Por Alejandra García Elizalde*
A Venezuela começava a se recuperar dos ferimentos causados pelo atentado de 3 de janeiro quando uma nova tragédia atingiu o país. Naquele dia, bombas americanas sacudiram Caracas e La Guaira, deixando mais de cem mortos. Entre eles, 32 combatentes cubanos que perderam a vida defendendo o território venezuelano. Meses depois, quando essa dor ainda buscava consolo, os terremotos de 24 de junho abriram um novo capítulo de perdas e incertezas.
Desta vez, não foram as explosões de um ataque imperial. Foi a natureza. Mas o vazio parecia muito real mais uma vez. Na última quarta-feira, a Venezuela foi atingida por uma série de dois grandes terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Richter, separados por apenas 39 segundos: o evento natural mais poderoso registrado no país em mais de um século.
Mais de trinta cidadãos cubanos permanecem desaparecidos ou tiveram suas vítimas confirmadas entre os mortos sob os escombros. São trabalhadores, jovens, mães, crianças; pessoas que fizeram da Venezuela seu segundo lar e que agora compartilham a dor de dois povos acostumados à resiliência.
Contudo, enquanto toneladas de concreto e poeira ainda eram removidas, Cuba tomou uma decisão que não precisava de discursos: não abandonar a Venezuela. Na tarde de domingo, o primeiro contingente da Brigada Especial de Busca e Resgate de Cuba desembarcou. Junto com os 13 especialistas, vieram Tito, Eva e Choco, três cães treinados para encontrar vida onde o silêncio parecia ter vencido a batalha.
Eles chegaram com suas mochilas, seus equipamentos e o cansaço de um país que também atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história. Em Cuba, apagões, escassez de materiais e a constante incerteza diante das novas ameaças militares dos Estados Unidos persistem. "Cuba é a próxima", declarou o presidente Trump, sem qualquer pudor, mais de uma vez. Mesmo assim, eles cruzaram o mar para vir em busca de uma vida melhor.
Eles foram recebidos pelo embaixador cubano, Jorge Luis Mayo, com um longo abraço. Esse gesto pareceu sintetizar o alívio, a preocupação e o orgulho dos cubanos que vivem na Venezuela e que sentiram essa tragédia como se tivesse acontecido em seus próprios bairros.
Não havia tempo para descanso. Assim que chegaram, os socorristas cubanos juntaram-se aos esforços de busca, enquanto a Brigada Médica Cubana permaneceu onde sempre estivera: em hospitais e centros de saúde, atendendo a uma emergência sem precedentes. Ali, ao lado de médicos venezuelanos e profissionais de todo o mundo, eles estão dando suporte a um sistema de saúde que atualmente suporta o peso de milhares de feridos.
Em meio a toda a dor, pequenas cenas começaram a surgir, oferecendo um vislumbre de esperança. Nas últimas horas, vídeos de membros da brigada cubana participando de resgates entre os escombros viralizaram. Um deles foi registrado para sempre.
Um jovem foi encontrado com vida em La Guaira quase 120 horas após o duplo terremoto. Enquanto os socorristas abriam caminho em meio aos escombros de concreto, um paramédico corria ao lado da maca.
"Abram caminho! Estamos aqui com vocês!" gritou ele enquanto se dirigiam para a ambulância.
Não era apenas uma ordem para abrir caminho. Era uma certeza.
Enquanto se preparava para entrar no veículo, ajustando delicadamente a camisa do menino para proteger sua dignidade, ela falou com ele novamente em voz baixa, num contraste marcante com o caos ao redor:
—Você não está sozinho. Não vamos te deixar sozinho.
Em meio a sirenes, poeira e atividade frenética, aquelas palavras pareciam dirigidas a toda uma nação. Mesmo após a tragédia, ainda há pessoas dispostas a ficar; ainda há mãos vasculhando os escombros, cães farejando esperança, médicos se recusando a abandonar seus postos e um povo pronto para apoiar outro povo em sua hora mais sombria.
A solidariedade é silenciosa. Nem sempre vira notícia. Não muda o curso de um terremoto. Mas muda a forma como as pessoas enfrentam a escuridão. E enquanto a Venezuela continua esperando por mais milagres sob os escombros, Cuba responde mais uma vez, como já fez tantas vezes antes.
(*) Jornalista cubana.
https://cubaenresumen.org/2026/06/29/cuba-no-abandona-a-venezuela/

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