5 de out. de 2022

UM APELO URGENTE A BIDEN : FEITO PELO SEU PRÓPRIO POVO. #MejorSinBloqueo

Este é um print da página inteira do New York Times de domingo 2/10/2022

 O povo estadunidense escreveu ao seu presidente Biden e publicou o pedido em página inteira do New York Times de domingo dia 2 de outubro. O pedido é simples : ao menos durante seis meses suspenda o bloqueio para que Cuba possa se recuperar dos danos causados pelo furacão Ian. "Somos vizinhos", reivindicam os estadunidenses. Abaixo publicamos a carta traduzida.  
                        

Um Apelo Urgente ao Presidente Biden

As sanções e o bloqueio dos EUA estão impedindo Cuba de se reconstruir após o furacão Ian.

A Administração Biden precisa agir agora mesmo para ajudar o povo cubano. O furacão Ian causou uma grande devastação. A rede elétrica foi danificada, e o sistema elétrico entrou em colapso. Mais de quatro mil casas foram completamente destruídas ou muito danificadas.

Cuba deve ser autorizada, mesmo que apenas pelos próximos seis meses, a adquirir os materiais de construção necessários para a reconstrução. Os cubanos estão enfrentando um grande revés por causa do furacão Ian.

Apesar da conhecida preparação de Cuba para desastres naturais, os danos causados por este furacão foram imensos. Na província ocidental de Pinar del Rio, famosa por sua produção de tabaco, mais de 5.000 fazendas foram destruídas. Em pequenas cidades como San Luis, 80% de todas as casas foram danificadas.

Apesar das garantias anteriores da Embaixada dos EUA em Havana de que a lei autoriza as entidades e organizações americanas a fornecer alívio e resposta a desastres, isto não é tão fácil. Para muitas organizações que desejam enviar ajuda à ilha com urgência, existem processos longos e complexos para receber licenças que muitas vezes exigem advogados caros. Além disso, a inclusão de Cuba na Lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo significa que os bancos tanto nos Estados Unidos como no exterior estão relutantes em processar quaisquer transações, inclusive doações humanitárias. A administração Trump colocou absurdamente Cuba na lista de Estados Patrocinadores do Terrorismo simplesmente por sediar as conversações de paz internacionalmente reconhecidas para a Colômbia.

É inconcebível neste momento crítico manter o bloqueio e se envolver em punições coletivas contra um povo inteiro, impedindo Cuba de comprar materiais de construção ou receber ajuda.

Presidente Biden, ponha a política da Guerra Fria de lado - mesmo que por seis meses!

O povo de Cuba é parte de nossa família - a família humana. Não deixe que as políticas antiquadas da Guerra Fria impeçam o povo amante da paz de ajudar os cubanos a reconstruir e voltar para suas casas, reconstruir a rede elétrica e ter água potável e acesso a alimentos. A hora de agir é agora!

Cuba é nossa vizinha. Os Estados Unidos não perde nada por ser um bom vizinho e permitir que Cuba se recupere totalmente deste momento trágico.

                             


https://resumen-english.org/2022/10/let-cuba-rebuild/#more-21506

Tradução: Carmen Diniz/Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba.


3 de out. de 2022

DIANTE DA CUBA VIRTUAL, A CUBA REAL : DECLARAÇÃO DA CASA DE LAS AMÉRICAS #CubaVive (+fotos e vídeo )

                                     

        Nos últimos dias recebemos muitas mensagens de amigos da Casa e da Revolução Cubana que, diante das notícias persistentes e sombrias que proliferam na mídia e nas redes, perguntam com preocupação o que está acontecendo em nosso país. Será que "o povo" e "o governo" estão realmente se confrontando? Será que Cuba é um "Estado falido" incapaz de resolver uma crise?

   O mesmo estado que eles chamam de "fracassado" convocou corajosamente, há apenas uma semana, o referendo sobre o muito avançado Código de Família. A inequívoca maioria do povo cubano o apoiou e, algumas horas depois, tornou-se lei. Antes disso, este projeto inclusivo, que era o resultado da participação popular, teve que passar por uma feroz campanha de demonização baseada em supostos preceitos morais e religiosos. Também não houve nenhuma falta de manipulação abertamente política. Nada disso impediu o triunfo do "Sim", que se refletiu de forma pálida e redutora na imprensa hegemônica.

