dos assuntos de governo e o
Parlamento elabora leis, enquanto o líder supremo cuida dos assuntos de Estado,
que incluem a política externa e o controle da principal força armada do país,
a Guarda Revolucionária. É a última instância, no sentido de Carl Schmitt.
Assume pleno poder em situações de crise.
Todos os candidatos a cargos eletivos devem ser aprovados pelo chamado “conselho de guardiães”, formado por seis clérigos islâmicos (indicados pelo líder supremo) e seis juristas leigos (indicados pelo Parlamento). O conselho pode vetar candidatos. Sua atuação é pública e permite recursos.
![]() |
| O Parlamento do Irã aprovou nesta terça-feira (07/01) por unanimidade um projeto de lei que classifica o Exército dos EUA e o Pentágono como organizações terroristas. |
Nenhum cargo no Irã é decorativo. A política se faz pela
busca de um permanente compromisso entre todas as instâncias. Há uma sociedade
civil forte e atuante.
As mulheres não são “enforcadas em praça pública”. São maioria nas universidades, inclusive nas chamadas “ciências duras”, como matemática, física e engenharia. O uso da burka é residual e o do lenço é optativo. As cidades iranianas estão cheias de mulheres de cabelos soltos.
Comumente, homens e mulheres jovens moram juntos por
períodos longos antes de decidir se querem se casar.
Também nas democracias ocidentais, instâncias não eleitas,
como as cortes supremas, intervêm na ação dos governos, em defesa de um pacto
considerado permanente, chamado Constituição, que teve origem mais ou menos
longínqua na delegação popular.
No Irã, o pacto considerado permanente, a ser defendido, é
o Islã, uma religião sem sacramentos, sem sacerdócio, sem altares, que aspira a
ser uma atitude vital que tudo abarca, fundindo religião, moralidade, costumes,
cultura e política. A confissão de fé, a oração ritual, a caridade, o mês de
jejum e a peregrinação são os seus cinco fundamentos. Não há música solene,
cantos, velas, procissão, imagens ou dramas sacros. Todos participam de maneira
ativa da oração comunitária. Um leigo respeitado pode dirigir a oração. O
direito é consuetudinário, como na Inglaterra.
Cada jeito corresponde à história e à cultura de cada país.
A minha preferência pelo pacto constitucional, que corresponde à nossa história
e à nossa tradição, não me leva a odiar e demonizar os iranianos.
É preciso ser um débil mental para acreditar que o povo
persa, com seus 5.000 anos de história, deseja que Estados Unidos e Israel bombardeiem
seu país e destruam suas instituições.
Quando olhado de perto, o funcionamento do sistema político
iraniano provavelmente apresenta muitas falhas. Depois de muitos anos de
duríssimas sanções econômicas, há um cansaço e uma insatisfação difusa na
sociedade.
E nos Estados Unidos, isso não acontece? E no Brasil? Com
quanto cansaço, quanta insatisfação, convivemos? Quanto tempo aguentaremos se
uma grande potência decidir nos desestabilizar?
Vamos ao grão. A economia americana não poderá funcionar, tal
como existe, sem hegemonia político- militar sobre o mundo. Enfrentará um
empobrecimento que levará o país à guerra civil.
Mas o mundo em que um só país controla a moeda, a energia e
o poder militar está terminando. O Irã é o hub de um megaespaço asiático de
energia, nascente, completamente desdolarizado. Se ele se consolidar, a espiral
de endividamento que sustenta a economia americana deixará de funcionar, pois o
dólar perderá os seus privilégios. Será o fim de uma era.
A elite americana sabe bem disso. Tornou-se uma poderosa força anticivilizatória. Cada vez mais, sua política externa usa o terrorismo, o jihadismo, o neonazismo, o paramilitarismo e grupos afins como peões, sem limites. Cada vez mais, multiplica guerras, instabilidades e tensões, enquanto se apresenta, no mundo encantado dos meios de comunicação, como bastião da democracia e das liberdades. É o reino da mentira e do crime. Se essa elite não for contida, produzirá a Terceira Guerra Mundial.
Ao defenderem a desestabilização e, agora, o bombardeio do
Irã, vocês estão defendendo um império cujo tempo passou.
(FB de Cesar Benjamin em 15 de janeiro de 2026)
O IRÃ
ENTRE PROTESTOS SOCIAIS E OFENSIVA GEOPOLÍTICA: GUERRA HÍBRIDA E RESISTÊNCIA À ORDEM
IMPERIAL
Manu Pineda*
As ações lançadas pelos Estados Unidos
e por "Israel" contra o Irã nada mais são do que uma guerra híbrida
que combina pressão econômica, operações secretas, manipulação de informações e
apoio a atores políticos aliados.
Os protestos sociais que ocorrem no Irã têm uma origem
real, concreta e legítima. Uma parcela significativa da população sofre com
dificuldades econômicas, escassez de produtos, pressão inflacionária e
dificuldade em suprir suas necessidades básicas.
