A população
cubana vive em situação de guerra. Devido aos apagões frequentes e prolongados,
muitas famílias cozinham com carvão ou lenha catada em fundos de quintal. São
raros os veículos que circulam pelas ruas e não há transporte público.
Hospitais e outros centros vitais à vida no país funcionam à base de placas
fotovoltaicas, insuficientes para atender à enorme demanda.
Por falta
de combustível para caminhões, o lixo se acumula nas ruas das cidades e, em
Havana, grande quantidade de medicamentos destinada às cidades do interior
permanece estocada.
Em busca de
saídas para a crise, na terceira semana de junho Cuba aprovou o mais abrangente
pacote de reformas econômicas desde a vitória da Revolução, em 1959. Com 176
medidas agrupadas em 23 eixos, a iniciativa, apoiada pelo ex-presidente Raúl
Castro, visa a enfrentar a crise mais severa do país desde o “Período Especial”
(1990-1995). No entanto, ao flexibilizar o modelo centralizado, o governo de
Miguel Díaz-Canel reacende um debate crucial: estas reformas aprimoram o
projeto socialista ou representam um retrocesso?
A decisão
por uma “terapia de choque” caribenha foi impulsionada por um cenário extremo:
o aprofundamento do bloqueio dos EUA, a interrupção do fornecimento de
combustível e a queda nas receitas do turismo. O fracasso da reforma monetária
e a ineficiência estatal geraram apagões de até 20 horas diárias e escassez
generalizada. O governo admite que a “brecha entre renda e preços é
insustentável”, e a necessidade de mudanças urgentes tornou-se inadiável.
As reformas
promovem uma descentralização radical: 1) Fim dos monopólios estatais: O
comércio exterior e a produção não serão mais exclusividade do Estado, com
abertura para importações e exportações diretas. 2) Privatização e capital
privado: Empresas estatais podem se tornar empreendimentos privados com ações,
e bancos privados são autorizados a funcionar. O setor privado, que já
representa 15% do PIB, terá espaço ampliado, incluindo o investimento
imobiliário. 3) Investimento Estrangeiro e Diáspora: Investidores não
precisarão mais de sócios estatais, e cubanos no exterior poderão investir no
país. 4) Empresas Mistas: A associação entre Estado e setor privado foi
legalizada para diversos setores, exceto saúde, educação e defesa. 5)
Reestruturação do Estado: O número de ministérios será reduzido de 27 para 20
para aumentar a eficiência.
As medidas
incluem a municipalização da economia: os municípios passam a ficar
independentes do poder central para implantar empresas, importar e exportar, e
aprovar investimentos de cubanos residentes no exterior.
A narrativa
oficial, ecoada pelo primeiro-ministro Manuel Marrero, assegura que as transformações
“não constituem um desvio do projeto socialista; ao contrário, respondem à
lógica inerente de seu desenvolvimento”. A lógica é pragmática: para salvar o
socialismo, é preciso adotar novos instrumentos econômicos condizentes com a
realidade atual.
Nessa
visão, a abertura é uma ferramenta para fortalecer o projeto socialista, e não
para abandoná-lo. O reconhecimento do mercado como um “instrumento para a
alocação eficiente de recursos” é visto como evolução, e não capitulação. Além
disso, a promessa de proteção social busca mitigar os efeitos das reformas
sobre os mais vulneráveis e preservar o núcleo de justiça social do projeto
revolucionário. O presidente Díaz-Canel reforça que “Cuba muda para seguir
sendo livre” e para “viver melhor”, enquadrando as reformas como um ato de
soberania.
Para alguns
críticos, as medidas representam um afastamento significativo dos princípios
socialistas. A privatização de setores chaves, a permissão para bancos privados
e o desenvolvimento imobiliário privado são vistos como introdução de relações
capitalistas no coração do projeto socialista. O economista cubano Daniel
Torralbas as classifica como a “reforma econômica mais profunda em 70 anos”, o
que, para muitos, equivale a uma mudança de sistema.
Há o receio
de que as mudanças levem à concentração de renda e ao aumento da desigualdade,
algo já observado com a dolarização parcial. Alguns analistas destacam que a
vida melhora apenas para quem tem acesso ao dólar, criando uma clivagem social
que contradiz o ideal igualitário socialista. Além disso, o histórico de
aberturas seguidas de retrocessos gera desconfiança.
O sucesso ou fracasso dessas medidas em relação ao projeto socialista dependerá de sua implementação e de fatores externos, como o fim da asfixia energética dos EUA. O governo cubano aposta que a eficiência econômica gerada pela abertura será capaz de financiar e preservar as conquistas sociais da Revolução. No entanto, o risco de que as forças de mercado desvirtuem o caráter igualitário do Estado é real.
Em última
análise, Cuba adota medidas ousadas típicas do capitalismo para salvar o
socialismo, a exemplo da China e do Vietnã. Se isso é aprimoramento ou
retrocesso, dependerá do resultado prático - se a maior eficiência econômica se
traduzirá em bem-estar para a maioria da população sem sacrificar os pilares de
justiça social, ou se abrirá uma fenda irreparável no projeto revolucionário
iniciado em 1959. O tempo e a capacidade de o governo revolucionário gerir essa
transição dirão se estas reformas serão o início de um novo capítulo do
socialismo cubano ou o prenúncio de seu ocaso.
Um fator é
óbvio: apesar das múltiplas dificuldades atuais, a resiliência do povo é
incontestável. É como se os cubanos, que já enfrentaram tantas ameaças do
imperialismo e crises em 67 anos de Revolução, agora estejam seguros de que não
sairão derrotados. Como me disse um amigo em Havana: “Não temos eletricidade, mas nos sobra energia. ”
Frei Betto é escritor, autor do romance “O Voo da
Locomotiva” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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