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| Adolfo Pérez Esquivel |
Pérez Esquivel classifica Trump como “ditador global” e exige que sua política belicista seja freada
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| Adolfo Pérez Esquivel |
| Ilustración de Michel Moro |
Para nós, hoje, a parede da caverna são as telas dos nossos celulares e televisores, as sombras não são projetadas por estátuas, mas por algoritmos, deepfakes, enxames de IA e técnicas de neuromarketing.
Raul Capote
O mito da caverna é uma explicação metafórica escrita pelo filósofo grego Platão no livro VII de A República, que ele usa para explicar como funciona o conhecimento humano, a educação e a difícil relação entre o mundo sensível (o que percebemos) e o mundo inteligível (a verdade).
Hoje em dia, a convergência da inteligência artificial, do big data e da neurociência levou a manipulação midiática a um nível de desenvolvimento sem precedentes. O antigo paradigma da persuasão baseada em propostas racionais morreu.
Não se trata mais de enviar a mesma mensagem a um grupo demográfico, mas de adaptar cada estímulo ao estado de espírito do indivíduo, por meio do uso da microsegmentação adaptativa e da fabricação em massa de mensagens hipersensoriais.
Eles utilizam o que é conhecido como “otimização de conteúdo baseada em sentimentos”; os algoritmos analisam em tempo real nossas interações nas redes para modificar os anúncios que consumimos. Eles criam uma espécie de “câmara de eco personalizada” na qual o indivíduo recebe apenas as informações que reforçam seus preconceitos pré-existentes.
Com o rápido desenvolvimento das plataformas de redes sociais, o conteúdo gerado pelos usuários — no qual compartilham sua vida cotidiana, opiniões e emoções — fornece uma grande quantidade de informações, de modo que a aplicação de técnicas de análise de sentimentos na análise de dados de redes sociais se tornou uma ferramenta amplamente utilizada para o estudo da opinião pública.
Plataformas como o TikTok utilizam a chamada “engenharia da emoção viral”, na qual o algoritmo recompensa a emoção bruta acima da reflexão. Essa técnica não se limita mais à desinformação, mas também à organização de narrativas simplistas, baseadas, por exemplo, em elementos como “traição” ou “tudo está perdido”, que geram choque e são facilmente replicáveis.
Aproveitam-se efeitos como o “coquetel”, ou seja, falar diretamente à experiência pessoal do receptor ou a “aversão à perda”, que nada mais é do que apresentar qualquer mudança como uma perda catastrófica, para mobilizar o medo a favor dos manipuladores.
Pesquisas recentes publicadas na Science alertam para o perigo dos “enxames de IA”. Para entender melhor o risco, trata-se de sistemas que exibem milhares de perfis falsos que não se limitam a repetir um slogan, mas interagem, se adaptam e evoluem para criar a ilusão de que existe um consenso social majoritário em torno de uma ideia.
É possível compreender, então, que o “consenso sintético” é muito mais perigoso do que uma notícia falsa isolada ou do que o trabalho que as fazendas de bots podiam realizar antes do desenvolvimento da IA.
Dessa forma, está se consolidando um ecossistema dual, no qual plataformas como o Telegram desempenham o papel de centros de coordenação e lançamento de narrativas falsas, enquanto o TikTok é usado para dar-lhes alcance emocional e normalizá-las entre a população. Essa “coordenação oculta” permite que uma mensagem criada em um pequeno grupo inunde milhões de telas em questão de horas.
Sem dúvida, o maior perigo não é a mentira em si, mas a destruição da confiança nos mecanismos que nos permitem distinguir a verdade da falsidade. Quando qualquer vídeo pode ser falso e qualquer tendência pode ser uma invenção de um enxame de bots: em que e em quem acreditamos?
Pode parecer ficção científica, mas já se fala em “propaganda neural”. Do que se trata? O universo de George Orwell ficaria relegado ao campo dos contos infantis.
A “propaganda neural” levanta a possibilidade de injetar mensagens diretamente no córtex visual durante o sono, por meio de interfaces cérebro-computador. Os resultados dessa “técnica” levam a manipulação ao campo da desumanidade e da loucura.
Querem construir um mundo vazio de realidade, no qual a humanidade viveria subjugada por uma elite dona dos medos irracionais do cérebro humano, capaz de induzir qualquer coisa que desejar.
Para nós, hoje, a parede da caverna são as telas de nossos celulares e televisores, as sombras não são projetadas por estátuas, mas por algoritmos, deepfakes, enxames de IA e técnicas de neuromarketing.