Essas condições estão intimamente ligadas a décadas de
sanções econômicas, bloqueio financeiro e isolamento internacional impostos
pelos Estados Unidos e seus aliados, que impactaram severamente a sociedade
iraniana. Mesmo assim, a existência de pressões externas não elimina o direito
dos cidadãos de exigir respostas, soluções e políticas eficazes de seu próprio
governo. O protesto social faz parte da vida política de qualquer sociedade, e
expressar insatisfação com a falta de melhorias materiais é um exercício
legítimo de participação.
A população iraniana está ciente de que muitas de suas
dificuldades têm causas externas, mas também percebe limitações internas para
resolvê-las. Nesse contexto, surgem mobilizações como expressões do
descontentamento cidadão com problemas cotidianos relacionados à inflação, ao
emprego, aos serviços públicos e às perspectivas futuras. Esses protestos têm
uma base social real. Contudo, sua evolução demonstra como esse
descontentamento tem sido usado como instrumento de desestabilização por
potências externas com objetivos estratégicos bem definidos.
Em junho do ano passado, Israel e os Estados Unidos
lançaram uma agressão militar direta contra o Irã, conhecida como a
"Guerra dos Doze Dias". Washington participou ativamente do
bombardeio do território iraniano, confirmando que esta não foi uma ofensiva
impulsionada apenas por uma aliança formal, mas sim uma ação coordenada. Essa
agressão não alcançou seus objetivos políticos e estratégicos. Não enfraqueceu
decisivamente o Estado iraniano, não alterou o equilíbrio de poder regional nem
provocou o colapso interno que esperavam.
Desde então, a estratégia evoluiu para uma segunda fase, visando alcançar indiretamente o que não pôde ser obtido por meios militares diretos. Os protestos atuais fornecem o contexto ideal para relançar essa ofensiva sob um disfarce diferente, revestida de retórica humanitária e uma suposta preocupação com os direitos humanos. Trata-se de uma guerra híbrida que combina pressão econômica, operações secretas, manipulação da mídia e apoio a atores políticos aliados.
O Irã ocupa uma posição central no equilíbrio geopolítico
do Oriente Médio e do Oriente Próximo. Suas capacidades militares, influência
política e autonomia estratégica atuam como um freio aos planos de Israel de
dominação regional. Para Israel, a existência de um Irã soberano, com suas
próprias alianças e capacidade de dissuasão, constitui o principal obstáculo à
imposição de sua hegemonia sem contrapesos. Por essa razão, o objetivo de
enfraquecer o Estado iraniano faz parte de uma estratégia estrutural.
A entidade sionista israelense não possui a força
necessária para impor uma mudança de regime no Irã por conta própria. Para
tentar isso, precisa do apoio político, militar e midiático dos Estados Unidos.
Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, essa aliança foi ainda mais
fortalecida. A política externa americana passou a priorizar a pressão máxima,
a retórica agressiva e o apoio incondicional à agenda israelense na região.
Nesse contexto, os protestos no Irã se tornam uma oportunidade para apresentar
uma narrativa de colapso interno, repressão em massa e suposta ilegitimidade do
governo iraniano, abrindo caminho para uma intervenção mais agressiva.
A construção dessa narrativa se baseia em uma intensa
campanha midiática internacional. Grandes veículos de comunicação, plataformas
digitais e organizações que se apresentam como defensoras dos direitos humanos
divulgam números crescentes de mortes sem apresentar provas verificáveis,
investigações independentes ou registros documentais. Centenas ou milhares de
mortes são mencionadas casualmente. Esses números circulam como fatos
comprovados, mesmo sem laudos periciais ou listas oficiais que os corroborem.
Uma parte central dessa narrativa vem de uma organização
não governamental sediada na Virgínia, um estado historicamente ligado às
agências de inteligência dos EUA. Declarações emitidas por essa organização
atribuem a repressão em massa ao governo iraniano, com base em relatos
indiretos e fontes não verificadas. A falta de provas documentais não impede
que esses números sejam divulgados pelos principais veículos de comunicação
internacionais como se fossem fatos comprovados.
Em contraste com esses números inflados, existem fatos
verificáveis: mais de 200 policiais morreram durante os distúrbios — policiais
com nomes, sobrenomes, fotografias e famílias identificadas. Esses dados
mostram que a violência não foi unidirecional. Em inúmeros casos, os protestos
escalaram para confrontos armados. Infraestrutura pública, hospitais, clínicas,
ambulâncias, veículos e quartéis de bombeiros foram atacados e incendiados por
grupos de indivíduos mascarados com treinamento militar, agindo com alto grau
de coordenação. Essa dimensão do conflito é frequentemente obscurecida pela
narrativa dominante.
Israel também não esconde seu envolvimento direto.
Autoridades israelenses de alto escalão reconheceram publicamente a atividade
do Mossad em território iraniano e dentro de redes de oposição. A presença de
serviços de inteligência estrangeiros e grupos paramilitares entre os
manifestantes confirma que a situação tem sido usada como ferramenta de
desestabilização política. O objetivo é amplificar o descontentamento social e
transformá-lo em um processo de colapso institucional que leve a uma mudança de
regime favorável aos interesses de Israel e dos Estados Unidos.