   Coincidindo com a entrada em vigor do Código, um furacão devastador atingiu  Cuba ocidental, deixando dezenas de mortos em seu rastro nos Estados Unidos. É doloroso e difícil para qualquer país que sofra uma tal contingência, mitigar o sofrimento das vítimas, tentar se recuperar dos danos e seguir em frente.

    Para Cuba - economicamente estrangulada e caluniada por décadas - o desafio se multiplica. Somente a inegável decisão de alocar os escassos recursos do país para garantir que ninguém fique desamparado e a convicção de que somente com a participação e o apoio do povo é possível avançar, pode explicar por que estamos novamente conseguindo superar, sem deixar de pensar em ir muito mais além.

      Enquanto pessoas e organizações de todo o mundo expressaram sua solidariedade e ofereceram apoio concreto a Cuba, enquanto governos irmãos ofereceram assistência e amigos como os do The People's Forum pediram ao Presidente Biden nas páginas do New York Times para mostrar o espírito humanitário mais básico e não atrapalhar os esforços da ilha para se recuperar, outras vozes aproveitaram a tragédia para criar a opinião de que nossos problemas e as dificuldades para enfrentá-los são o resultado da incapacidade do governo cubano de lidar com eles.

Querem aproveitar o mal-estar lógico dos cidadãos privados de serviços básicos na esperança de que a natureza finalmente consiga o que tantas tentativas desesperadas de destruir a Revolução falharam em fazer. Agora politizam manifestações e protestos espontâneos, usando as redes para agitar discursos de ódio histéricos e agressivos, incitando a violência de rua, opondo-se ao menor relaxamento do bloqueio e seguindo ao pé da letra o roteiro do "golpe suave".

       Dentro de poucos dias serão sessenta anos desde a crise de outubro, talvez o momento de maior risco vivido pelo processo revolucionário, aqueles dias em que - como disse Che em sua carta de despedida - Fidel brilhou como poucos estadistas na história. Mais uma vez, o destino nos oferece a alternativa de nos rendermos à adversidade e às ameaças ou de nos impormos com imaginação e audácia. Nenhum "estado fracassado" poderia sonhar com a segunda opção; nenhuma pessoa digna a apoiaria.

      Hoje, a tantas vezes difamada Cuba está se recuperando da devastação do furacão. Em vez da repressão atribuída ao "país virtual" fabricado, no "real" as autoridades estão constantemente visitando as áreas afetadas e conversando diretamente com os cidadãos.

       Como em todas as situações difíceis, a solidariedade, o princípio básico de nossa convivência, vem à tona. Nossos amigos devem saber que a esmagadora maioria do povo se reconhece em seus líderes, participa da recuperação do país e defende o princípio que está no coração da nova Constituição aprovada em abril de 2019: "Cuba é um Estado socialista baseado no Estado de direito e na justiça social, democrático, independente e soberano".

Havana, 2 de outubro de 2022.

https://cubaenresumen.org/2022/10/03/ante-la-cuba-virtual-la-cuba-real-declaracion-de-la-casa-de-las-americas/

Tradução e Edição: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba

                                                   



Nota do Comitê: 

A  mídia oficialista daqui (claro, em outros países também) fez questão de divulgar em seus meios protestos contra a falta de eletricidade em alguns locais do país provenientes da passagem do furacão IAN. Absolutamente natural que as pessoas se irritem com tantos dias sem luz, sem ventilador, comida estragando, o cubano não é exatamente um povo submisso e paciente. Isso realmente ocorreu. O interessante e pouco honesto é não ter sido divulgado por essa mesma mídia que a população tivesse aplaudido as brigadas do setor elétrico que ali chegaram para resolver o problema. Foram mais de 40 brigadas, cerca de 500 trabalhadores eletricitários atuando diuturnamente para restabelecer a energia em TODO o país que foi a consequência do desastre natural. Parece haver uma certa parcialidade...                                      

