21 de jul. de 2026

Documento resumido do Departamento de Estado de Rubio sobre Cuba

                                                 
     O Departamento de Estado dos EUA lançou um dossier extenso detalhando como Cuba constitui uma ameaça para os EUA atribuindo à ilha todo movimento de esquerda no país desde a revolução até os dias de hoje. É evidente que o documento pretende preparar o terreno para a criminalização da esquerda como parte do novo Macartismo da era Trump. Vejam resumo desse texto. Importante destacar que o texto da Casa Branca identifica o ICAP, o DSA, National Lawyers Guild, Code Pink, Peoples Forum, IFCO Pastors for Peace e outras orgs como parte da rede de influencia cubana que opera nos EUA.

(por: Stephanie Weatherbee ) 


Sobre o relatório do Departamento de Estado de 2026 acerca da “campanha de Cuba contra a América”

Avaliação crítica breve — versão preliminar

O relatório foi produzido pelo Departamento de Estado sob a gestão do secretário Marco Rubio e divulgado em julho de 2026; suas cerca de cem páginas ilustradas são coerentes com as posições que Rubio sustentou sobre Cuba ao longo de toda a sua carreira política. Convém lê-lo como um artefato ideológico, e não como uma avaliação de inteligência, uma vez que seu propósito é fixar uma interpretação política da dissidência interna, em vez de medir as capacidades cubanas nos moldes de uma estimativa de ameaça. Sua tese central, sustentada ao longo de oito seções e de uma conclusão, é a de que, desde 1959, Cuba trava contra os Estados Unidos uma ininterrupta “longa guerra de desgaste” de sessenta e sete anos, conduzida menos pelas armas do que pela ideologia, pela espionagem e por organizações de fachada.

Segundo essa narrativa, uma única campanha se estenderia da Nova Esquerda, do Black Power e do terrorismo das décadas de 1970 e 1980, passando pelos sandinistas e pela Venezuela de Chávez, até o presente, quando animaria o DSA, o movimento pelas vidas negras, a organização contra o ICE e a solidariedade à Palestina nos campi universitários. A operação que torna essa tese possível é o colapso atributivo: movimentos heterogêneos em origem, composição e reivindicação, e distribuídos por seis décadas, são reduzidos a efeitos de uma só causa externa. O esquema é herdado — extraído e citado com aprovação de um estudo de segurança interna do Senado, de 1966, sobre a “conspiração comunista internacional” — e aqui adaptado ao ambiente jurídico das imputações de apoio material e de atuação como agente estrangeiro.

A ligação entre Cuba e esses movimentos se afirma a partir de um critério que não pode ser testado, pois o relatório considera relevante qualquer episódio que possa ser vinculado à influência cubana “de algum modo, forma ou feitio” — fórmula suficientemente vaga para que nenhuma evidência seja capaz de abalar a conclusão. Sua força persuasiva repousa na justaposição do material verificado ao não verificado: condenações documentadas por espionagem — Ana Montes, Walter Myers e Manuel Rocha — figuram ao lado de depoimentos de desertores de fonte única e de afirmações genéricas sobre movimentos de massa, de modo que a credibilidade das condenações se transfere a alegações que não compartilham nenhuma de suas bases probatórias. As fontes, ao longo de todo o texto, são partes no conflito que o relatório descreve, provenientes de comitês do Congresso da Guerra Fria, de relatórios do Departamento de Estado e da CIA, de arquivos do FBI e de relatos de desertores, sem que se recorra a praticamente nenhuma produção acadêmica independente ou cubana, salvo quando esta pode ser citada como confissão.

A interpretação depende daquilo que o relatório omite. O bloqueio estadunidense, mantido há sessenta anos, principal causa material da penúria econômica cubana e alvo de condenação quase unânime da Assembleia Geral da ONU ao longo de três décadas, aparece apenas como algo contra o qual a esquerda faz campanha, nunca como uma política de custos mensuráveis. O histórico da ação encoberta dos Estados Unidos contra Cuba — a invasão da Baía dos Porcos, os repetidos atentados contra Castro e o ataque a bomba ao voo 455 da Cubana, em 1976 — está ausente, o que permite apresentar a acusação de abrigar foragidos como se ela corresse em uma única direção. As origens internas do radicalismo estadunidense são igualmente suprimidas, de sorte que as leis Jim Crow, a Guerra do Vietnã, a violência policial, a crise financeira de 2008 e o assassinato de George Floyd não figuram como causas, e os movimentos que engendraram podem ser explicados como importações. Aplicada em particular à luta de libertação negra, essa é a antiga tese do “agitador externo”, que reatribui a Havana a agência de estadunidenses que agem movidos por reivindicações internas.

Vários dos próprios achados do relatório destoam de suas conclusões. Ele reconhece que Cuba jamais teve capacidade de derrotar os Estados Unidos em um conflito convencional e, em seguida, trata essa fragilidade como prova de perigo, e não como um limite a ele. Ressalta que os agentes mais danosos de Cuba eram ideólogos não remunerados, que não deixaram rastro financeiro — um dado que documenta estadunidenses agindo por convicção própria, ao mesmo tempo que o relatório apresenta essa convicção como uma conquista de Havana. Apoia-se ainda nos comitês de segurança interna do Congresso como autoridades, embora observe, em outra passagem, que a repressão do período macartista reduziu o Partido Comunista de cerca de setenta e cinco mil para menos de cinco mil filiados, citando como confiável um aparato que ele próprio registra como desacreditado.

A intenção do relatório é legível nas medidas repressivas que endossa. Fornece a justificativa para uma postura coercitiva no exterior — as sanções de 2026 ao ICAP e à agência de viagens Amistur, ao amparo da Ordem Executiva 14404, a manutenção de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo e a alegada operação contra Maduro — e para a repressão interna, na qual a organização contra o ICE, o movimento pelas vidas negras e a solidariedade à Palestina são dispostos em um mesmo continuum de inteligência estrangeira, de modo que a atividade política protegida possa ser tratada como questão de segurança nacional. Seu efeito analítico é interditar a explicação estrutural, pois atribuir as políticas anti-imperialistas e de justiça racial a um comando estrangeiro elimina a possibilidade de que a própria ordem interna produza a sua oposição. Lido na contramão de seu propósito, o mesmo documento se revela um registro detalhado de seis décadas de solidariedade internacionalista que resistiu ao bloqueio, e de um Estado que passou a explicar a oposição interna localizando a sua origem no exterior.

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