Nesse contexto, a figura de Reza Pahlavi, filho do último
Xá da Pérsia, reaparece. Pahlavi deixou o Irã em 1978 e vive nos Estados Unidos
há 47 anos. Sua existência política e econômica está ligada à riqueza acumulada
pela monarquia iraniana antes da Revolução Islâmica, uma fortuna construída por
meio do saque de recursos públicos e da corrupção de uma ditadura apoiada por
potências ocidentais.
O regime do Xá foi responsável por uma repressão sistemática
baseada em tortura, censura e perseguição da oposição política. A polícia
política, SAVAK, operava com métodos brutais e cometia graves violações dos
direitos humanos. Reza Pahlavi é um herdeiro direto desse sistema. Mesmo assim,
ele tenta se apresentar como uma alternativa democrática, respeitosa das
liberdades e comprometida com os direitos humanos, com o apoio da mídia
ocidental e de círculos políticos em Washington e Tel Aviv.
Pahlavi anunciou publicamente que, se chegar ao poder, uma
de suas primeiras medidas será estabelecer relações diplomáticas com Israel e
reconhecê-lo como um Estado, aderindo aos Acordos de Abraão. Essa postura
confirma seu alinhamento com a agenda regional israelense e americana. Sua
figura se encaixa no modelo da oposição no exílio: um líder distante da
realidade social do país, sem base popular interna, mas útil como a face
política de uma potencial mudança de regime supervisionada do exterior.
O governo da República Islâmica do Irã cometeu erros,
alguns deles muito graves. Há restrições significativas às liberdades das
mulheres, limitações à sua autonomia pessoal e social, e marcos legais que
geram discriminação. Também houve repressão contra movimentos de esquerda,
sindicatos e setores da classe trabalhadora que reivindicam direitos
trabalhistas e participação política. Essas práticas merecem a crítica mais
veemente e contundente de uma perspectiva democrática e social.
Mas não nos enganemos: a ofensiva contra o Irã pelos Estados Unidos, "Israel", e seus aliados internacionais não é motivada por esses erros nem por uma preocupação genuína com o respeito aos direitos humanos no Irã. Ela é motivada por seus sucessos estratégicos : o Irã tem defendido consistentemente a causa palestina contra a ocupação israelense; apoiado o eixo da resistência ; participado ativamente de fóruns multilaterais como o BRICS; desenvolvido alianças políticas, econômicas e estratégicas com a China, a Rússia e a Venezuela ; e demonstrado seu firme compromisso em manter uma política externa soberana diante das potências coloniais e imperialistas que fizeram das ameaças, da agressão e da intimidação seus meios de tentar dominar o mundo.
Se os Estados Unidos e Israel derrubassem a República
Islâmica do Irã e impusessem um governo fantoche, as alianças anti-hegemônicas,
anti-imperialistas e multilaterais no cenário internacional seriam
drasticamente enfraquecidas. Seu objetivo não é melhorar as condições de vida
do povo iraniano, mas sim desmantelar um projeto político que desafia a ordem
geopolítica estabelecida.
Esse padrão já havia sido aplicado na Síria. Os protestos
sociais iniciais, ligados a problemas econômicos e reivindicações políticas,
foram rapidamente cooptados. Construiu-se uma narrativa de repressão em massa,
apoiada pelos chamados "Capacetes Brancos", apresentados como
socorristas humanitários. Com o tempo, ficou claro que eles operavam em áreas
controladas por grupos ligados à Al-Qaeda e que sua principal função era
produzir material de propaganda para legitimar a intervenção estrangeira.
Na Síria e no Irã, um padrão de guerra de informação está
em curso. Uma narrativa emocional é construída, centrada em imagens chocantes,
números inflados e relatos unilaterais. Essa narrativa visa gerar indignação
internacional, justificar sanções mais severas, isolar diplomaticamente o país
alvo e abrir caminho para uma intervenção direta ou indireta. A população local
fica presa entre seus problemas reais e uma manipulação externa que exacerba a
instabilidade.
Defender os direitos do povo iraniano significa reconhecer
seu direito de protestar, exigir melhorias e clamar por soluções. Significa
também rejeitar o uso desse descontentamento como pretexto para uma operação de
mudança de regime orquestrada do exterior. A experiência histórica demonstra
que tais intervenções não trazem democracia ou bem-estar, mas sim destruição,
fragmentação social e perda de soberania.
O Irã encontra-se no centro de uma disputa global. Sua resistência à subordinação, seu apoio à Palestina, suas alianças estratégicas e seu papel na resistência regional explicam a intensidade das campanhas contra o país. Compreender essa realidade exige análise crítica, rigor político e uma abordagem pedagógica que distinga entre protesto legítimo e manipulação geopolítica.
*Manu Pineda - Ativista e político espanhol, filiado à Esquerda Unida e ao Partido Comunista da Espanha. Membro do Parlamento Europeu (2019-2024)








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