Os prisioneiros na caverna somos nós, quando consumimos conteúdo sem questionar sua origem, presos em câmaras de eco que reforçam nossas ideias sem nos mostrar a realidade exterior. Esse “consenso sintético” ao qual nos referimos é a versão moderna das sombras: uma realidade fabricada que parece verdade porque todos os outros prisioneiros (ou seus avatares digitais) também a aplaudem.
O mito nos avisa que libertar-se da manipulação é um processo doloroso, que requer esforço, estudo e duvidar do que vemos e que, além disso, quem tenta corre o risco de ser ridicularizado ou “eliminado” por uma sociedade que pode preferir o conforto de suas sombras conhecidas ao desconforto de uma verdade complexa.
Fuentes: UBC Science, LMS Political Campaign, IDW Informationsdienst Wissenschaft.
@comitecarioca21
A matéria, muito útil e explicativa, especialmente nesses tempos que vivemos, é da Professora Maria Leite*, Doutora e Mestre em Educação, com pesquisas nas escolas de Cuba há quatro décadas.
Maria Leite esteve entre janeiro e fevereiro deste ano em Cuba durante quase um mês e nos traz a realidade cubana sem romantizar. E sem alarmes falsos.
A apresentação das medidas pelo presidente de Cuba, em 7 de fevereiro de 2026, para fazer frente à situação atual, confirma o que todos sabíamos: o recrudescido bloqueio petrolífero, que prejudica todo o povo cubano. Também não é preciso ser um especialista para saber o que representa para a economia de um pequeno país que se pretenda cortar completamente os meios de obtenção de combustível dos transportes e as fontes que alimentam a matriz energética, em especial a termoelétrica. Cuba tem a aspiração de até 2030 transformar a energia fotovoltaica em 30% do total consumido no país.
Em meio a uma situação adversa, uma das pretensões da direção nacional do país é manter a educação fundamental funcionando. A movimentação de crianças indo às classes segue em sua normalidade, até porque há um grande número de escolas em todos os bairros do país e nas zonas rurais. A limitação, motivada pela falta de combustível, restringe as aulas presenciais nas universidades a um escalonamento semanal, ao funcionamento limitado de museus e centros de cultura, abertos um período menor de tempo diário. Os hospitais estão todos funcionando, contudo há restrições por falta de insumos, em especial, de remédios.
O turismo segue com a garantia de transportes e funcionamento normal dos hotéis e pousadas, assim como os restaurantes, um vez que o país necessita urgentemente da entrada de moedas fortes. O congresso Universidad e a tradicional Feira do livro foram cancelados.
O que vem à tona são as manifestações que a realidade difícil produz em setores dentro e fora do país. Fico espantada em ver os comentários de que este castigo, o recrudescimento e a perseguição, é "a única solução" e que o governo cubano necessita negociar! Negociar o que ? A soberania do país? Nunca! Os sem pátria lamentam cada barco de petróleo e ajuda humanitária que chega a Cuba. Na realidade, a dor, as ameaças e as dificuldades são consequência do fato que Cuba, há 65 anos, escolheu o socialismo. O esperado pelos inimigos de sempre, como resultado "inevitável" deste processo, é a asfixia total que leve o povo a derrubar o governo. Chega a ser patética a reação de muitos intoxicados pelos odiosos de Miami e de uma inexpressiva contra-revolução interna, é que exijam mais medidas e louvem ao seu algoz!
O que não dá para suportar é a ajuda em disseminar notícias falsas.
Nesta segunda-feira, dia 9 de fevereiro amanheci com uma enxurrada de avisos fakes e advertências de que “os voos desde Cuba para o resto do mundo estavam cancelados”, em uma tentativa torpe de acabar com o turismo e isolar a Ilha, notícias de que não há comida, não há água …e, inclusive, que os restaurantes estão fechados !! Tudo falso!!
No momento, creio que Cuba necessita de pessoas solidárias que venham participar de brigadas, de caravanas, de viagens histórico-culturais, que demonstrem seu apoio à resistência do povo cubano, que venham e tragam remédios aos hospitais. Cuba necessita seguir a frente para aumentar o poder aquisitivo da sua população.
Cuba precisa do fortalecimento das denúncias contra o conjunto de medidas que buscam de todas as formas o desespero popular. O que sinto muito presente é a forte determinação da direção do país em aprofundar as relações comerciais com os países aliados, entre eles o Brasil.
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| Professora Maria Leite e seu livro. |
* Maria Leite é vice-presidente da Associação Cultural José Marti da Baixada Santista e autora do livro Cuba Insurgente.
