Quando o bloqueio e a
escuridão apertam, há quem estenda a mão – mesmo que o império ameace.
Há meses que Cuba espera. Há
meses que o bloqueio aperta como nunca. Desde 9 de janeiro, nem uma gota de
petróleo entrou na ilha. Os geradores pararam. Os hospitais funcionaram com
luzes de emergência. As crianças estudaram à luz de velas. Os doentes de câncer
esperaram, em vão, por tratamentos que não chegam. O povo cubano, esse,
resistiu, como sempre resistiu. Mas até a resistência tem limites quando o
combustível acaba.
E foi nesse momento, quando o
cerco parecia fatal, que a Rússia apareceu no horizonte. Não com promessas, não
com discursos – com um navio. O Anatoly Kolodkin, um petroleiro russo com
730.000 barris de petróleo, desafiou abertamente o bloqueio dos EUA e navegou
em direção a Cuba. E, contra todas as previsões, contra a doutrina Monroe, contra
as ameaças de Trump, chegou a Matanzas.
O
gesto de Vladimir Putin
Não é a primeira vez que a
Rússia ajuda Cuba. Mas este gesto tem um significado especial. Enquanto os EUA
apertavam o cerco, enquanto Trump ameaçava com tarifas e prometia que Cuba “falharia
em breve”, Moscou fez o oposto. Enviou o que era mais necessário: combustível.
E o fez de forma declarada, humanitária e firme.
O ministro da Energia russo,
Sergey Tsivilyov, foi claro: “Estamos enviando
cargas humanitárias. Cuba encontra-se numa situação difícil como resultado da
pressão das sanções”. Não houve rodeios. Não houve hesitação. A Rússia
declarou publicamente que continuaria a ajudar a ilha, independentemente das
ameaças.
Vladimir Putin, que tem sido
retratado pelo Ocidente e parte da esquerda como o vilão de todas as histórias,
mostrou, mais uma vez, que há uma diferença entre os que falam e os que agem.
Enquanto a Europa e os EUA impõem sanções, bloqueiam, estrangulam, a Rússia
envia petróleo. Enquanto o império ameaça, Moscou age.
A
declaração de Trump (e a sua ironia)
O próprio Donald Trump, que
tantas vezes ameaçou “tomar Cuba de uma forma ou de outra”, foi forçado a
recuar. A Guarda Costeira dos EUA tinha navios na região, mas não recebeu
ordens para agir. E Trump, em declarações à imprensa, admitiu que o navio foi
“autorizado por razões humanitárias”.
“Não nos importamos que alguém
traga um barco carregado porque eles precisam de sobreviver. Prefiro deixá-lo
entrar, seja da Rússia ou de qualquer outro, porque as pessoas precisam de aquecimento.
”
É a ironia suprema. O mesmo
homem que jurou estrangular Cuba até à rendição foi obrigado a permitir que a
Rússia furasse o seu cerco. Não por generosidade, porque não podia fazer o
contrário. Interceptar um navio russo, com ajuda humanitária, em águas
internacionais, seria uma escalada que nem Trump, com toda a sua bravata,
estava disposto a enfrentar.
A
Rússia venceu, sem disparar um tiro.
A
escolta e a espera
Durante toda a viagem, a
expectativa foi enorme. O Anatoly Kolodkin viajou sob bandeira russa, escoltado
por um navio de guerra da Armada russa no Canal da Mancha. Depois, continuou
sozinho pelo Atlântico, mas sempre vigiado, não pelo império, que ameaçava, mas
pela esperança de quem, em Cuba, aguardava. Quando passou a província de
Holguín, viajando a 12,3 nós, o horizonte já se clareava. A cada milha
percorrida, a certeza crescia: o navio chegaria.
E chegou. Ao porto de
Matanzas, com 100.000 toneladas de petróleo, o Anatoly Kolodkin atracou. É o
primeiro petroleiro a chegar a Cuba em três meses. O primeiro alívio real desde
que o cerco energético foi imposto. O primeiro sinal de que a solidariedade,
quando é verdadeira, não recua perante ameaças.
O
Mundo Multipolar em ação
Este navio não é apenas um
carregamento de petróleo. É um símbolo. É a prova de que o mundo já não é
unipolar. É a demonstração de que há quem esteja disposto a enfrentar o
império, não com bombas, mas com solidariedade. É a confirmação de que Cuba não
está sozinha.
A Rússia, com este gesto, mostrou que a sua aliança com Cuba não é retórica. É prática. É um navio que atravessa o Atlântico, que desafiou o bloqueio, para chegar a Matanzas com o combustível que mantém hospitais abertos, escolas iluminadas, vidas salvas.
E Putin, que tantas vezes é
acusado de ser o grande inimigo do Ocidente, mostrou que, para os povos que
resistem, ele é um aliado. Não um aliado de discurso – um aliado de fato.