                    



Além e apesar de toda a destruição causada pelo furacão Ian,  aqui alguns registros da solidariedade (pq não se verá em outro lugar)  que sempre permeia esse país. Com o apagão da energia, muita gente ficou sem contato porque o carregamento dos celulares se tornou difícil. a não ser nos hospitais que sempre funcionam com geradores. Ou então, com essa outra maneira que provavelmente a mídia não vai divulgar, não é? A casa da Lily, por exemplo :



                                                                                                            


E chegou a luz em minha área graças aos que não têm descansado







30 de set. de 2022

FURACÃO IAN E A CONSEQUENTE AVARIA NA ENERGIA ELÉTRICA EM CUBA #CubaVive


 Toda Cuba precisa da luz de volta. A luz que gera eletricidade e ilumina a alma. A luz que produz "o sol do mundo moral" que Cintio Vitier* nos ensinou. A luz de Cachita e de todos os santos do panteão iorubá. Luz para os faróis de Morro, Maisí e San Antonio. Luz para aqueles que sofrem as trevas e luz para aqueles cujo dever é iluminar a ilha. Devemos finalmente encontrar a luz ao final do túnel muito longo. Mas aqueles que não sabem como acender essas luzes, por favor, não joguem mais sombras.

*escritor e poeta cubano


NÃO PEDIMOS AO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS QUE NOS AJUDE A RESTAURAR OS TREMENDOS PREJUÍZOS DO FURACÃO IAN, SÓ QUE ELIMINEM O CRIMINOSO BLOQUEIO E DEIXEM DE PERSEGUIR TODAS AS NOSSAS FONTES DE INVESTIMENTOS. QUE NOS DEIXEM VIVER EM PAZ E TRABALHAR #CubaPorLaVida


27 de set. de 2022

O REFERENDO POPULAR DO CÓDIGO DAS FAMÍLIAS EM CUBA

                                   

Maria do Carmo Leite

    Em 25 de setembro de 2022, os cubanos viveram um momento transcendental na história do país, dia em que se realizou o referendo sobre o Código das Famílias. A lei, destinada a dar respostas jurídicas aos conflitos que fazem parte de discussões em esfera mundializada, foi o assunto constante de debates em escolas, locais de trabalho, redes sociais, canais de televisão e transportes. O Projeto aprovado pela Assembleia Nacional de Poder Popular foi publicado em 12 de janeiro de 2022, para dar seguimento ao processo de consulta popular entre 1º de fevereiro e 30 de abril. Mais de 78 mil pontos de encontro foram concebidos em todo o território cubano, além de 109 circunscrições especiais em embaixadas e consulados de Cuba no exterior. 

  Como resultado, cerca de seis milhões de cidadãos participaram da discussão, gerando 300 mil intervenções dos eleitores, com 434 mil propostas ao anteprojeto de lei. O matrimônio igualitário, a responsabilidade parental, a adoção, a filiação assistida e o combate à discriminação foram os temas que suscitaram a maior quantidade de sugestões. Isto, por si só, já é uma conquista. 

   Mais do que derrubar tabus e barreiras machistas, se introduziram novos conceitos compatíveis com a realidade econômico-social da Ilha, sendo possível afirmar que muitos cubanos terão agora a possibilidade de legitimar uniões de fato, com todos os benefícios legais; que outros, cuja maternidade e paternidade foram limitadas por vários motivos, terão acesso a amplas possibilidades. Mais ainda, o que se busca é comunicação entre todos os membros das famílias na busca de soluções, onde a violência de gênero seja totalmente rejeitada.

      O Código está desenhado para desmantelar estereótipos enraizados nas veias da sociedade, a herança discriminatória colonial, que foi sendo configurada historicamente por mais de quatro séculos. 

       Contudo, entre o fundamentalismo religioso e voto de “castigo”, dos que não sabem diferenciar entre a dura realidade econômica que Cuba enfrenta e os direitos contidos no código, o resultado obtido de aprovação, em torno de 66% dos votantes, significa uma vitória aos que querem o país mais feliz. 