Áudio da professora enquanto ainda estava na Ilha (3 minutos):
Ensaio Técnico das Escolas de Samba do grupo especial dia 6/02/2026. Enquanto a Mocidade Independente de Padre MIguel fazia seu ensaio, integrantes da Estação Primeira de Mangueira cantavam e curtiam o samba enredo da verde e branco ! Sem rivalidade !!!!

Havana. A Casa de las Américas é uma instituição cultural emblemática da Revolução Cubana e da vida intelectual latino-americana. Abel Prieto, de 76 anos, autor de uma notável obra literária, é o seu diretor.
Considerado um 'marxista-lennonista' por sua admiração pelos Beatles , ele desempenha um papel fundamental na Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.
Em entrevista ao jornal La Jornada, ele afirma que o estado atual do mundo lhe lembra uma frase de Ivan Karamazov, personagem do romance de Fiódor Dostoiévski, na qual Karamazov diz que se Deus não existe, tudo é permitido. E como para Trump o único Deus é ele mesmo, ele pode fazer o que bem entender. Seus caprichos nos colocaram em um mundo sem regras. Ele derrubou a ordem estabelecida. Não existem mais regras.
Segundo Prieto, Cuba enfrenta atualmente o dilema secular de: colônia ou soberania, colônia ou independência. E, para eles, independência é sinônimo de socialismo. Se perderem o socialismo, a nação estará perdida e voltará a ser uma vergonhosa colônia dos EUA, como foi há mais de 60 anos.
A seguir, apresentamos partes substanciais desta conversa.
Fonte: La Jornada
–Como a nova ofensiva de Donald Trump está sendo recebida em Cuba?
O que Trump pretende com essa nova ofensiva é nos sufocar diretamente no curto prazo. Ele quer que este país, sua economia e seus serviços sejam estrangulados pela falta de combustível. É por isso que ele está ameaçando sancionar os países que nos vendem combustível.
É grotesco, só falta um bloqueio naval.
“Ele está implementando um bloqueio em sua forma mais grotesca e brutal. Só falta um bloqueio naval! Seu objetivo é o mesmo da época de Eisenhower: criar pobreza, escassez e dificuldades para o povo.”
“Eles procuram criar dificuldades e multiplicá-las para que o povo culpe o governo e o partido pelo que acontece. Querem precipitar uma mudança de regime. Pensam que, com o golpe na Venezuela, darão o golpe final à revolução cubana.”
–O que deu errado que permitiu à direita vencer a batalha da comunicação?
"Há algo que Ignacio Ramonet me mencionou, e ele está absolutamente certo. A esquerda tem uma limitação em sua estratégia de comunicação: a ética. Fidel Castro nos disse que nunca devemos mentir ou violar princípios éticos . Nossos inimigos nas redes sociais mentem o tempo todo. Eles passam o tempo insultando nossos líderes, caluniando-os, dizendo coisas sem qualquer prova. A mentira é uma arma essencial deste novo fascismo. E, apesar do dano que causa, não podemos responder com mentiras. Devemos defender a verdade."
“A verdade precisa ser apresentada da maneira mais eficaz. Sou roqueiro. A nova música do Bruce Springsteen não é musicalmente impressionante. Mas é um belo hino de solidariedade.”
“E aí teve o que aconteceu com o Bad Bunny. Ele defendeu os latinos. Disse que as vidas deles importam. E isso magoou muito o Trump. Ele respondeu dizendo que foi um show terrível, uma afronta ao seu país. Se não fosse tão sinistro, seria quase cômico.”
–Que reações Trump provocou no povo cubano?
–Trump nos polarizou. Ele nos radicalizou. Ele nos tornou mais anti-imperialistas, mais antifascistas.
"A Venezuela foi um golpe devastador. Sentimos como uma ferida muito pessoal." Como se tivesse sido infligida a nós também. Mas a forma como este país lamentou a morte de nossos 32 irmãos que lutaram em defesa do presidente Maduro enviou uma mensagem poderosa a Trump e Marco Rubio. Foi uma mensagem de união e determinação.
No dia em que as urnas foram instaladas no Ministério das Forças Armadas, as pessoas formaram filas intermináveis. Era um dia frio e chuvoso. E as pessoas não saíam das enormes filas. Trouxeram seus filhos e seus parentes idosos. Todos permaneceram naquela fila sem fim. Desde Martí, defendemos a ideia de que pátria é humanidade . E essa ideia está profundamente enraizada nesta nação.
“Nosso povo tem senso de importância histórica. Eles sabem quando demonstrar união, firmeza, dignidade, amor pela soberania e pelos princípios.”