O Anatoly Kolodkin atracou em
Matanzas. O petróleo correndo para os geradores, para os hospitais, para a vida
que continua. A humilhação de Trump, que teve de autorizar o que não podia
impedir. Fica a certeza de que Cuba não se verga – e que, quando o cerco aperta,
há quem apareça no horizonte.
Fica, também, a lição: o mundo
multipolar não é uma teoria. É a Rússia enviando petróleo, é a China enviando
arroz, é o México, Brasil, Venezuela e tantos outros enviando ajuda humanitária,
são os povos se unindo contra o bloqueio.
O
abraço que atravessou o Atlântico
O Anatoly Kolodkin não é
apenas um navio. É um abraço. Um abraço que saiu da Rússia, atravessou o
Atlântico, desafiou o império, e chegou a Cuba. Não é petróleo que transporta é
a prova de que há laços que não se rompem com ameaças. É a certeza de que,
quando um povo sofre, há outro que não vira a cara.
Rússia e Cuba. Dois países separados por oceanos, unidos por uma história de luta. A União Soviética que, décadas atrás, esteve ao lado da Revolução Cubana quando o mundo a queria ver cair. Cuba que, hoje, recebe de braços abertos o que a Rússia envia – não como esmola, como fraternidade.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri
Peskov, foi claro: “A Rússia considera que é seu dever não ficar indiferente e
prestar a ajuda necessária aos nossos amigos cubanos. Em condições de um
bloqueio severíssimo, os nossos amigos cubanos precisam de produtos
petrolíferos e petróleo cru – isto é necessário para o funcionamento dos
sistemas de suporte à vida no país, para a geração de eletricidade, para
prestar serviços médicos à população”.
Há quem chame a isto
geopolítica. Nós, chamamos o que é: solidariedade. A mesma que Fidel pregou, a
mesma que Che viveu, a mesma que Stalin construiu quando mostrou que o
socialismo não se constrói sozinho. É a mão que se estende quando o império
aperta. É a certeza de que, mesmo no meio do cerco, há quem esteja do lado
certo.
A fraternidade que não se compra
A Rússia de Putin não é a
União Soviética. Mas há algo que permanece: a recusa em aceitar que o mundo
seja governado por um só. A coragem de enfrentar o império, não com bravata,
mas com atos. E Cuba, que há mais de 60 anos resiste ao bloqueio, sabe o que é
ter ao lado quem não se curva.
Este navio, é a prova de que a
fraternidade entre os povos russo e cubano não é uma frase. É um fato. É um
petroleiro que, durante a viagem, navegou escoltado. É um governo que, apesar
das ameaças, não hesitou. É um povo que, do outro lado do oceano, sabe que Cuba
não está sozinha.
O Anatoly Kolodkin atracou em
Matanzas, não foi apenas combustível que desceu para os tanques. É a certeza de
que há quem não se venda. É a prova de que a solidariedade, quando é
verdadeira, não tem preço. É um abraço entre dois povos que, apesar da
distância, estão mais unidos do que nunca.
A
certeza de quem espera
Desde o início da viagem acompanhei
o navio. Quando desligou o transponder. Quando surgiu nos radares com o destino
“Atlantis”. Quando tantos duvidaram. Nesse momento, tive a certeza: este vai
mesmo para Cuba. Não foi adivinhação. Foi a fé de quem já viu o império apertar
e, ainda assim, a solidariedade vencer. Foi a experiência de quem aprendeu, com
a vida, que quando um povo está sozinho no escuro, há sempre alguém a caminho.
A cada milha que o Anatoly
Kolodkin percorria, o horizonte clareava. E hoje, o navio chegou. Em Cuba, pelo
Mundo o Anatoly Kolodkin foi acompanhado até o fim. O império, que ameaçou,
ficou a ver.... Cuba, que esperou, recebeu o que é seu por direito.
Conclusão
Fica o navio no porto de
Matanzas. Ficam as 100.000 toneladas de petróleo a serem descarregadas. Ficam
os hospitais acesos, as escolas iluminadas, as crianças que voltam a estudar
sem velas. Fica a declaração de Trump – que, mesmo querendo “ajudar” depois do
estrangulamento, não conseguiu impedir que outros ajudassem primeiro. Fica a
Rússia, de pé, a mostrar ao mundo que há quem desafie o bloqueio. Fica Cuba,
mais forte, mais unida, mais viva.
E fica, a esperança de quem
acompanhou. A fé de dois povos. A certeza de que, quando o horizonte parece
escuro, há sempre um navio a caminho. O Anatoly Kolodkin chegou. O povo cubano,
o russo, estiveram acompanhando cada momento. Vendo. Acreditando. Contando.
Patria o Muerte ! Pela Rússia,
por Cuba, por todos os que não se vergam.
30 de Março, 2026
Paulo Jorge da Silva | Um ativista
português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo
fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão.
Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negociam.


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