29 de mai. de 2026

ESSA É A PARTE DA HISTÓRIA QUE OS FILMES, SÉRIES E MÍDIA NÃO VÃO TE CONTAR.

       Crianças de Goiania vítimas do Césio-137 foram levadas a Cuba para tratamento após o acidente


    Carmen Diniz*

        Uma produção real, bem feita e bem dirigida, o seriado com 5 episódios da Netflix chamado Emergência Radioativa traz uma história dramática, um acidente evitável assim como as consequências terríveis do descaso coletivo. Até hoje é lembrado como o que foi na realidade: o pior acidente radioativo da história fora de uma instalação nuclear. 

     Em 1987, dois moradores da cidade de Goiânia retiraram de uma clínica radiológica desativada e abandonada há anos um objeto pesado, de chumbo, levando-o a um ferro-velho local. O objeto, um cilindro encontrado dentro de um recipiente de chumbo, começa a vazar um pó azul: o Césio-137, substância altamente contaminante de radioatividade.

     Pessoas encantadas com a cor e o brilho da substância passaram a manipular o pó sem saber o perigo que aquilo representava. Enfim, uma tragédia para os moradores da cidade que, com medo, passaram a discriminar quem tivesse ou não a mais leve suspeita de carregar no corpo o problema. O medo e a insegurança se instauraram no local.

   A história é realmente muito bem contada na série.

   Somente uma parte se suprimiu, infelizmente: a participação do sistema de saúde cubano no caso. Até por uma razão de reconhecimento por parte do nosso país, omitir o atendimento de Cuba se mostra uma falha sem sentido, até porque a série mostra médicos russos no atendimento aos contaminados em Goiânia. Dessa forma, aqui fazemos, por uma questão de justiça e mérito, um adendo importante à série.

                                          

Fidel recebe as crianças em Cuba.

             Um ano antes do acidente no Brasil, aconteceu o maior acidente nuclear mundial na usina de Chernobyl, na Ucrânia em 1986. Muito mais grave – por se tratar de uma explosão em um reator nuclear – Cuba se ofereceu e recebeu mais de 20 mil crianças ucranianas para tratamento na Ilha em 1990. (https://solidariedadecubarj.blogspot.com/search?q=chernobyl ) Sem contar com experiência em radioatividade, trouxe cientistas de outros países para auxiliar nos tratamentos. Assim foi criado um programa de saúde absolutamente gratuito: “um exemplo do que pode fazer um povo que, sem ter grandes riquezas materiais, tem a grande riqueza espiritual de haver-se educado na solidariedade", disse o ministro de Saúde cubano, José Ramón Balaguer na ocasião. Cuba sozinha tratou mais crianças de Chernobyl do que o resto de todos os países do mundo.

    É exatamente com base na solidariedade que dois anos depois, em 1992 na ECO92 realizada no Brasil que o Comandante Fidel Castro, informado da situação em Goiânia, abre novamente as portas de Cuba para receber as vítimas da radiação pelo Césio-137.

 Naquele mesmo ano recebeu um grupo de 50 brasileiros (34 crianças e 16 adultos pais ou responsáveis).

   As crianças foram hospedadas em Tarará, um balneário de praia perto de Havana que tinha sido uma espécie de resort/condomínio à beira mar para turistas endinheirados e que a Revolução Cubana transformou em uma espécie de colônia de férias para os pioneiros (crianças cubanas). Ali as 34 crianças brasileiras se somaram às crianças ucranianas afetadas pelo acidente nuclear de Chernobyl.

                                                       


Durante a estadia, as crianças passaram por uma bateria de exames médicos, incluindo avaliações hematológicas, radiológicas e exames de medula óssea. Ao todo, centenas de procedimentos foram realizados. Além do acompanhamento clínico, os pacientes receberam vacinas, tratamentos odontológicos e intervenções cirúrgicas de menor complexidade. Também houve suporte psicológico, considerado essencial diante dos impactos emocionais causados pelo acidente.

   Sobreviventes relatam que a experiência em Cuba foi marcada por acolhimento e estrutura adequada, contrastando com o cenário vivido no Brasil após o acidente. *

    Em Goiânia, muitas vítimas enfrentaram isolamento social, discriminação e perdas materiais, já que bens contaminados precisaram ser descartados. Estudos da Universidade Federal de Goiás apontam que esses fatores tiveram impacto significativo na saúde mental dos atingidos.

    Já em Cuba, os pacientes participaram de atividades recreativas, passeios e conviveram com outras crianças em tratamento, o que ajudou a reduzir o impacto psicológico. (https://www.novacultura.info/post/2026/04/28/o-amor-de-cuba-abracou-chernobyl )


* https://diariodegoias.com.br/cesio-137-cuba-tratamento-criancas-netflix/529738/

 *Coordenadora do Comitê Carioca de Solidariedade a Cuba.

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