–Como essa nova abordagem afetou o mundo cultural?
–Estamos enfrentando um golpe colonial brutal, com o objetivo de provocar uma mudança de regime. São tempos extremamente difíceis. Hospitais e asilos estão ficando sem gasolina e óleo. É o povo cubano que está sofrendo.
“Mas há muita história aqui, história demais. Há uma cultura anticolonial e anti-imperialista.” Cuba é um país com uma força cultural muito vigorosa e um forte senso de identidade nacional. Cultura e nação andam de mãos dadas. Os artistas têm um profundo sentimento patriótico, associado à sua maneira de entender a vida. É assim que eles o expressam.
“A importância deste momento reside no fato de enfrentarmos o velho dilema: colônia ou soberania, colônia ou independência. E, para nós, independência é sinônimo de socialismo. Se perdermos o socialismo, perdemos a nação. Se a revolução for derrotada, retornaremos ao status de uma colônia ianque humilhada e vergonhosa, que era o que éramos há mais de 60 anos. Este país jamais voltará a ser isso.”
–Como esse bloqueio afetou a criação artística?
Apesar dos cortes de energia, o Festival de Cinema de Havana foi um grande sucesso. O Festival de Jazz também aconteceu, atraindo muitos americanos. No entanto, tivemos que adiar a Feira do Livro. Manteremos o Prêmio Casa de las Américas, mas as deliberações do júri serão realizadas online .
— Você insistiu na necessidade de se aliar ao povo dos Estados Unidos. Essa ainda é a sua posição?
“Existe um movimento antifascista nos Estados Unidos. E uma mensagem precisa ser enviada às pessoas que estão lutando lá. Fidel disse a Ramonet que, quando o povo dos Estados Unidos soube a verdade sobre algo, reagiu de maneira nobre e justa. Fidel nos convidou a confiar nos sentimentos e nas virtudes desse povo. Pablo González Casanova compreendeu isso muito bem. Devemos formar uma frente antifascista internacional, apoiando-nos na Rede de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade.”
–Qual a relevância de Dom Pablo em um momento como este?
– Foi Pablo quem idealizou a Rede. Seu senso ético e lucidez caminhavam juntos. Ele era um homem brilhante, com um olhar aguçado para os processos culturais, políticos e históricos, e com uma ética extraordinária. Precisamos dele. Sempre precisamos de um homem como Pablo. Um homem extraordinário.
“Mas não nos esqueçamos de que não é só Cuba que está em perigo. Acho que a América Latina, o Caribe, o mundo todo estão em perigo com essa ascensão do fascismo. Estão até tentando reescrever a história. Querem encobrir a imagem de Franco, Hitler, Mussolini e daqueles que cometeram genocídio contra os povos indígenas.”
–Nem mesmo os mortos encontram paz?
–A batalha é pelo presente e pelo futuro, e também pela nossa memória.
—Você foi rotulado como 'marxista-lennonista'. O que você acha que Lennon pode nos dizer para um momento como o atual?
"Adoro Lenin, mas adoro o rótulo de marxista-lennonista. O Beatle teria sido um incansável ativista anti-Trump. Ele foi um grande lutador contra o genocídio no Vietnã, um campeão da paz. Deixou para trás canções extraordinárias contra os senhores da guerra."
–Qual você prefere?
–Com Imagine , é uma utopia maravilhosa.
Trad/Ed: @comitecarioca21
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| Foto de ADALBERTO ROQUE/AFP via Getty Images. |
Por Abel Prieto.
A recente agressão contra a Venezuela, com a tentativa de golpe e o sequestro do casal presidencial em 3 de janeiro, não foi apenas um ataque a uma nação irmã. Para Cuba, foi um golpe devastador, uma ferida profunda sentida como se fosse sua. Esse ato, que rompe com todo o direito internacional e viola brutalmente a soberania, é o ápice de uma política caracterizada pela ganância — essa “doença dos Estados Unidos” denunciada por José Martí — e pela obsessão com o petróleo venezuelano.
A dor se intensificou ao saber que 32 trabalhadores humanitários cubanos haviam falecido nesses eventos. Nos dias 15 e 16 de janeiro, o povo cubano prestou-lhes uma homenagem imensa e comovente. Sob a chuva, uma imensa fila de pessoas de todas as idades desfilou diante de seus restos mortais no Ministério das Forças Armadas (MINFAR). Era uma poderosa mistura de luto, orgulho patriótico e orgulho internacionalista. Martí e Fidel nos ensinaram que "Pátria é Humanidade", e naquele momento, a frase ressoou com toda a sua força. A cerimônia subsequente na Tribuna Anti-Imperialista e a marcha que se repetiu por todo o país enviaram uma mensagem clara e inequívoca: Cuba não se renderá, não haverá concessões em questões de soberania ou internacionalismo, e o compromisso com a Revolução e com nossas nações irmãs será defendido a qualquer custo.