     Por certo, a mídia hegemônica no Brasil, partindo dos valores que a sustentam, não soube diferenciar o conceito de “gestação solidária”, previsto no código, de “barriga de aluguel”. Também fingem desconhecer que a homossexualidade era considerada crime na Inglaterra e no País de Gales até 1967, na Escócia até 1980 e na Irlanda do Norte até 1982. Aliado a isso, que as relações homossexuais ainda são consideradas ilegais em cerca de 70 países e punidas com a pena de morte em outros, lembrando ainda que a Assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), somente no dia 17 de maio de 1990, retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais, declarando que "a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão". 

     A homofobia em Cuba, desde as concepções herdadas do capitalismo, não fugia à regra presente em muitos países, mas, já em 1989, uma resolução ministerial criou o Centro Nacional de Educação Sexual, que sublinha o respeito à diversidade sexual.  Na década de 1960, como foi reconhecido, o país tratou de forma imprópria as questões da sexualidade. Entretanto, durante o mesmo período, em vários países europeus, injeções eram aplicadas para curar a homossexualidade. Fidel fez, anos atrás, uma autocrítica não por ter ordenado, mas porque não se preocupou suficientemente com o que estava acontecendo. Esclarecido que Cuba cometeu erros neste campo, seria prudente sabermos quantos e quais países fizeram os progressos que a Ilha teve nas últimas décadas. 

     Por fim, a mídia finge ignorar que se somos no Brasil os campeões de crimes contra homossexuais é porque o Estado é omisso e as autoridades são cúmplices.


Cuba eleita como presidente do Grupo dos 77 mais a China #MejorSinBloqueo

                                                              

   Cuba foi eleita na última sexta-feira (23) pela primeira vez como presidente do Grupo dos 77 mais a China para o ano 2023, no âmbito da 77ª sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas.

O Diretor Geral de Assuntos Multilaterais e Direito Internacional do país caribenho, Rodolfo Benítez, indicou via Twitter que "orientar o trabalho deste amplo e diversificado grupo de consulta política não é apenas uma grande responsabilidade, mas também um reconhecimento de nossa defesa dos interesses do Sul".

Por sua vez, o Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, assegurou que é uma grande honra para o país assumir esta responsabilidade. Ele enfatizou que o G-77 é o maior e mais diversificado agrupamento das Nações Unidas (ONU) e de toda a esfera multilateral.

"Serviremos ao honroso propósito de dar voz às nações do Sul diante dos muitos desafios da ordem atual", disse ele.

Na reunião do Grupo, realizada à margem da Assembleia Geral da ONU, o Ministro das Relações Exteriores Bruno Rodríguez agradeceu ao povo e ao governo cubanos pela decisão.

O G-77 foi criado em 15 de junho de 1964. O grupo foi originalmente formado por 77 países, mas agora tem 134 membros, faz declarações conjuntas sobre questões específicas e coordena um programa de cooperação em áreas como comércio, indústria, alimentação, agricultura, energia, matérias primas, finanças e assuntos monetários.

Em 1988, o G-77 adotou o acordo para um sistema global de preferências comerciais entre países em desenvolvimento, que prevê concessões tarifárias, particularmente em produtos agrícolas e manufaturados.

Realiza uma reunião ministerial anual em Nova Iorque, e as decisões tomadas são transmitidas às delegações regionais em Genebra, Paris, Roma e Viena, após o que atividades específicas são designadas aos comitês de ação. O grupo é financiado por contribuições de seus membros.                                    

https://espanol.almayadeen.net/news/politics/1632916/eligen-a-cuba-como-presidente-del-grupo-de-los-77-m%C3%A1s-china

Tradução/Edição: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba


                                           



24 de set. de 2022

Por que o Código das Famílias cubano é acusado de ter uma "ideologia de gênero"? Porque é feminista #CodigoSi

                       

Por Giorgina Alfonso González*

   As lutas feministas contra os cânones patriarcais despertam a ira dos poderosos, que conspiram para dar novos argumentos ao patriarcado, não só de ética e teologia, mas também usando o direito e a ciência. Desta forma, a supremacia masculina (o homem branco, rico, bem sucedido, viril, sedutor) é mais uma vez legitimada e se torna a norma legal e a verdade absoluta. 

