4 de jul. de 2026

A FÁBRICA DA DISSIDÊNCIA (parece uma coisa ultrapassada ? Pois é, SQN)

                                               

  O ataque de Anna Bensi a Gerardo Hernández e a construção da oposição cubana por parte de Washington.

Por Federica Cresci, Cuba Mambí – Grupo de Ação Internacionalista

Nos últimos dias, uma jovem influenciadora cubana, Anna Bensi, ficou no centro de uma polêmica com Gerardo Hernández, um dos Cinco Heróis Cubanos. A jovem, conhecida nas redes sociais por suas posições anticubanas e anticastristas, foi rapidamente promovida pelos principais meios de comunicação do exílio cubano em Miami e apoiada pelos setores políticos que, há anos, impulsionam a oposição ao governo de Havana.

A controvérsia surgiu a partir de acusações dirigidas contra Gerardo Hernández e logo se tornou um caso midiático. Além da polêmica em si, o episódio oferece uma oportunidade para refletir sobre um fenômeno muito mais amplo: o papel desempenhado pela mídia, pelas organizações e pelos programas financiados pelos Estados Unidos na construção da oposição cubana nas últimas décadas.

De fato, essa última polêmica entre Anna Bensi e Gerardo Hernández remete a um mecanismo político que opera há mais de sessenta anos contra a Revolução cubana e que continua se reproduzindo com rostos, instrumentos e linguagens diferentes.

A influenciadora em questão é apresentada como uma voz espontânea da oposição cubana. Cada um é livre para acreditar nisso. O que não pode ser ignorado é o contexto em que sua imagem é construída, promovida e amplificada.

                                      

Há décadas, o governo dos Estados Unidos financia programas destinados a influenciar a vida política cubana. Não se trata de acusações nem de teorias. Trata-se de documentos oficiais. Por meio da USAID, da NED, do Departamento de Estado e de outras estruturas federais, Washington destinou centenas de milhões de dólares a projetos voltados para a chamada “mudança democrática” em Cuba.

Somente em 2024, a USAID destinou 2,3 milhões de dólares a programas de mídia voltados para Cuba. A Reuters documentou que a CubaNet, uma das principais plataformas que promovem conteúdos da oposição cubana, recebeu 500 mil dólares para alcançar os jovens cubanos da Ilha por meio de conteúdos multimídia.

A National Endowment for Democracy continua financiando programas voltados para meios de comunicação, ativistas e organizações que atuam contra o sistema político cubano. A Rádio Martí e a TV Martí, apresentadas há anos como instrumentos de informação independente, são, na verdade, estruturas financiadas diretamente pelo governo dos Estados Unidos e continuam recebendo dezenas de milhões de dólares em recursos públicos.

Essa estratégia não pertence ao passado. Enquanto a mídia e os influenciadores da oposição são promovidos como vozes espontâneas da sociedade cubana, Washington continua utilizando abertamente seu poder diplomático contra a ilha. Justamente nestes dias, um telegrama do Departamento de Estado, revelado pela revista The Nation e atribuído a diretrizes do secretário de Estado Marco Rubio, mostra a tentativa dos Estados Unidos de pressionar governos de todo o mundo para impedir o debate solicitado por Cuba na Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o bloqueio econômico.

Segundo o documento, as embaixadas americanas receberam instruções para incentivar os países aliados a não atribuir a crise cubana às sanções e ao bloqueio, e para neutralizar as posições favoráveis à ilha. Aos governos que tradicionalmente apoiam Cuba na ONU também é dirigida uma clara advertência diplomática: evitar declarações que possam gerar atritos com Washington.

Não estamos diante de uma simples controvérsia diplomática. Estamos diante da confirmação de que a pressão contra Cuba é exercida simultaneamente nos âmbitos econômico, midiático, político e internacional.


A história é longa. Houve a Rádio Martí e a TV Martí. Houve programas de financiamento a grupos de oposição. Houve o ZunZuneo, a rede social criada secretamente pela USAID para influenciar a sociedade cubana. Houve programas de infiltração no cenário cultural e musical da ilha. Houve operações, financiamentos, campanhas midiáticas e pressões diplomáticas que se sucederam sob governos republicanos e democratas, sem diferenças substanciais.

Os presidentes mudam. A política em relação a Cuba não muda.

Nesse contexto, Anna Bensi não representa nenhuma novidade. Ela representa uma continuidade.

Antes dela, a mesma operação foi realizada com outras figuras da oposição cubana. Ao longo dos anos, a mídia ocidental e as organizações apoiadas pelos Estados Unidos promoveram figuras como Oswaldo Payá, Yoani Sánchez, Guillermo Fariñas, Berta Soler e as Damas de Branco, José Daniel Ferrer, Luis Manuel Otero Alcántara e muitos outros.

 Sempre se falava do novo rosto da liberdade cubana, do novo líder destinado a conduzir a mudança política na ilha, do símbolo capaz de representar o povo cubano diante da Revolução. Os nomes mudam, mas o mecanismo permanece idêntico.

Também na Itália essa operação de legitimação política encontrou apoios institucionais concretos. Em 2009, Pietro Marcenaro, dirigente do Partido Democrático e presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, apontou Raúl Rivero, Oscar Espinosa Chepe, Vladimiro Roca, Elizardo Sánchez, Oswaldo Payá e Manuel Cuesta Morúa como protagonistas da batalha democrática contra Cuba.

Nos anos seguintes, sob a presidência de Luigi Manconi na mesma Comissão, figuras da oposição cubana continuaram encontrando espaço e visibilidade nas instituições italianas. Enquanto Washington financiava programas de mudança de regime por meio da USAID, da NED, da Rádio Martí e de outras estruturas dedicadas à desestabilização de Cuba, uma parte da política italiana oferecia reconhecimento e legitimidade aos protagonistas dessa mesma estratégia.

Hoje é a era dos influenciadores.

As redes sociais substituíram as antigas ferramentas de propaganda, mas a lógica continua a mesma.

É nesse contexto que o ataque contra Gerardo Hernández adquire um significado particular.

Gerardo Hernández não construiu sua autoridade por meio do TikTok, do Facebook ou de campanhas na mídia. Ele a construiu passando pelas prisões estadunidenses e pagando pessoalmente o preço de suas convicções políticas.

Por mais de dezesseis anos, ele ficou preso nos Estados Unidos como parte do caso dos Cinco Cubanos. Enquanto Washington financiava programas, meios de comunicação e organizações dedicados à mudança do sistema político cubano, Gerardo pagava com sua liberdade por uma história que milhões de cubanos consideram parte da defesa de sua soberania nacional.

Alguns ficam famosos porque são promovidos. Outros tornam-se verdadeiramente respeitados porque estão dispostos a pagar pessoalmente o preço de suas ideias.

A diferença entre uma notoriedade construída com dinheiro e a autoridade moral nascida da dignidade está precisamente aí.

É por isso que o caso de Anna Bensi não conta apenas a história de uma jovem influenciadora. Conta a história de uma máquina política que, há mais de sessenta anos, investe dinheiro, estruturas, meios de comunicação e recursos para construir uma oposição eficaz aos interesses dos Estados Unidos em Cuba.

Os nomes mudam. A estratégia continua a mesma.

Artigo publicado no blog Cuba Mambí: https://cuba-sbloqueando.blogspot.com


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