10 de jul. de 2026

GRACIELA RAMIREZ: "NÃO SE PODE ANALISAR A ECONOMIA CUBANA SEM FALAR DO BLOQUEIO."

                                                                                                     

      A jornalista argentina radicada em Cuba analisa as novas reformas econômicas aprovadas por Havana, o impacto diário das sanções americanas e o custo humano de uma política que condiciona o cotidiano de milhões de pessoas.

Cuba enfrenta uma nova fase econômica em um dos momentos mais complexos das últimas décadas. A Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um pacote de reformas econômicas e sociais com 176 propostas agrupadas em 23 áreas de ação, visando intervir em setores-chave como agricultura, energia, transporte, comércio exterior e turismo.

Mas qualquer análise da economia cubana, alerta Graciela Ramírez, permanece incompleta sem considerar o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos. Essa é uma política que Washington mantém há mais de seis décadas e que a Assembleia Geral das Nações Unidas tem reiteradamente solicitado o seu levantamento.

Quem é Graciela Ramírez?

Graciela Ramírez é uma jornalista argentina radicada em Cuba, especializada em Direito e Gestão Empresarial. Diretora do escritório da Resumen Latinoamericano em Havana e chefe da seção de Imprensa Cubana da Resumen Latinoamericano, ela analisa nesta entrevista as novas reformas econômicas implementadas pelo governo cubano, o impacto do bloqueio dos EUA e suas consequências diretas no cotidiano da população.

O bloqueio dói profundamente no dia a dia, na vida diária das famílias, nas coisas mais básicas: quando se tem filhos, pais idosos ou um ente querido doente.

Nesta conversa com  o Contraplano , Graciela Ramírez situa as reformas num cenário de forte pressão externa, argumenta que o bloqueio permeia toda a economia cubana e dá exemplos concretos do seu impacto na alimentação, saúde, transporte, energia e acesso a produtos básicos.

Cuba acaba de aprovar novas reformas econômicas em meio a enorme pressão externa. Até que ponto qualquer mudança interna na ilha pode ser analisada sem levar em conta o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos?

Esta é uma importante proposta de medidas econômicas, muitas das quais já haviam sido discutidas nas Diretrizes Econômicas de alguns anos atrás e que, por diversos motivos, não puderam ser implementadas na época. Mas não se pode analisar a economia cubana sem mencionar o bloqueio. Para mim, ele é o principal obstáculo ao desenvolvimento do país. Permeia absolutamente tudo.

Cuba tem sido submetida a essa política por mais de seis décadas. Nenhum outro país vivenciou uma situação semelhante por tanto tempo, especialmente diante da nação mais poderosa do mundo e de seu vizinho mais próximo, a apenas 145 quilômetros de distância. Desde o triunfo revolucionário de 1959, Washington implementou medidas para minar a economia cubana.

O memorando de Lester Mallory, de abril de 1960, deixou claro o objetivo dessa política: provocar dificuldades econômicas, privações materiais, fome e desespero para quebrar o apoio interno à Revolução. Esse espírito permanece, agora exacerbado por leis extraterritoriais como as Leis Torricelli e Helms-Burton, que estendem as sanções para além das fronteiras dos Estados Unidos.

De fora, a crise cubana é frequentemente discutida sem mencionar o bloqueio. Vivendo lá, como essa política de sufocamento é sentida no dia a dia: em relação à alimentação, medicamentos, transporte, energia ou acesso a bens básicos?

O confinamento é profundamente doloroso no dia a dia, na vida diária das famílias. É perceptível nas coisas mais básicas: quando se tem filhos, quando os pais precisam de cuidados ou quando um ente querido está doente.

Você percebe isso quando uma geladeira quebra e você não consegue encontrar uma peça de reposição. Quando uma pessoa diabética não tem seus kits de insulina. Quando uma família precisa de uma cadeira de rodas para um parente idoso e não consegue comprar ou alugar uma porque não estão disponíveis. Já vi pessoas entrarem em um hospital levando uma senhora idosa em uma cadeira, vinda de casa.

Isso também fica evidente em situações tão complexas quanto as fraldas geriátricas, que muitas vezes acabam sendo feitas de forma rudimentar com tecidos velhos ou materiais improvisados. Cuba já produziu a maior parte dos medicamentos necessários à sua população, mas hoje não consegue garanti-los em muitos casos.

A falta de suprimentos afeta cirurgias, tratamentos de hemodiálise, quimioterapia, vacinação infantil, cuidados básicos com feridas e até mesmo materiais para suturas. Isso causa imenso sofrimento tanto para as famílias quanto para os profissionais de saúde, que sabem qual tratamento administrar, mas nem sempre dispõem dos recursos necessários.

O transporte público é extremamente precário. As pessoas percorrem longas distâncias de bicicleta, ciclomotor, triciclo ou a pé. E os apagões, também causados ​​pelo bloqueio de energia, podem durar mais de 24 horas. Se a energia volta às três da manhã, muitas pessoas se levantam para buscar água, cozinhar ou lavar roupa. É muito difícil.                                

 “Se a eletricidade voltar às três da manhã, as pessoas se levantam para buscar água, cozinhar ou lavar roupa.”

                                    


Os Estados Unidos apresentam o bloqueio como uma ferramenta política contra o governo cubano, mas suas consequências recaem sobre a população cubana. Por que você acha que uma medida que as organizações internacionais e a maioria dos Estados-membros da ONU rejeitam ano após ano continua sendo mantida?