    Esta nova investida do patriarcado é uma reação desenfreada contra a força global das lutas das mulheres por seus direitos. Agora, o feminismo é confrontado com os discursos da "cultura da morte" e da "ideologia do gênero", que responde a uma oposição monolítica de dominação patriarcal, contra a perspectiva de gênero, desvalorizando-a e criando confusão sobre o Feminismo. 

  O feminismo tem uma diversidade de posições epistemológicas, políticas e ideológicas. Todas as suas correntes estão unidas na crítica ao patriarcado, o que justifica a subordinação das mulheres aos homens e naturaliza a misoginia, a homofobia, a heterossexualidade e a violência contra mulheres e meninas. Em Cuba, o feminismo tem acompanhado as mudanças sociais e políticas mais radicais. Quando falamos de contribuições feministas à Revolução Cubana, nos referimos à subversão da ordem patriarcal e falamos da subversão da ordem patriarcal: a noção de vida coletiva e solidária; a relação entre produção e reprodução em condições de igualdade para cada mulher e homem; a luta permanente pela igualdade de oportunidades para moradia, alimentação, trabalho, saúde, educação e lazer; a sexualidade plena, segura e responsável; a liberdade de assumir compromissos sociais e históricos incompatíveis com qualquer forma de exclusão ou discriminação; compartilhar tempo e espaços para o cuidado; assumir a maternidade saudável como um valor universal e o respeito pelo direito à vida com dignidade. 

    Estas exigências impulsionam as lutas feministas em nível local, regional e global. Eles possuem uma força utópica concreta contra o capitalismo patriarcal e apontam para o futuro da humanidade. O anti-feminismo surge como uma força conservadora para deter o novo horizonte histórico que está sendo reavivado em meio à crise capitalista global.

   A identificação do feminismo como "ideologia de gênero" expressa um ressurgimento do fundamentalismo patriarcal que está ligado a um processo de expansão neoliberal na sociedade de hoje. A proliferação do discurso anti-feminista não é uma coincidência, nem seu propósito é diferente da ideologia dominante. De acordo com seus porta-vozes: a verdadeira matriz do pensamento feminista e da teoria de gênero é impor, pela força, uma ideologia feminista radical inspirada na interpretação marxista da luta de classes, que busca basicamente acabar com a família tradicional propondo identidades que não sejam masculinas e femininas, e promover a sexualidade livre.

  A conversão do feminismo em "ideologia de gênero" é uma reação conservadora à mobilização progressiva em favor dos direitos das mulheres e de todas as pessoas. A defesa desses direitos é parte da luta feminista internacional contra a pobreza e pela igualdade.  

   Contra a aprovação do Código das Famílias cubano, há uma escalada fundamentalista religiosa que concorda com o conservadorismo patriarcal em dois objetivos básicos: manter sua influência em espaços de socialização (família, escola, comunidade); e ampliar sua influência na opinião pública usando a campanha "ideologia de gênero". 

   As estratégias retóricas e discursivas utilizadas contra o Código das Famílias cubano visam gerar "pânico moral" ou "terror erótico" a fim de bloquear a aprovação de normas legais contra o patriarcado, a discriminação e a inclusão de todos. 

    O discurso sobre "ideologia de gênero", do qual acusam o Código das Famílias cubano, é uma campanha ideológica conservadora contra os direitos da mulher e a diversidade sexual. A fim de tornar invisíveis as relações de poder entre os gêneros que produzem desigualdades, discriminação, exclusão e violência, naturaliza o binarismo masculino e feminino e a heterossexualidade como a única orientação sexual.

  Por trás desta retórica de "ideologia de gênero", a vida sexual plena é condenada, mas o tráfico sexual, a mercantilização do sexo, a violência baseada no gênero, o feminicídio e os atos de corrupção ficam impunes. Com uma grande dose de manipulação simbólica, a educação sexual e a cultura de respeito à diversidade são minadas. 

