O Comandante-em-Chefe da Revolução sempre distinguiu entre o cidadão estadunidense — que ele reconhecia como nobre e capaz de agir com justiça — e as políticas imperiais de seus governos, responsáveis pelo bloqueio e pela agressão contra Cuba. Essa coerência norteou as reaproximações com Kennedy, Carter e Clinton, e permaneceu mesmo quando ele ofereceu ajuda médica ao povo americano após o furacão Katrina.
Autor: Jorge Enrique Jerez Belisario | internet@granma.cu
Como convicção forjada no próprio âmago da Revolução, existe uma linha divisória que o Comandante-em-Chefe traçou com a precisão de um arquiteto e a firmeza de um estadista. Para Fidel, a distinção entre o povo americano e as políticas imperialistas de seus governos era um pilar ético e intelectual sobre o qual se baseou sua relação com o vizinho do norte por mais de seis décadas. Não foi por acaso que ele escolheu se hospedar no Hotel Teresa, entre as pessoas mais pobres da Nova York dos anos 1960, quando lhe foi negada hospedagem na Big Apple.
"Nossa luta não é e nunca será contra o povo dos Estados Unidos", disse ele certa vez, e isso resume a coerência dos princípios da Revolução. Fidel não apenas distinguiu o governo de seus cidadãos; ele estabeleceu com o cidadão estadunidense um laço de respeito e fraternidade que desafiava a lógica, até mesmo a da Guerra Fria.
“Talvez em nenhum outro país os cidadãos estadunidenses sejam recebidos com o respeito e a hospitalidade que recebem em Cuba”, afirmou. Não era retórica: era a constatação de um fato que a propaganda inimiga jamais poderia negar. Ele conhecia a história e a psicologia do povo estadunidense. Sabia que eles podiam ser enganados e levados a causas injustas, mas também que, ao conhecerem a verdade, sua nobre essência se inclinava para a justiça. Isso ficou demonstrado, recordou Fidel, quando 80% dos cidadãos estadunidenses apoiaram o retorno do menino Elián González à sua família e à sua pátria.
Em suas reflexões, Fidel sempre foi enfático ao apontar quem era o responsável pela disputa. Ele nunca culpou o povo estadunidense. A responsabilidade, insistia ele, recaía sobre um sistema que "gera egoísmo, arrogância e comportamento prepotente, e que concebe governos quase exclusivamente para manter e expandir um vasto império".
Essa distinção era, para ele, essencial para a luta de Cuba e para a paz mundial. Ele definiu a disputa com os EUA como "a retumbante e persistente recusa" dos governos estadunidenses em respeitar o direito soberano do povo cubano. Mas essa recusa não diminuiu sua fé no povo: ele acreditava firmemente que eles eram "os únicos que podem conter e impor restrições aos fanáticos do poder, da arbitrariedade e da guerra".
Ao contrário do que por vezes se acredita, o diálogo não é um desenvolvimento recente. Foi uma característica constante da política externa cubana, forjada nos bastidores da confrontação, desde os contatos secretos iniciados por John F. Kennedy após a Crise dos Mísseis de Cuba — interrompida pelo seu assassinato em Dallas — até aos progressos alcançados pela administração Carter, quando foram firmados acordos sobre migração, pesca e fronteiras marítimas, e as Seções de Interesses foram abertas. Durante esses anos, as trocas acadêmicas, desportivas e culturais aumentaram, e realizaram-se conversações privadas que demonstraram que a compreensão baseada no respeito mútuo era possível.
Na década de 1990, com Bill Clinton na Casa Branca e a mediação de Gabriel García Márquez, novas reaproximações ocorreram. Cuba estendeu um ramo de oliveira, chegando a oferecer informações sobre redes terroristas que operavam contra a Ilha a partir de território dos EUA. Mas a resposta de Washington, em vez de desmantelar os criminosos, foi perseguir fontes cubanas; contudo, Fidel nunca fechou as portas.
Essa disposição permaneceu mesmo durante os momentos mais intensos do confronto. Quando o furacão Katrina devastou a Costa do Golfo em 2005, Fidel imediatamente se ofereceu para enviar mais de mil médicos e 36 toneladas de suprimentos; o governo de George W. Bush rejeitou a ajuda, mas o gesto serviu como prova irrefutável de que a solidariedade cubana com o povo estadunidense não conhece bloqueios nem ressentimentos.
Por isso, quando Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a restauração das relações em 17 de dezembro de 2014, Fidel escreveu em uma de suas reflexões que "qualquer solução pacífica e negociada para os problemas entre os Estados Unidos e os povos [...] que não envolva força ou o uso da força deve ser tratada de acordo com os princípios e normas internacionais".
Essa é a grandeza do pensamento de Fidel: a mão estendida, não a ingenuidade. A coerência estratégica da soberania e a flexibilidade tática do diálogo. Lidando com dez administrações estadunidenses, sobrevivendo a mais de 600 tentativas de assassinato, Fidel manteve a porta aberta para o povo do Norte, jamais cedendo seus princípios ao poder imperial. Porque, como Martí nos ensinou, os direitos não se imploram: constroem-se com leis, com dignidade e, quando necessário, com a certeza de que a paz é sempre preferível à guerra, mas nunca à custa da pátria.
Da mesma forma, a solidariedade do povo estadunidense com Cuba é inestimável. Suas contribuições para as guerras de independência da ilha, as inúmeras manifestações de apoio em diferentes momentos da Revolução à justa causa do povo cubano e a luta contra o bloqueio demonstram que, além das posições políticas, merecemos um futuro em que nossos povos possam trocar experiências e se beneficiar do melhor dos dois mundos em seu desenvolvimento. Essa foi, e continua sendo, uma das maiores lições de Fidel.
https://www.granma.cu/mundo/2026-07-04/la-sabia-distincion-de-fidel-03-07-2026-22-07-54


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