O legado de uma fraternidade construída
Essa solidariedade não é novidade. É fruto de uma fraternidade forjada por Fidel Castro e Hugo Chávez, um modelo de colaboração altruísta que transcendeu a lógica do comércio. Da Missão Barrio Adentro, que levou médicos cubanos aos cantos mais remotos da Venezuela, à campanha de alfabetização "Yo,si Puedo", a cooperação se baseou em princípios superiores à compra e venda. Por isso, o presidente Díaz-Canel pôde responder com veemência às acusações de mercenários: aqueles que não entendem o conceito de solidariedade, aqueles que não conseguem compreender que existem coisas que não podem ser compradas ou vendidas, jamais entenderão por que aqueles cubanos deram suas vidas defendendo a soberania da Venezuela. Eles estavam na linha de frente contra o fascismo.
O contexto global: a ascensão do fascismo distópico
O que aconteceu na Venezuela não é um incidente isolado. Faz parte de um fenômeno global alarmante: a ascensão de um fascismo moderno, que distorce a história e é alimentado pelas redes sociais. Figuras como Donald Trump e seus aliados, como Marco Rubio, representam essa tendência que busca encobrir os crimes do colonialismo — de Colombo aos conquistadores — e reabilitar figuras como Franco e Mussolini.
Esse movimento promove um "emburrecimento em massa", especialmente entre os jovens, fomentando sentimentos misóginos, xenófobos e racistas. Nos Estados Unidos, isso se traduz na proibição de livros que abordam a história da escravidão e a luta pelos direitos civis, numa tentativa de apagar figuras como Martin Luther King Jr. e Malcolm X da narrativa nacional. É o apartheid cultural e intelectual denunciado por acadêmicos afro-americanos num evento recente em Havana intitulado "Silenciando Vozes Negras, Proibindo Livros Negros".
A Batalha das Ideias: Estratégias de Resistência
Diante dessa ofensiva, a pergunta urgente é: o que pode ser feito? A resposta reside no fortalecimento das redes de solidariedade e na batalha de ideias.
1. Fortalecer a Rede em Defesa da Humanidade: É crucial aperfeiçoar e expandir essa rede internacionalmente, funcionando como uma verdadeira internacional antifascista.
2. Buscar e unir aliados nos Estados Unidos: A maioria do povo estadunidense não apoia essas políticas. Existe uma nobre sociedade civil, acadêmicos, artistas e comunidades (afro-americanas, latinas) aterrorizadas por esse clima de perseguição. Devemos construir pontes com eles e tornar sua resistência visível.
Como disse Fidel, citando uma frase atribuída a Lincoln: "Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo e algumas pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo." Devemos nos comprometer a desmantelar as mentiras.
3. Inovar na comunicação: A partir de espaços como a Casa de las Américas e o capítulo cubano da Rede, devemos trabalhar com boletins informativos digitais, vídeos envolventes e materiais concebidos para as gerações mais jovens, que consomem informação de forma diferente. A ideia é garantir que as ideias de emancipação e verdade histórica cheguem a todos os formatos.
4. Alertar o mundo para o perigo: Como o poeta Roberto Fernández Retamar descreveu brilhantemente, estamos diante de um "Calígula atômico". A combinação de uma liderança imprevisível com tendências fascistas e o acesso ao arsenal nuclear mais poderoso do mundo representa um perigo existencial para a humanidade. Não se trata apenas de uma guerra civil cultural, mas de uma ameaça à paz mundial.
Solidariedade como uma trincheira
A dor pela Venezuela e pelos cubanos caídos se transforma, mais uma vez, em compromisso. A lição de Angola, da qual Cuba retirou apenas "os restos mortais de seus filhos caídos", como reconheceu Nelson Mandela, permanece viva. Hoje, o principal campo de batalha se encontra no âmbito das ideias, na defesa da verdade histórica contra a distorção e na construção de uma solidariedade internacional ativa e audível. A mensagem de Cuba, nascida do luto e da dignidade, é esta: não haverá concessões. A luta continua e, nela, a união com todos os povos do mundo que defendem a soberania, a justiça e a paz não é apenas uma opção, mas uma necessidade para a sobrevivência.