  A manobra conservadora contra o Código das Famílias Cubano tem um objetivo político e econômico preciso: justificar o controle sobre o corpo da mulher como objeto de prazer e mercadoria. A defesa da família tradicional significa um retorno da mulher ao lar, à esfera privada, dedicada apenas à procriação, aos cuidados e ao trabalho não remunerado. 

  A campanha contra o Código das Famílias Cubano é utilizada como mecanismo de despolitização social. A condenação do Código pelos púlpitos por ter uma "ideologia de gênero" esconde a reação conservadora patriarcal, sexista e homofóbica aos sucessos alcançados pelas mulheres cubanas em favor da igualdade e de uma vida digna para todas as pessoas. 

  Estamos enfrentando uma onda conservadora com novas máscaras patriarcais no mundo e Cuba não é exceção. Quando o Código das Famílias é acusado de ser permeado pela "ideologia de gênero", trata-se de abrir o caminho para concepções éticas e políticas que apóiam uma agenda de privatização dos direitos humanos das mulheres e da comunidade LGTBQ+. Não aceitar o Código das Famílias cubano é uma reação contra a igualdade, é aceitar privilégios, violência, exclusões e sustenta a perda de horizontes em direção a uma vida humana mais plena.

   Em vários países da região, com governos de direita e de esquerda, o patriarcado tem confiado em grupos religiosos para espalhar o pânico moral em torno de políticas de educação sexual, direitos reprodutivos e a agenda LGBTQ+. Em Cuba, no contexto do debate popular sobre a nova Constituição de 2019, muitas manifestações a favor da "família original" (=pai+mãe+filhos) e contra o casamento igualitário foram tornadas públicas a partir de posições revolucionárias e socialistas. Por quê? 

  Porque ainda prevalece a idéia de que a emancipação da mulher é alcançada além da emancipação abrangente da sociedade. Entretanto, a emancipação plena significa uma mudança cultural civilizadora, uma transformação radical da subjetividade baseada em novas formas de relações sociais e vínculos afetivos. E este é o desafio que o Código das Famílias Cubanas está sendo levado à votação.

  O aprofundamento da categoria "ideologia de gênero" como ferramenta para acentuar a rejeição do Código das Famílias Cubanas faz uma tradução apocalíptica do feminismo como teoria emancipatória, e convence com frases vazias mas repetidas que a ideologia de gênero "porá um fim aos valores familiares". Elas acusam as feministas de destruir famílias e, sob a defesa de preceitos baseados na ignorância e em falsos argumentos, endossam estereótipos da cultura machista cubana a fim de encorajar as pessoas a votar contra a aprovação do Código das Famílias.

  O discurso que fala do feminismo como "ideologia de gênero" mascara o fato de que o capitalismo é um modo de vida pervertido, onde o patriarcado é usado para maximizar os lucros, desprezando o trabalho que as mulheres fazem para sustentar a vida no dia-a-dia. O discurso anti-feminista que se esconde por trás do conceito de "ideologia de gênero" articula posições políticas e éticas retrógradas que dificultam as mudanças necessárias. 

   Diante dos argumentos que ameaçam a aprovação do novo Código das Famílias Cubanas, é urgente que todas as pessoas, instituições e grupos da sociedade civil, comprometidos com a dignidade e os direitos humanos, os enfrentem de forma ativa e coesa.


Havana, 23 de setembro de 202


*Espaço Feminista "Berta Cáceres". Instituto de Filosofia de Havana.

                                                              


https://www.resumenlatinoamericano.org/2022/09/23/cuba-por-que-le-imputan-al-codigo-de-las-familias-cubanas-tener-ideologia-de-genero-porque-es-feminista/

Tradução/Edição: Carmen Diniz/ Comitê Carioca de Solidariedadea a Cuba







23 de set. de 2022

Projeto de Lei do Código das Famílias de Cuba : um código para TODAS as famílias. #CodigoSi

                             

Carmen Diniz #

 

    Neste domingo dia 25 de setembro os cubanos vão às urnas para votar em referendo o novo Código das Famílias cubano que vai substituir, atualizar e revolucionar a norma anterior de 1975. É o primeiro Código de Família submetido a referendo popular no mundo e seus avanços são incontestáveis, sendo o estatuto que protegerá as famílias cubanas para os próximos 40 – 50 anos.

