10 de fev. de 2026

A AGRESSÃO CONTRA A VENEZUELA: UM GOLPE NO CORAÇÃO DE CUBA E UM APELO À SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

Foto de ADALBERTO ROQUE/AFP via Getty Images.

    Por Abel Prieto.

  A recente agressão contra a Venezuela, com a tentativa de golpe e o sequestro do casal presidencial em 3 de janeiro, não foi apenas um ataque a uma nação irmã. Para Cuba, foi um golpe devastador, uma ferida profunda sentida como se fosse sua. Esse ato, que rompe com todo o direito internacional e viola brutalmente a soberania, é o ápice de uma política caracterizada pela ganância — essa “doença dos Estados Unidos” denunciada por José Martí — e pela obsessão com o petróleo venezuelano.

  A dor se intensificou ao saber que 32 trabalhadores humanitários cubanos haviam falecido nesses eventos. Nos dias 15 e 16 de janeiro, o povo cubano prestou-lhes uma homenagem imensa e comovente. Sob a chuva, uma imensa fila de pessoas de todas as idades desfilou diante de seus restos mortais no Ministério das Forças Armadas (MINFAR). Era uma poderosa mistura de luto, orgulho patriótico e orgulho internacionalista. Martí e Fidel nos ensinaram que "Pátria é Humanidade", e naquele momento, a frase ressoou com toda a sua força. A cerimônia subsequente na Tribuna Anti-Imperialista e a marcha que se repetiu por todo o país enviaram uma mensagem clara e inequívoca: Cuba não se renderá, não haverá concessões em questões de soberania ou internacionalismo, e o compromisso com a Revolução e com nossas nações irmãs será defendido a qualquer custo.

O legado de uma fraternidade construída


  Essa solidariedade não é novidade. É fruto de uma fraternidade forjada por Fidel Castro e Hugo Chávez, um modelo de colaboração altruísta que transcendeu a lógica do comércio. Da Missão Barrio Adentro, que levou médicos cubanos aos cantos mais remotos da Venezuela, à campanha de alfabetização "Yo,si Puedo", a cooperação se baseou em princípios superiores à compra e venda. Por isso, o presidente Díaz-Canel pôde responder com veemência às acusações de mercenários: aqueles que não entendem o conceito de solidariedade, aqueles que não conseguem compreender que existem coisas que não podem ser compradas ou vendidas, jamais entenderão por que aqueles cubanos deram suas vidas defendendo a soberania da Venezuela. Eles estavam na linha de frente contra o fascismo.

O contexto global: a ascensão do fascismo distópico


   O que aconteceu na Venezuela não é um incidente isolado. Faz parte de um fenômeno global alarmante: a ascensão de um fascismo moderno, que distorce a história e é alimentado pelas redes sociais. Figuras como Donald Trump e seus aliados, como Marco Rubio, representam essa tendência que busca encobrir os crimes do colonialismo — de Colombo aos conquistadores — e reabilitar figuras como Franco e Mussolini.

  Esse movimento promove um "emburrecimento em massa", especialmente entre os jovens, fomentando sentimentos misóginos, xenófobos e racistas. Nos Estados Unidos, isso se traduz na proibição de livros que abordam a história da escravidão e a luta pelos direitos civis, numa tentativa de apagar figuras como Martin Luther King Jr. e Malcolm X da narrativa nacional. É o apartheid cultural e intelectual denunciado por acadêmicos afro-americanos num evento recente em Havana intitulado "Silenciando Vozes Negras, Proibindo Livros Negros".

                

                        A Batalha das Ideias: Estratégias de Resistência

   Diante dessa ofensiva, a pergunta urgente é: o que pode ser feito? A resposta reside no fortalecimento das redes de solidariedade e na batalha de ideias.

1.   Fortalecer a Rede em Defesa da Humanidade:  É crucial aperfeiçoar e expandir essa rede internacionalmente, funcionando como uma verdadeira internacional antifascista.

2.   Buscar e unir aliados nos Estados Unidos:  A maioria do povo estadunidense  não apoia essas políticas. Existe uma nobre sociedade civil, acadêmicos, artistas e comunidades (afro-americanas, latinas) aterrorizadas por esse clima de perseguição. Devemos construir pontes com eles e tornar sua resistência visível.

 Como disse Fidel, citando uma frase atribuída a Lincoln: "Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo e algumas pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo." Devemos nos comprometer a desmantelar as mentiras.

3.   Inovar na comunicação:  A partir de espaços como a Casa de las Américas e o capítulo cubano da Rede, devemos trabalhar com boletins informativos digitais, vídeos envolventes e materiais concebidos para as gerações mais jovens, que consomem informação de forma diferente. A ideia é garantir que as ideias de emancipação e verdade histórica cheguem a todos os formatos.

4.   Alertar o mundo para o perigo:  Como o poeta Roberto Fernández Retamar descreveu brilhantemente, estamos diante de um "Calígula atômico". A combinação de uma liderança imprevisível com tendências fascistas e o acesso ao arsenal nuclear mais poderoso do mundo representa um perigo existencial para a humanidade. Não se trata apenas de uma guerra civil cultural, mas de uma ameaça à paz mundial.

Solidariedade como uma trincheira


   A dor pela Venezuela e pelos cubanos caídos se transforma, mais uma vez, em compromisso. A lição de Angola, da qual Cuba retirou apenas "os restos mortais de seus filhos caídos", como reconheceu Nelson Mandela, permanece viva. Hoje, o principal campo de batalha se encontra no âmbito das ideias, na defesa da verdade histórica contra a distorção e na construção de uma solidariedade internacional ativa e audível. A mensagem de Cuba, nascida do luto e da dignidade, é esta: não haverá concessões. A luta continua e, nela, a união com todos os povos do mundo que defendem a soberania, a justiça e a paz não é apenas uma opção, mas uma necessidade para a sobrevivência.

Tradução/Edição: Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba  (e grifo nosso) 




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