Os Estados Unidos persistem em uma política de infligir danos massivos à população cubana, numa tentativa de quebrar o povo através da fome, da exaustão e das doenças. O objetivo é provocar uma revolta interna que ponha fim à Revolução.

Muito se fala em direitos humanos, mas o direito internacional e os repetidos apelos da grande maioria dos países nas Nações Unidas para o fim do bloqueio econômico, financeiro e comercial são ignorados. Cuba é um país pequeno com poucos recursos, mas representa um exemplo de soberania política. Manteve seus sistemas de saúde, educação e cultura mesmo sob o bloqueio.

As novas reformas do governo cubano visam abrir oportunidades econômicas, protegendo simultaneamente a soberania do país. Que espaço real para reformas Cuba tem quando grande parte de suas relações comerciais, financeiras e bancárias são limitadas pelas sanções dos EUA?

Todas as medidas adotadas visam desenvolver as forças produtivas, eliminar os entraves burocráticos e abrir possibilidades de investimento e desenvolvimento, mantendo a soberania e as conquistas da Revolução.

Essas medidas estão sendo implementadas em um contexto muito adverso, mas isso não impedirá seu avanço. À medida que forem implementadas, seu verdadeiro alcance e impacto concreto ficarão claros. No entanto, é preciso compreender que Cuba está reformando sua economia com uma parcela significativa de suas relações comerciais, financeiras e bancárias condicionadas pelas sanções dos EUA.

Muitos meios de comunicação internacionais focam-se nas dificuldades econômicas de Cuba, mas falam muito pouco sobre o custo humano do bloqueio. Acha que existe uma forma injusta ou incompleta de noticiar o que se passa na ilha?

Sim. A perspectiva da grande mídia é profundamente tendenciosa. Nesta era de crise imperialista e ascensão de novas formas de ideologia de direita e fascismo, é conveniente retratar o socialismo como um suposto fracasso econômico e ocultar as causas subjacentes que impedem o desenvolvimento da economia cubana.

A vítima é culpada pelo crime cometido pelo agressor. Mas surge uma pergunta muito simples: se o sistema cubano é tão ruim, por que não suspendem o bloqueio? Cuba entrou para a história por ter resistido a seis décadas e meia de estrangulamento econômico e ainda estar de pé.

Cuba resistiu a décadas de severa pressão econômica sem abrir mão de sua soberania política. Como essa resistência é percebida hoje pela população, especialmente pelas gerações mais jovens?

Uma parcela significativa dos jovens migrou durante esses anos de bloqueio intensificado. O custo social é muito alto para as famílias, para os jovens que partem e para a própria Revolução, que os formou como profissionais.

Mas existe também outro setor que estuda, trabalha e cria. Uma juventude que faz parte de uma vanguarda política e outra que se esforça para progredir por meio de seus próprios empreendimentos. Os jovens têm sido fortemente bombardeados nas redes sociais para romperem seus laços históricos com a Revolução, mas permanecem jovens inspirados por Martí que, mesmo sob uma forte campanha anticubana, não querem voltar a ser uma colônia dos Estados Unidos.

Se você tivesse que explicar para alguém que nunca esteve em Cuba o que o bloqueio realmente significa, além de uma palavra repetida em discursos políticos, que exemplo concreto do cotidiano você usaria?

Eu explicaria com uma imagem: o bloqueio histórico e energético é como um estranho que arromba a porta da sua casa, coloca toda a sua família contra a parede — do recém-nascido ao avô — e aperta o pescoço de cada um até sufocá-los, enquanto exige que entreguem a casa.

O mais fraco pode morrer, outro pode tentar escapar, mas toda a família resiste, protege a criança, não se ajoelha, não perde a dignidade e não perde a esperança de que a vizinhança, que sempre ajudou compartilhando não o que sobrava, mas o que tinha, levante a voz e venha em seu auxílio.

Quando dizemos que o bloqueio é um genocídio, não estamos usando um rótulo de esquerda. É uma verdade dolorosa.

HISTÓRIA  HUMANA

O caso de Natali

Graciela Ramírez também relembra uma história específica que resume o impacto humano do bloqueio. Natali, uma menina de Camagüey, começou a mancar aos dois anos de idade. Após vários exames, foi diagnosticada com um tumor maligno muito agressivo. Ela foi transferida para Havana em plena pandemia e, após diversos tratamentos, teve que amputar a perna.

A prótese disponível era rígida, pesada e causava lesões na pele. Não havia cadeiras de rodas ou muletas adequadas para crianças. Ramírez conta que tentaram comprar uma cadeira de rodas na Amazon, mas, ao inserir o endereço de entrega, apareceu a mensagem: “Desculpe, as normas de embargo impedem o envio para esse destino”.

Por fim, tiveram que pedir ajuda a um diplomata latino-americano para comprá-la em outro país e trazê-la para Havana. As muletas chegaram por meio de amigos solidários no Brasil. Natali se recuperou inicialmente, mas depois sofreu uma recaída com metástase. Ela faleceu em 1º de janeiro de 2025, aos sete anos de idade.

“Ela era uma linda garota que jamais esqueceremos. Assim como jamais esqueceremos ou perdoaremos o mal que o bloqueio dos Estados Unidos está causando a esse povo”, conclui Ramírez.                                                                                                                                                                    https://www.resumenlatinoamericano.org/2026/07/04/cuba-graciela-ramirez-no-se-puede-analizar-la-economia-cubana-sin-hablar-del-bloqueo/


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