    O processo se iniciou com uma Consulta Especializada entre setembro e outubro de 2021 e após, em 12 de janeiro de 2022 com a publicação em Diário Oficial pela Assembleia Nacional do Poder Popular (órgão máximo de Cuba) do Projeto de Lei do Código das Famílias com a finalidade de submetê-lo à Consulta Popular entre 1° de fevereiro a 30 de abril de 2022. Contando com a aprovação de cerca de 62% dos participantes. De se ressaltar que o Projeto e a consulta atendem à  11° Disposição Transitória  da Constituição de 2019 que trata da família em seus artigos 81 a 89.  Participaram da Consulta 47 instituições e grupos sociais cubanos como assembleias de bairros, centros de trabalho, universidades, centros estudantis.

   O Código revoluciona o conceito de família com especial ênfase no matrimônio incorporando reformas e ampliações de direitos para que se permita, por exemplo, o matrimônio igualitário dois anos após a reforma constitucional em 2019.  Uma nova concepção de família, ampliada na qual os laços afetivos importam mais que os consanguíneos e os direitos LGBT para crianças e adolescentes sejam respeitados.

    A oposição da igreja católica ao Código tem mínima influência em Cuba pelo fato de existir um grande ecumenismo no país e o estatuto recusa o pensamento conservador e se posiciona contra a exclusão de direitos por discriminação, de acordo com os princípios constitucionais. A ideologia patriarcal estabelece desequilíbrios nas relações de poder e o Código se posiciona em dar voz a pessoas e realidades que eram silenciadas dentro da própria família.  Assim é que na Consulta Especializada os psicólogos alertaram para que as famílias não sejam espaços de opressão e sim espaços de desenvolvimento e bem estar para que “ O amor seja lei” *.

   É com esses princípios que o Código das Famílias vai a referendo popular neste domingo 25 de setembro de 2022. Trata-se de um código absolutamente inclusivo que com 11 títulos e 474 artigos amplia o conceito das famílias qualquer que seja sua estrutura ou organização para formar uma família para que se preserve: respeito mútuo, lealdade, solidariedade  e o AFETO com a finalidade de fazer felizes os que a compõem.

      Algumas inovações são especialmente incluídas:

   Mudança da denominação do Pátrio Poder**para Responsabilidade Parental . Importante ressaltar que, ao contrário das falsas informações divulgadas, os pais não perdem o controle sobre seus filhos (ver a respeito texto sobre a inominável Operação Peter Pan que tem sido divulgado para criar obstáculo ao referendo :  https://bit.ly/3dsoZMl ) . Aqui o que o código propõe é que crianças e adolescentes sejam considerados sujeitos de direitos e não propriedade dos pais. Dessa forma, não se retiram os direitos dos pais ou responsáveis, mas amplia as responsabilidades destes com o seu bem estar: as crianças e adolescentes como sujeitos de direito por eles mesmos ou através de seus pais e/ou tutores de acordo com a Convenção dos Direitos da Criança a que Cuba aderiu.

   A relação entre pais e filhos muda de um sistema de poder à responsabilidade, o direito-dever de ter os filhos consigo, cuidar, dar amor, estabilidade emocional, educar sem violência e respeitar suas características, com uma comunicação efetiva e afetiva para que se escute a criança/adolescente (menor de 18 anos) em autonomia progressiva. Como exemplo, a questão de identidade de gênero somente aos 18 anos, com a maioridade.

    Além disso, o novo Estatuto prevê  a possibilidade de qualquer pessoa poder denunciar tratamento de discriminação e violência no espaço familiar para efeitos jurídicos, de não permitir matrimônio, mesmo com autorização judicial ou dos pais, a menores de 18 anos (antes se podia meninas com 14 e meninos com 16)

   O Código das Famílias prevê a proteção à vida familiar sem desigualdade, suprimindo a prioridade da heterossexualidade e assim, o direito de TODAS as pessoas de contrair matrimônio e fundar uma família sem discriminação por qualquer condição ou circunstância pessoal.Assim sendo,matrimônio, união de fato afetiva, adoção ou reprodução assistida “Toda forma de amor vale a pena” como diria a música. Da mesma forma o divórcio passa a funcionar sem se ventilar culpa e bastando a vontade de uma só das partes do casal.

