23 de fev. de 2026

O MITO DA CAVERNA 2.0: QUANDO A IA PROJETA SOMBRAS NA PAREDE

Ilustración de Michel Moro

     Para nós, hoje, a parede da caverna são as telas dos nossos celulares e televisores, as sombras não são projetadas por estátuas, mas por algoritmos, deepfakes, enxames de IA e técnicas de neuromarketing.

Raul Capote

O mito da caverna é uma explicação metafórica escrita pelo filósofo grego Platão no livro VII de A República, que ele usa para explicar como funciona o conhecimento humano, a educação e a difícil relação entre o mundo sensível (o que percebemos) e o mundo inteligível (a verdade).

Hoje em dia, a convergência da inteligência artificial, do big data e da neurociência levou a manipulação midiática a um nível de desenvolvimento sem precedentes. O antigo paradigma da persuasão baseada em propostas racionais morreu.

Não se trata mais de enviar a mesma mensagem a um grupo demográfico, mas de adaptar cada estímulo ao estado de espírito do indivíduo, por meio do uso da microsegmentação adaptativa e da fabricação em massa de mensagens hipersensoriais.

Eles utilizam o que é conhecido como “otimização de conteúdo baseada em sentimentos”; os algoritmos analisam em tempo real nossas interações nas redes para modificar os anúncios que consumimos. Eles criam uma espécie de “câmara de eco personalizada” na qual o indivíduo recebe apenas as informações que reforçam seus preconceitos pré-existentes.

Com o rápido desenvolvimento das plataformas de redes sociais, o conteúdo gerado pelos usuários — no qual compartilham sua vida cotidiana, opiniões e emoções — fornece uma grande quantidade de informações, de modo que a aplicação de técnicas de análise de sentimentos na análise de dados de redes sociais se tornou uma ferramenta amplamente utilizada para o estudo da opinião pública.

Plataformas como o TikTok utilizam a chamada “engenharia da emoção viral”, na qual o algoritmo recompensa a emoção bruta acima da reflexão. Essa técnica não se limita mais à desinformação, mas também à organização de narrativas simplistas, baseadas, por exemplo, em elementos como “traição” ou “tudo está perdido”, que geram choque e são facilmente replicáveis.

Aproveitam-se efeitos como o “coquetel”, ou seja, falar diretamente à experiência pessoal do receptor ou a “aversão à perda”, que nada mais é do que apresentar qualquer mudança como uma perda catastrófica, para mobilizar o medo a favor dos manipuladores.

Pesquisas recentes publicadas na Science alertam para o perigo dos “enxames de IA”. Para entender melhor o risco, trata-se de sistemas que exibem milhares de perfis falsos que não se limitam a repetir um slogan, mas interagem, se adaptam e evoluem para criar a ilusão de que existe um consenso social majoritário em torno de uma ideia.

É possível compreender, então, que o “consenso sintético” é muito mais perigoso do que uma notícia falsa isolada ou do que o trabalho que as fazendas de bots podiam realizar antes do desenvolvimento da IA.

Dessa forma, está se consolidando um ecossistema dual, no qual plataformas como o Telegram desempenham o papel de centros de coordenação e lançamento de narrativas falsas, enquanto o TikTok é usado para dar-lhes alcance emocional e normalizá-las entre a população. Essa “coordenação oculta” permite que uma mensagem criada em um pequeno grupo inunde milhões de telas em questão de horas.

Sem dúvida, o maior perigo não é a mentira em si, mas a destruição da confiança nos mecanismos que nos permitem distinguir a verdade da falsidade. Quando qualquer vídeo pode ser falso e qualquer tendência pode ser uma invenção de um enxame de bots: em que e em quem acreditamos?

Pode parecer ficção científica, mas já se fala em “propaganda neural”. Do que se trata? O universo de George Orwell ficaria relegado ao campo dos contos infantis.

A “propaganda neural” levanta a possibilidade de injetar mensagens diretamente no córtex visual durante o sono, por meio de interfaces cérebro-computador. Os resultados dessa “técnica” levam a manipulação ao campo da desumanidade e da loucura.

Querem construir um mundo vazio de realidade, no qual a humanidade viveria subjugada por uma elite dona dos medos irracionais do cérebro humano, capaz de induzir qualquer coisa que desejar.

Para nós, hoje, a parede da caverna são as telas de nossos celulares e televisores, as sombras não são projetadas por estátuas, mas por algoritmos, deepfakes, enxames de IA e técnicas de neuromarketing.

Os prisioneiros na caverna somos nós, quando consumimos conteúdo sem questionar sua origem, presos em câmaras de eco que reforçam nossas ideias sem nos mostrar a realidade exterior. Esse “consenso sintético” ao qual nos referimos é a versão moderna das sombras: uma realidade fabricada que parece verdade porque todos os outros prisioneiros (ou seus avatares digitais) também a aplaudem.

O mito nos avisa que libertar-se da manipulação é um processo doloroso, que requer esforço, estudo e duvidar do que vemos e que, além disso, quem tenta corre o risco de ser ridicularizado ou “eliminado” por uma sociedade que pode preferir o conforto de suas sombras conhecidas ao desconforto de uma verdade complexa.

Fuentes: UBC Science, LMS Political Campaign, IDW Informationsdienst Wissenschaft.

https://www.granma.cu/mundo/2026-02-22/el-mito-de-la-caverna-20-cuando-la-ia-dibuja-la-sombra-en-la-pared-22-02-2026-21-02-33

@comitecarioca21



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