    Se fortalece o parentesco por afinidade ou seja, além da consaguinidade e da adoção se soma a reprodução assistida e a que se origina na socio-afetividade, sem depender unicamente do matrimônio, se somando o regime jurídico de mães/pais/avós/filhos afins (madrastas e padrastos), reforçado o direito/dever de comunicação a todo o grupo familiar. Surge a figura de pais e mães afins, os cônjuges ou casais afetivos que convivem ou têm a guarda com famílias reconstituídas. Ou seja, se pode ter legalmente mais de um pai ou de uma mãe por causas originárias ou supervenientes, independentemente de laços biológicos ou genéticos. A Muitiparentalidade é reconhecida judicialmente  e a filiação passa a ser por 4 tipos: procriação natural, adoção, reprodução assistida ou laços de socio-afetividade.

    Outro avanço: a gestão solidária, desde que sem remuneração, permitido entre pessoas com vínculo familiar ou afetivo.

      Outra inovação diz respeito ao sobrenome da criança; em Cuba o primeiro sobrenome é o do pai – o que já era parte da ideologia patriarcal que estabelecia desequilíbrios . Uma vez que a Constituiçao de 2019 proíbe a discriminação por gênero/ orientação sexual, como se resolveria no caso do casamento igualitário? Assim sendo, a decisão cabe aos pais da criança e não mais à lei e aos costumes.

   A referida responsabilidade parental que substitui o pátrio poder, assim como a guarda da criança, pode ser transferida a terceiros mediante escritura, o que facilita a administração da educação da criança/adolescente no impedimento dos pais biológicos.

     Frente a toda essa transformação que visa a proteção dos mais fracos na relação familiar, importante ressaltar que o reconhecimento de direitos das crianças e adolescentes implica no reconhecimento de seus deveres, em especialde respeito aos familiares e co-responsabilidade no lar.

   No que se refere aos idosos, o Código reconhece explicitamente os direitos dos avós pela transmissão de seus valores na formação das famílias. Além disso atribui valor econômico ao trabalho doméstico para quem a ele se dedica, em especial aos cuidadores familiares (idosos e pessoas com deficiência) por sua opção em renunciar a uma vida profissional própria.


        O que se pretende demonstrar com esse artigo é primeiramente elucidar alguns aspectos do novo Código das Famílias (projeto) que tem sido vítima de algumas “fake news”.Além disso é a característica de um projeto de lei que deve ser referendado pelo povo cubano, uma vez que se trata de um Estatuto Revolucionário que atende às novas mudanças sociais no planeta. Cuba mais uma vez demonstra estar à frente das mudanças e apresenta ao povo uma norma das mais modernas da atualidade. O fato de ser um país EM Revolução constante é o que permite apresentar esse cuidadoso estudo envolvendo tantos cidadãos para entender que como sempre : “Outro mundo é possível. E necessário”, segundo as palavras do grande Comandante em Chefe Fidel Castro que, certamente, aprovaria este  Código pelo bem das famílias atuais ( e futuras)

*Citação do Centro Martin Luther King, católico, Havana

** O termo Pátrio Poder tem sua origem na Roma Antiga onde a infância não tinha valor nem direitos, sendo algumas crianças trocadas ou vendidas por seu “dono”

 

Fontes: http://cuba.cu/sociedad/2022-02-23/algunas-claves-sobre-el-codigo-de-las-familias/59040

http://www.cubadebate.cu/especiales/2022/08/15/el-codigo-que-merecen-las-familias-cubanas/

http://www.cubadebate.cu/especiales/2022/08/15/el-codigo-que-merecen-las-familias-cubanas/

 

 

#Coordenadora do Capítulo Brasil do Comitê Internacional Paz, Justiça e Dignidade aos Povos e do Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba